Opinião

A bipolarização pressiona o cidadão a escolher entre um e outro dos grandes

Ismael Mateus

Jornalista

Nas últimas semanas, a vida política ganhou um grande impulso com a introdução da revisão pontual da Constituição no debate.

15/03/2021  Última atualização 11H43
Lamentavelmente, o clima do debate tem sido acompanhado de grandes ondas de intolerância política, onde as pessoas são agredidas e insultadas por conta da sua opinião. Por um lado, acentua-se grandemente a bipolarização entre a UNITA e o MPLA e, por outro, desenvolvem-se nas redes sociais grupos de activistas de cada um dos lados a insultar, escrever mentiras sobre quem tenha posições diferentes das suas.

Apesar de termos tanta coisa para discutir e que poderia servir para ajudar os políticos a encontrar melhores opções legislativas, o debate público está pobre e preso a questões menores. Está a ser intencionalmente desviado para menoridades em vez de ser criado um clima propício ao debate, à contribuição de quem queira e uma participação qualificada dos partidos políticos.

Infelizmente, são os dirigentes partidários de diferentes níveis os primeiros a lançar farpas e suspeição sobre quem pense diferente e, com isso, a mobilizar todo um "séquito” de fanáticos que se dedicam a partilhar, produzir e agitar uma cadeia de insultos, acusações e ataques a quem pretenda discutir o conteúdo destas mudanças.

E assim não se discute país nem tema nenhum. Em vez de ideias, as pessoas são gratuitamente insultadas de todas as maneiras possíveis, criando-se uma situação de absoluta intolerância para quem não partilhe do modismo da bipolarização. Nas últimas eleições tínhamos conseguido o avanço de ter os partidos políticos a apre-sentarem propostas para o país.

O MPLA apresentou o seu programa e é com base nele que hoje fazemos todos uma avaliação do desempenho. Portanto, ter propostas para o país é essencial para que os cidadãos possam, ao fim de um mandato, avaliar o grau de cumprimento das promessas. No caso do Presidente João Lourenço usamos como referência os seus próprios compromissos eleitorais e o discurso de posse, e esses são os pontos de partida para o escrutínio dos cidadãos.

Criticar o adversário não é um compromisso, nem permite que posteriormente façamos o tal escrutínio. É importante ter-se objectivos e a palavra empenhada. É esta a primeira condição para a política com ética. O que se compromete a fazer?
Nos principais partidos da oposição, os compromissos eleitorais não foram assumidos pelos actuais líderes e faz todo o sentido que os actuais digam, em concreto, aos cidadãos ao que vêm, o que mantém dos velhos compromissos e que prioridades defendem.

Em 2017, o presidente Samakuva defendeu um programa baseado no resgate da cidadania e na reforma do Estado, tendo apresentado quatro eixos estratégicos, nomeadamente sete medidas de um programa de emergência nacional, que iria desencadear se ganhasse; a promessa da reforma do Estado, aumento das responsabilidades sociais do Estado e uma alteração dos alicerces do desenvolvimento económico.

Quase cinco anos passados, é normal que perante as mudanças havidas, no estilo de governação e também de presidente na UNITA e na CASA-CE, haja na sociedade a expectativa quanto ao conteúdo das promessas do segundo maior partido da oposição. Não é aceitável que se pretenda que a sociedade passe um cheque em branco aos concorrentes. Não nos podemos contentar apenas com as críticas à governação e quem quiser dirigir o país, seja do MPLA ou da UNITA, tem o dever de nos dizer para onde o quer levar. Essa é a génese do voto: optar em função do que se promete. É óbvio que é preciso ter em conta os timings de intervenção.

Estrategicamente pode não ser agora o momento apropriado para revelar tais ideias, o que é compreensível e evita a ideia de uma estrondosa injustiça contra a oposição porque queremos que nos diga o que pretende e para onde pretende levar o país.
De resto é dessa contradição que virá o progresso. A expectativa é que sobre o que foi ou está actualmente a ser feito, os próximos programas de governo acrescentem novos desafios e novas promessas.

O outro grupo de críticas que não são aceites tem a ver com o facto de se ter enfraquecido a ideia da terceira força. Os problemas internos da CASA CE e a colagem de uma frente comum com à UNITA acentuam a bipolarização do cenário político angolano e isso não é bom. A bipolarização pressiona o cidadão a escolher entre um e outro dos grandes e em teoria corremos o risco de ter um Parlamento com menos partidos, menos vozes divergentes e menos cores políticas. Se olharmos para o nosso sistema político, isso agrava sobremaneira a bipolarização.

Goste-se ou não desta linha de pensamento, há pelo menos em tese que a admitir como hipótese. Mesmo que institucionalmente os partidos não deixem de existir, em termos práticos é a coligação que os representará. Haverá terceira força? Haverá uma voz alternativa aos grandes? Não acreditamos. O tempo dirá quem tem razão.

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