Opinião

A Clara Luz e a escura sombra

O que acontece com o desconhecimento, falta de sistematização e divulgação da informação sobre o tipo de solos e da areia dos bairros da cidade de Luanda.

24/11/2020  Última atualização 06H28
Conversando com a minha amiga Clara Luz - que não estudou geologia -, ela explicou-me há dias como, de um modo que estima ser intuitivo, sempre que tem que procurar uma casa para arrendar  na cidade de Luanda (ou na sua periferia) é capaz de só pelo tipo de solos e de areia (cor, granulação, textura, grau de absorção de água, entre outras), saber se a zona, a área ou o bairro em que estava poderia ser uma opção a ter em conta para viver ou se deveria descartá-lo, imediatamente, por pouco seguro, por precário e por ser uma zona de risco.

O saber intuitivo da minha amiga é útil, ajuda-lhe a evitar constrangimentos maiores, por exemplo, que ela viva numa zona onde quando chove haja enchente de água, o que faz com que a sua família se sinta mais segura. Aos elementos já mencionados, a minha amiga Clara Luz tem, também, certamente em conta nem que for só mesmo fruto da sua observação empírica, o nível de renda dos vizinhos, a proximidade ou não dos centros comerciais, das escolas, dos hospitais e de mercados, ou ainda, se a zona fica numa parte baixa ou alta da paisagem e adapta a sua escolha ao dinheiro que tiver disponível para pagar o aluguer.

Mas, pensando em voz alta, imaginemos que, em vez de ser a minha amiga Clara Luz a chegar a estas conclusões à sua maneira fosse a academia (universidades, escolas de negócios e altos estudos, ou semelhantes) , os meios de comunicação social e a administração do bairro, comuna, município ou província quem oferecesse estas informações práticas ou, de um modo mais amplo, o conhecimento científico indispensável aos cidadãos, explicando, alertando e, sempre que necessário, interditando o assentamento de moradias em zonas de risco, evitar-se-iam muitos problemas fáceis de resolver, situações confrangedoras ou trágicas.

O que acontece com o desconhecimento, falta de sistematização e divulgação da informação sobre o tipo de solos e da areia dos bairros da cidade de Luanda e com toda a informação útil que fizemos referência acontece com muitas mais coisas, temas e assuntos dos mais diversos domínios da vida política, económica e sociocultural do nosso país. Daí que, por exemplo, quando uma instituição académica ou não, organização filantrópica, associação da sociedade civil ou instituição pública anuncia que vai fazer um ciclo de conferências, workshops, conversas ou debates temos muitas dificuldades em, a priori, saber se do que se trata é mesmo de produção de conhecimento útil ou se, na prática, o anúncio quer só provocar que quem organiza seja notícia.
Os lugares comuns e a redundância, na prática, funcionam tanto como labirintos como armadilhas: andamos a girar e a girar sobre o mesmo umbigo para muito pouco..

O que quero dizer é que se sistematiza e se produz muito pouco conhecimento ou quando ele existe não é divulgado de um modo massivo para quem o possa utilizar em proveito próprio. Resultado, as pesquisas sobre a vida e obra de um autor, tema ou problemática que diz respeito à história do nosso país ou, de um modo geral, a produção de conhecimento é mesmo escassa, inexistente ou pouco conhecida: é como se uma escura sombra nos perseguisse ao ponto de impedir que nos libertássemos.
Ou seja, se isso fosse pouco, temos que admitir que a redundância abunda e isso explica que, salvo raríssimas excepções, continuamos a assistir uma e outra vez, sem nada de novo, desde os anos 80 até a actualidade, os mesmos temas, os mesmos autores, especialistas e investigadores a escreverem (ou a publicarem) sobre as mesmas coisas sem qualquer abordagem, informação ou perspectiva nova, amiúde sem sequer ser diferente como se a produção de conhecimento não fosse o oposto a intocável retórica e ao sagrado.

O facto de se publicarem tão poucos livros produto de investigações sérias e profundas; a inexistência de revistas científicas com a revisão entre pares para que o artigo possa ser validado pelo conselho editorial; a regularidade com que a palavra (por via de opiniões e de comentários) é utilizada de maneira irresponsável no espaço público e na opinião divulgada, pela rádio, pelos jornais e pela televisão deveria preocupar-nos a todos.

Mas, também, a forma como as crenças, as superstições e as religiões operam, entre nós, como autênticos embustes, produzindo mentiras ardilosas para enganar ignorantes deveriam preocupar-nos muito. Temos que admitir que a falta de produção, sistematização e divulgação de conhecimento científico fazem-nos cúmplices do obscurantismo e isso deveria preocupar o Estado laico, ao que pertencemos, para acelerar a nossa saída da escura sombra do subdesenvolvimento.

Adriano Mixinge

Escritor e Jornalista

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