Desporto

A guerreira que superou limitações da sua condição

Esperança Gicasso, atleta portadora de deficiência visual parcial, é uma das muitas mulheres que superou na vida todas as adversidades consequentes das suas limitações. Encarou o mundo de cabeça erguida e foi à luta.

07/04/2021  Última atualização 13H45
© Fotografia por: DR
Aos 29 anos revela, em entrevista ao Jornal de Angola, que em momento nenhum sentiu-se diminuída e muito menos inferior. 

No mês consagrado a todas as mães, esposas, irmãs, filhas, enfim, às mulheres, esta "guerreira”, que muito cedo deixou a sua terra natal, Malanje, para enfrentar Luanda, em busca de melhores condições de vida, notabilizou-se no desporto e é hoje uma referência do atletismo paralímpico feminino em Angola. 
 "Foi a directora do ensino especial, a professora Ana Maria que me incentivou a praticar o atletismo. Confesso que não sentia nada pela prática do desporto, mas aos poucos depois de começar senti-me bem e atraída por esta modalidade. Na altura tinha 16 anos de idade”, salientou. "Sinto-me bastante feliz e confortada pelo facto de ter abraçado o desporto. Hoje digo sem qualquer receio e com muita satisfação que o desporto fez muito bem a minha vida. Tive um grande desenvolvimento psicológico, motor, emocional e digo com orgulho que valeu a pena abraçar este desafio”, conta emocionada. 

Despida de qualquer complexo defende que todo o ser humano tem o seu valor, não obstante a sua condição social, política e física. Realça que ninguém é superior a ninguém e diz que o importante na vida é respeitarmos a diferença. "Ser deficiente não implica nada. O que conta é a nossa vontade, e o querer de podermos fazer aquilo que gostamos. No meu ponto de vista e no meu caso particular, sinto-me igual a qualquer ser humano. O único senão é que os outros vêm com facilidade e eu não. As necessidades são todas iguais”, precisou. Com deficiência na ordem dos noventa por cento confessou que no princípio em função da sua especificidade sentiu imensas dificuldades para competir nas provas internacionais, devido as condições impostas de acordo os regulamentos. 

 "A minha deficiência visual é parcial, por isso quando corro no exterior do país vedam-me a vista com uma fita escura. No princípio sentia algum desconforto, mas com o tempo fui me adaptando e hoje não tenho qualquer tipo de problema”, explicou. Em contagem decrescente para um dia colocar o ponto final na sua bem-sucedida na carreira desportiva, já que nada é eterno, espera continuar nas pistas por mais alguns anos e depois definir o seu futuro. "Assumi este desafio, gosto e estou preparada para o que der e vier”, completou confiante num fim de carreira promissor. 

"Neste momento tenho o foco centrado para os Jogos Paralímpicos de Verão, de 24 de Agosto a 5 de Setembro de 2021, na cidade de Tóquio (Japão). Se Deus permitir pretendo dar o meu máximo, fazendo o melhor para a minha carreira e o meu país. É bom que fique bem claro, não estou a prometer trazer medalha porque não gosto de fazer promessas, mas quero dar o meu melhor”, elucidou. Depois de duas presenças nesta competição ( Inglaterra 2012 e Brasil 2016) , sem conquistar qualquer medalha, Esperança está confiante e tem esperança que a terceira pode ser de vez, por isso acredita que pode atingir o pódio, pois tem trabalhado para este objectivo. 

"O meu grande desafio é conquistar uma medalha nos Jogos Paralímpicos, a conquista que falta na minha carreira, daí a concentração estar virada para os jogos do Japão 2021 e colocar assim a cereja no top do bolo, isto é, fazendo o pleno em todas as grandes competições internacionais”, sublinhou. Reconhece que para alcançar tal propósito, não será uma tarefa fácil pois tem muitas etapas a superar, ainda assim sente-se lisonjeada pelo facto de fazer parte da família olímpica, um ambiente ímpar na vida desportiva de qualquer atleta. 

"Competir numa olimpíada é o sonho de qualquer atleta. Já tive este privilégio em duas ocasiões e se tudo correr bem, o Japão será a terceira presença na maior prova desportiva a nível do Planeta. Com fé e a graça de Deus acredito numa boa prestação. Aliás, só ele sabe o dia de amanhã”, disse crente numa prestação airosa. 

A relação com o actual guia Márcio Neto e tantos outros com quem teve o privilégio de dividir às pistas e competirem como irmãos siameses é o melhor possível. "As vezes tem havido alguns desentendimentos, o que é normal nos seres humanos, mas de um modo geral a relação é boa”, louvou.  "Todo e qualquer ser humano em véspera de uma competição sente um certo calafrio e o nervosismo toma conta de nós, por isso temos de estar concentrados e confiantes que tudo vai dar certo. Mas como as pessoas portadoras de deficiência têm o sistema nervoso mais alterado e por vezes as coisas mudam. É uma questão de nos entenderem”, completou.
"A prática do desporto mudou a minha vida” 
Esperança reiterou estar conformada com a sua condição e não se sente especial pela sua situação, por isso apela a todas as mulheres para continuarem a lutar pelos seus direitos e igualdades do género. "Vamos manter a mesma força, valorizarmo-nos mais para sermos respeitadas. Com dignidade vamos vincar o nosso dinamismo porque somos às responsáveis pelo futuro de uma sociedade. A mulher além de gerar, cria, cuida e educa”, acentuou e defende mais garra na solução dos problemas quando for necessário.  

"Não devemos baixar a cabeça por mais contrariedade que nos depararmos ao longo da vida. Devemos acreditar sempre que somos capazes de superar todas as contrariedades que nos depararmos na vida, pois como mulheres somos um ser especial ", completou. Confessou que dos tombos que teve na vida chegou a aventar a possibilidade de desistir da prática do desporto, mas uma voz do fundo tocava no seu coração e aconselhava ao não abandonar as pistas, pois o atletismo passou a fazer parte da sua vida. 
 "Valeu a pena e digo que foi bom. Deus operou na minha vida porque foi vontade dele. Houve altura em que quis desistir, mas a força de Deus foi maior. Ouvia sempre uma voz do fundo, 'filha não desiste'. Confesso que a prática do desporto mudou a minha vida e da minha família de um modo geral”, agradeceu.  "O ano passado quando estávamos a nos preparar para os Jogos Olímpicos, recebi a notícia do falecimento do meu pai. Fiquei tão transtornada que por pouco desisti do atletismo. Apenas disse, meu Deus porque agora neste momento que preciso tanto do meu pai, já que ele era o meu suporte, o melhor amigo e conselheiro. Foi muito triste para mim, mas Deus conseguiu me consolar”, disse com lágrimas nos olhos.  

Um agradecimento especial ao seu técnico José Manuel e ao Armando Sayovo, a maior referência do desporto paralímpico angolano e um dos melhores de África. "Armando Sayovo é a nossa lenda e foi a minha inspiração quando abracei esta modalidade, mas não está posto de parte o surgimento de outros com o seu talento”, vaticinou. Por último conta que a não ida ao Campeonato do Mundo em 2019, por lesão mexeu com a sua estrutura mental, "mas como são coisas da vida, temos de estar preparados. Felizmente consegui dar a volta por cima e hoje estou aqui para mais desafios”, concluiu.
"Sou uma mulher batalhadora” 

Como mulher sonha em ter o seu lar, gerar o maior número de filhos possíveis, constituir uma família feliz e dar testemunhos da sua experiência ao longo da sua vida para as gerações vindouras. Revelou ter um orgulho especial pelo seu noivo, pessoa que considera ser bastante compreensível e um verdadeiro companheiro. 

"Apesar de ainda não ser efectivamente uma dona de casa porque ainda não vivo com o meu marido, já que sou apenas noiva, compartilho a minha casa com a minha mãe e irmãs, mas sou a responsável da casa e tem sido tarefa árdua”, declarou impressionada com a sua condição.  "Devo dizer que a minha vida no princípio não foi fácil. Ser estudante, trabalhadora e desportista, aliada a minha situação com certas limitações. Foi uma aventura, mas quem tem força de vontade e amor por aquilo que faz consegue superar todos os obstáculos”, assegurou. 

Contou que as triplas tarefas e responsabilidades foram desafios que a amadureceram muito cedo. "Tinham os três períodos fechados. De manhã dava aulas na escola de ensino especial, a tarde ia a faculdade e no fim do dia tinha que treinar. Não foi uma rotina fácil, mas com a ajuda de Deus consegui”, enalteceu. "É preciso deixarmos determinados preconceitos e não vermos as coisas como tabu. Somos todos seres humanos e o facto de sermos portadores de deficiência, não impede de praticarmos desporto. A título de exemplo, sou uma mulher batalhadora como as outras, o que importa é o foco que a gente tem e crer nele”, afirmou. 

Esperança com a modéstia que a caracteriza confessou que "desde os 16 anos de idade que a minha vida era feita de batalha para ser o que sou hoje. Estou licenciada e sinto-me orgulhosa, por tudo que passei e fiz na minha vida. Não estou arrependida e se tivesse que repetir faria com o mesmo empenho e dedicação”, completou. 

Revelou que ao contrário  muitos devem estar a interrogar-se sobre a sua formação académica pelo facto de ser uma estudante especial, esclareceu que a política adoptada pelo estado angolano em que permitiu a inclusão sem descriminação no ensino superior de portadoras de deficiência conseguiu concretizar um sonho de criança. 

 "Desde que foi permitida a inclusão de estudantes com deficiência nas Universidades, não tive qualquer tipo de problema. Se somos todos iguais perante a Lei, o que tu sentes eu sinto, temos as mesmas necessidades e muito mais coisas em comum, penso que neste capítulo não há qualquer diferença”, agradeceu

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