Opinião

A vacina como “passaporte”

Filomeno Manaças

Jornalista

O mundo deu um passo importante ao conseguir a produção de vacinas contra a Covid-19. Para satisfação geral, não há apenas uma, mas várias vacinas que estão já a ser administradas de acordo com o plano de vacinação que cada país está a implementar.

20/03/2021  Última atualização 09H35
O longo caminho percorrido pela ciência, para chegar até a esta fase, em que podemos suspirar com algum alívio, é mesmo só, ainda, um passo. Nenhuma vacina dá a garantia de imunização total contra a Sars-Cov-2 e nenhuma assegura que quem já tenha contraído o vírus não volte a ser reinfectado. Essa certeza, que gostaríamos de ter com o surgimento das vacinas, não implica anular ou desvalorizar os resultados conseguidos. Há, pelo menos, a garantia do reforço do sistema imunológico, da sua melhor preparação para combater uma eventual infecção pelo novo coronavírus e, deste modo, baixar consideravelmente o número de mortes que a pandemia tem vindo a causar.

Por isso é grande a expectativa de que o regresso à normalidade possa estar para breve. Nos Estados Unidos, o novo Presidente, Joe Biden, já se pronunciou no sentido de que espera que o 4 de Julho próximo, Dia da Independência do país, possa ser comemorado num ambiente diferente do actual, em que a pandemia da Covid-19 impõe o distanciamento físico entre as pessoas, obriga ao uso de máscaras e ao constante recurso ao álcool gel e à lavagem das mãos com água e sabão para quebrar a cadeia de  transmissão do vírus.

Em função do seu surgimento, as vacinas passaram também a ser consideradas como um "passaporte”, como o requisito indispensável para quem queira empreender viagem de um país para outro. Tem a vacina contra a Covid-19? Pode viajar! Não Tem? fica em terra. Portanto, à semelhança do que já era exigido em relação à febre amarela e à varíola, a Covid-19 entra agora para o catálogo de enfermidades cuja imunização pode habilitar o indivíduo a transpor várias fronteiras.

Atrás dessa realidade, já começaram a surgir alguns conflitos, que a Organização Mundial de Saúde terá de resolver, face à tendência/tentação de países que produzem uma determinada vacina impedirem a entrada no seu território de pessoas que tenham sido vacinadas com outra, que não foi por si fabricada ou aprovada. Cabe à OMS uma palavra final em relação à qualidade das diferentes vacinas que estão a ser produzidas, e o mais importante é certificar que elas são realmente eficazes para combater a Covid-19.

A vacina como passaporte, espera-se, não deve gerar uma espécie de "guerra de vacinas”, em que se procura, sem evidências científicas, desqualificar outras vacinas. Esse procedimento de exclusão é óbvio que pode gerar outros problemas de ordem política, com evidentes resultados no plano económico.

O facto de, para a situação que afecta actualmente o mundo inteiro, terem vindo soluções de diversas partes do globo - dos Estados Unidos, da Grã-Bretanha, da Alemanha, da Rússia, da China, da Coreia do Sul, de Israel, da Austrália, da Índia, do Brasil e de outros tantos países, com o concurso de especialistas de várias nacionalidades -, é garantia de que o conhecimento especializado está cada vez mais disseminado por vários pontos, contrariamente a uma época em que havia uma concentração em certas zonas geográficas do planeta. Em função disso, a velocidade de produção de vacinas também aumentou, pois, actualmente, são vários os países, mesmo do chamado Terceiro Mundo, que estão capacitados para produzi-las em grandes quantidades e satisfazer, em curto espaço de tempo, a demanda do mercado.

Na corrida às vacinas, ninguém quer ficar para trás, pois essa é uma condição importante para poder participar, de modo efectivo, nos esforços para que a economia mundial retome os níveis de actividade pré-pandemia. A Covid-19 veio aumentar o nível da pobreza em todos os países, afectando severamente o tecido social e freando a implementação de muitos dos projectos sócio-económicos que estavam em curso. De um modo geral, todos os sectores da vida económica acabaram por ser afectados.

Para Angola, essa realidade foi particularmente sentida no ramo dos petróleos. Com a pandemia, o mercado retraiu-se, baixaram consideravelmente as compras de petróleo por parte dos grandes consumidores. Mesmo os grandes produtores tiveram que digladiar-se para conseguir receitas, tendo em conta que a procura desceu de forma brutal, o que se reflectiu no preço do crude, que chegou a estar a menos de 30 dólares o barril.

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