Opinião

A vez e a hora do Kicombe

É tudo muito estranho o que se está a passar connosco. Aliás, como no resto do mundo. No que respeita à parte humana do universo, a noção da grandeza do perigo da pandemia, da angústia e do rasto de morte que o coronavírus deixa é compreensível.

21/02/2021  Última atualização 10H20
No que a nós angolanos diz respeito, é porém, como em tudo, ou quase tudo, diferente. É inaudito, desusado, enfim, é insólito o que nos cerca. Juntando-se à Covid-19 e suas nefastas consequências, colou-se ao flagelo outra preocupação. Apegou-se como o visgo com que na infância caçávamos passarinhos. Colou-se a nós, ainda no tempo antigo, uma maleita que se distingue das outras. Disfarçada ou meio escondida ela permite-se atormentar-nos diariamente e desde então. Trata-se da mentira, a mais vil das formas de ludibriar o próximo, no caso de Angola, toda uma população.

A arte de enganar, sabemos todos, é perniciosa. Tem vários graus de importância, grande quando sob o seu manto se escondem casos cabeludos de interesse nacional, de menos quando nos surgem no caminho pessoas como o ilustre e mui nobre gabelense que, por via indirecta e com infantil mentira, vez chegar a mim uma mensagem contestatária ao meu último escrito. Tem todo o direito de o fazer e o seu conteúdo não é tão importante assim. Contudo, aflige-me sempre quando surgem em cena os bajuladores, aproveitadores e sectários da praça situacionista para me chicotear. No caso em apreço, bradou que sou injusto e incorrecto no meu palavreado, que maltrato respeitáveis colaboradores da nossa TV, os comentadores e os directores da televisão, a todos eu trato, segundo o arauto, sem nenhuma cortesia.

Defendo-me como posso e, desde logo, dizendo que na verdade, classifico-os, com a verdade dos factos, apenas pela atitude e pela utilidade pública do trabalho que realizam. E é nesse âmbito que travo as minhas guerrinhas contra a mentira. Nunca deixarei de afirmar, por dever de consciência, que a mentira é sim, por tudo o que sabemos, a grande responsável por todos os grandes males de que padece a nossa sociedade. É a mentira que transforma muitos homens e mulheres em eternos sonhadores e cobardes desnaturados, pessoas que perdem, paulatinamente, perante o nosso pequeno mundo, sem se aperceberem, a dignidade, a moral, a ética e a coluna vertebral.

Felizmente, existe muita outra gente que se afasta dos invertebrados e não se deixa alimentar pelas mentiras dos que fazem da nossa vida um inferno e aos quais, ainda temos quase que agradecer a sobrevivência. Por essa razão, continuarei nesta senda de olhar com olhos de ver e enfrentar os que, através da mentira, se apegam apaixonadamente às benesses proporcionadas pelo dinheiro e ao natural bem-estar que vem dele. Aqueles cidadãos que andam de braço dado com a mentira de um lado e o vil metal do outro. Pugnarei sempre pela verdade que às vezes magoa e não me conterei na denúncia que faço sobre as coisas más que realmente vão acontecendo no nosso país.

A mentira permitiu que a gerência do nosso país fosse, durante anos a fio, negligente sob o olhar silencioso de muitos chefes, contrariamente ao que, felizmente aconteceu na salvaguarda da integridade territorial. Mas descurou a defesa do seu rico património, em consequência de incompreensíveis erros que se repercutiram pelo país, com a outorga de poder a gente incapaz mas rigorosamente protegida. Resumindo e seguindo a linha do insólito, autorizou-se que se consumasse o assalto brutal e se transformasse Angola no antro de miséria cívica e moral que é hoje; a mentira permitiu que, nos dias de hoje, acontecesse Cafunfo, o inédito julgamento a um rei tradicional, os dedos apontados a governantes que deviam mas não têm coragem de falar para se defender, os vários processos contra dirigentes e magistrados nas províncias e outros desastres que nos fazem sentir desgraçados. E assim vamos, aguardando eternamente pela democracia, pela retoma da economia e pela devolução da decência perdida, isto para aqueles que alguma vez a tiveram. Enquanto isso, ouvem-se promessas, entre muitas mentiras, incapazes de se transformarem nas verdades de que o povo precisa ouvir e ver realizadas urgentemente.

Na terra onde nasci, em Calulo do meu Libolo, região de riquíssima fauna e flora, habita nas suas densas matas, um animal semelhante ao cão, bravio e escuro no pelo, mestre enganador da população selvagem. Tem uma característica invulgar: o cheiro nauseabundo que deixa por onde passa e em quem toca, um cheiro repelente, horrível, difícil de suportar. Serve-se dessa particularidade para enganar os animais mais fracos de que se alimenta. Com o embuste que é em tudo igual à mentira do homem grande que tem poder sobre os outros mais pequenos, leva os incautos bichos para buracos e matagais cerrados onde depois os encurrala e devora sofregamente, alimentando-se assim por largo tempo em lautos banquetes. Esse animal natural da minha bwala, chama-se Kicombe, e faz-me em certos momentos em que medito na vida que levamos, pensar na semelhança de certos homens com esse animal mal-cheiroso e enganador.

Penso nele no momento em que voltamos a um impensável antigamente da vida que nos parece o recuo de um século no tempo; quando verificamos, incrédulos, o regresso às revolucionárias jornadas de limpeza das ruas, não por voluntarismo mas para nos substituirmos a quem competia fazê-lo; trabalho voluntário imposto ao cidadão esfomeado para suprir a falta de pagamento às operadoras que realizavam essa tarefa para o Governo, reflectido em toda a escala da cidade capital de Angola.

Quando vemos tudo isso a ser camuflado pela demagogia, a dar vontade de perguntar para onde foi o dinheiro orçamentado para esse serviço, sou inevitavelmente obrigado a captar-lhes ao longe o cheiro e sentir uma enorme náusea, a admitir que há, sim, gente que se assemelha ao Kicombe. Que cheira muito mal e engana os incautos. Por isso, e todo o resto, eu aconselho o meu conterrâneo da Gabela que, ao invés de se preocupar comigo, olhe melhor o que se passa na capital da nossa província e nos outros municípios do Kwanza-Sul. Temos, eu e muitos filhos dessa região, justificado receio que comecem a surgir espalhados por aí, a trabalhar como eles sabem, núcleos do Movimento Espontâneo de triste memória. Então, até domingo que vem, à hora do matabicho.

Jacques dos Santos

Escritor

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