Entrevista

“Ainda não houve nenhuma morte associada à vacina”

A representante da OMS em Angola, Djamila Cabral, faz uma avaliação positiva da luta contra a pandemia em Angola. No espaço Grande Entrevista, da TPA, disse que a Comissão Multissectorial tem cumprido com o seu papel e que a campanha de vacinação revela que o Ministério da Saúde e outras autoridades estão comprometidos com a causa. Garantiu que as vacinas foram testadas e passaram em todas as fases dos ensaios clínicos. Assegurou que “felizmente ainda não houve nenhuma morte associada à vacina, o que representa uma grande vitória”

25/03/2021  Última atualização 08H18
© Fotografia por: DR
Que caracterização faz, um ano depois, desde que o mundo enfrenta a Covid-19?  
A pandemia já fez cerca de 23 milhões de casos, dos quais quase três milhões perderam a vida. Em África há cerca de três milhões de infecções, com pouco mais de 75 mil mortes. A boa nova é que a maioria das pessoas afectadas sobreviveu e recuperou. Em África cerca de 85 por cento das pessoas que testou positivo recuperou. A Covid-19 veio perturbar todos os aspectos da vida das pessoas e provocou uma pressão sanitária em todo o mundo. Houve consequências socio-económicas e até escolas fechadas. Temos uma geração de crianças que passou praticamente um ano sem ir à escola. Alguns tentaram estudar à distância, mas para muitos é um ano lectivo que está perdido. Essa realidade trará, para muitos,  consequências. A pandemia afectou negativamente países africanos, onde a grande maioria da população trabalha no sector informal, cujo ganha pão é no dia-a-dia. O facto dessas pessoas não trabalharem num dia, é um problema, imagina não poderem trabalhar um ano. É uma pandemia que veio mostrar o quão frágeis somos, em termos de saúde e da capacidade de responder a uma situação como esta, proteger o mundo para que possamos voltar à vida normal, que nunca mais será a mesma.  
Por outro lado, temos uma grande expectativa em termos de vacinas, em que se assistiu a uma grande mobilização da indústria farmacêutica e dos centros de investigação para a sua produção. Houve um número grande de estudos e ensaios que foram realizados para a descoberta do tratamento da doença. Com isso, em quase todo o mundo, em particular em África, houve uma melhoria no sistema de saúde, com destaque para a construção de laboratórios. Hoje, os 55 países do continente africano viram reforçar o seu sistema de saúde. O mundo está diferente, aprendemos muito e temos de continuar porque ainda não vencemos.


Na vivência do novo normal qual é o aspecto que mais temos de ter em conta?

Talvez o uso da máscara que é o mais prático. Talvez vamos usá-la ainda por muito tempo. Há também aspectos muito positivos, como lavar e  higienizar as mãos. Será uma das grandes marcas. Daremos mais importância à saúde e os governos vão prestar mais atenção à saúde.


Enquanto organização, a OMS confrontou-se com a primeira grande pandemia desde a sua existência?
Sim, desta natureza e amplitude. Não há nenhum país que foi poupado. Tivemos de nos adaptar e fazer uma reprogramação dos recursos humanos e financeiros para aumentar a capacidade de apoio aos países na preparação e resposta à pandemia. A OMS está num processo de reforma focada numa acção conjunta mais forte nas emergências de saúde pública. Quando houve a crise do ébola na África Ocidental, houve muitas críticas pela forma como a organização respondeu. Por isso, nesta reforma em curso, as emergências ocupam um espaço fundamental, com o foco na melhoria da capacidade de resposta.


Essa capacidade significa antecipar-se e não esperar que as coisas aconteçam?

Também. Porque a actuação nas emergências tem a ver com a preparação para dar uma resposta rápida e fazer com que o sistema de saúde não desmorone. Todo o ciclo de resposta e preparação às emergências faz  parte daquilo que a OMS tem estado a reforçar durante estes anos. A Covid-19 foi uma oportunidade para mostrar que esta capacidade pode ser atingida e que podemos estar à frente de situações como estas em todo o mundo, com espírito de coordenar e estimular a investigação.


Este papel mais activo da OMS não poderá ser encarado eventualmente como um risco de interferência na gestão das políticas de saúde dos países?

Pode existir este risco, mas não é a intenção. A OMS é um organismo de conselho, advocacia, para que os Estados adoptem determinadas políticas e estratégias. Não temos uma postura de avaliação e de crítica. Aliás, temos a convicção de que os Estados são soberanos e estão melhor posicionados para saber o que precisam. Muitas vezes não concordamos, mas o nosso trabalho é mostrar as evidências e persuadir de que há necessidade de se fazer alguma mudança. É verdade que há situações que podem ser percebidas como uma ingerência nos assuntos internos.


Na fase inicial da pandemia houve intervenções críticas de alguns Estados em relação à OMS. Algumas até com o intuito claro de desacreditar a organização. Alguma vez  a organização viveu um momento tão sensível ao ponto de haver tentativas políticas de desacreditar o seu papel?
Essa pandemia é o maior desafio da OMS e as críticas são também uma forma de melhorar aquilo que estamos a fazer. A OMS é uma organização dos países e são os Estados-membros que constituem a organização. A Assembleia Mundial da Saúde é o grande órgão decisivo no qual os ministros da Saúde definem os trabalhos a serem realizados. É normal que alguns  países levantem certas questões. Temos de ter a capacidade de dar a resposta e tentar responder à demanda dos países. Penso que os primeiros momentos da pandemia foram difíceis para todos e talvez tenha havido alguns excessos. Mas depois de um ano há um reconhecimento mundial de que o trabalho que a OMS tem vindo a fazer tem a sua importância e que o mundo precisa de uma estrutura como essa para coordenar as acções.


Há países que querem ter um papel mais dominante no seio da organização, uma vez que são os maiores contribuintes?

Todos os países contribuem para a OMS e foram os próprios ministros da Saúde que definiram os critérios de contribuição. É claro que os países mais ricos contribuem mais do que os pobres, mas isto não significa que quem contribui mais tem mais direitos. Está patente na Constituição da OMS. Temos alguns países que contribuem de forma voluntária, além da contribuição normal. Os governos têm direito de exprimir as suas posições e nós tentamos entender, explicar e corrigir. Há comissões de avaliação e auditoria que são feitas à OMS a pedido dos Estados-membros para que tudo possa ser o mais transparente possível.


Ouvimos alguma submissão da OMS a um determinado país. Serão estas tentativas de transformar a OMS em arenas de conflitos em determinados países?

Penso que não há este interesse. Não seria desejável, porque  organizações como a OMS foram criadas para serem lugares de consenso e juntar forças para combater certos males. A organização foi criada para ter pessoas mais saudáveis em todo o mundo. Não vejo como uma estrutura como esta possa criar ou facilitar conflitos. Se houve tentativas penso que também não funcionaram.


Não se conhece até hoje a origem do vírus Sars-CoV-2. A missão da OMS que esteve a trabalhar na China ainda não produziu algum relatório?

A missão esteve a trabalhar na China durante quatro semanas, já regressou e está a preparar o relatório e em breve será apresentado. A OMS não se pode pronunciar sobre a origem do vírus enquanto não se concluir o relatório com evidências claras. Às vezes há alguma impaciência, mas temos de cumprir com algumas regras, porque é a saúde das pessoas que está em causa e não podemos trabalhar com especulações.


Como não existem evidências claras sobre a origem do vírus, ainda não há um tratamento para a doença?

A falta de tratamento não tem a ver com a descoberta da origem do vírus. São dois assuntos diferentes. Ainda não há nenhum tratamento para a Covid-19. Os vírus são muito difíceis de tratar. Existem várias iniciativas que a OMS tem estado a coordenar na tentativa de encontrar um tratamento. O que tem aparecido são medicamentos que podem ser usados para evitar que os quadros clínicos se tornem muito graves, como a dexametasona, que tem um efeito no desenrolar da doença se forem administrados a pacientes com sintomas não muito graves e diminui a gravidade da doença. Há outras iniciativas que estão a ser estudadas, como a de tratamentos serológicos, mas as evidências que existem não são suficientes para que possa haver uma orientação definitiva.


Olhando para o elevado número de pessoas recuperadas dá para perceber que foram tomadas decisões acertadas até ao momento?

Na verdade, a maioria das pessoas não fica doente ou não apresenta nenhum sintoma, outros têm poucos sintomas, como febre ou gripe. Mesmo que a percentagem dos que ficam doentes não seja muito elevada, outros precisam de cuidados mais específicos. Muitos países têm  problema de poder dar resposta, mesmo para aqueles que representam uma percentagem de dois a cinco por cento e ficam graves. Esta franja é grande em relação à capacidade que temos de cuidar deles e os salvar.


A partir do momento em que se detectam os sintomas é fácil tratar a doença?
Não é que seja fácil. A maioria não precisa de tratamento específico. A maioria ou é assintomática ou tem sintomas leves. Mas os infectados que apresentam um quadro grave são difíceis de tratar e sobrecarregam o sistema de Saúde,  porque precisam de um tratamento mais especializado, às vezes não se tem resposta à altura. 


Um ano depois da pandemia ainda existem Estados que negam a existência da doença, não tomam medidas, nem divulgam dados. Como é possível chegar-se a este ponto?

Ainda bem que não são todos os Estados. Mas, a OMS continua a trabalhar com esses países para mostrarem o interesse em divulgar os dados e tomarem medidas para salvarem vidas. Esperamos que isso aconteça logo, porque as populações nesses países estão a sofrer e até a morrer. Até hoje, a melhor arma para travar a doença são as medidas de protecção individual e colectiva. As vacinas são um complemento e só com elas não se chega lá.


Como se explica que a África, comparativamente à Europa ou à América, tenha números tão baixos de casos de Covid-19 e mortes?
Há vários elementos que explicam isso, apesar de estarmos convencidos de que não sabemos tudo à volta disso. Mas os elementos que são avançados têm a ver com a estrutura populacional em África, onde a maioria da população é jovem e quase 75  por cento tem menos de 50 anos. E como é sabido, as pessoas com mais idade têm mais consequências e representam o peso da doença. A outra hipótese que existe é de que em África fomos afectados pela pandemia mais tarde. Tivemos tempo de preparação, os países fecharam os aeroportos, enquanto outros apostaram num confinamento total. As medidas foram implementadas mesmo antes de alguns países registarem casos da doença. Foram medidas duras para a população, mas que contribuíram para reduzir o número de casos. Um outro factor é que a população africana não se movimenta muito comparativamente à europeia. Há estudos que falam em questões genéticas, mas não existem grandes evidências. Ainda não houve uma confirmação do efeito do clima com a Covid-19. Ainda assim, devemos dar importância às medidas, porque nenhum país conseguiu controlar a pandemia sem implementar e cumprir com as medidas de prevenção. É o caso de Angola.


 O relatório do Banco Africano de Desenvolvimento, que analisa as perspectivas económicas em África para 2021, refere que em "África os confinamentos têm sido eficazes para controlar a Covid-19…
Para o resto da economia, o confinamento foi um dos factores que ajudou a travar também a doença em África e reduzir os níveis de infecção. Também estamos conscientes de que o confinamento tem efeitos socio-económicos muito grandes. Por isso, os países devem estudar maneiras de desconfinar de forma progressiva, baseando-se em dados, tendo em atenção a situação epidemiológica. Temos países muito pobres que não podem ficar anos sem crescimento económico.  
      

O início da produção de vacinas levantou críticas, dúvidas e receios. Nesta abordagem o que salta mais à vista?
Hoje temos de aceitar que houve uma revolução em termos de vacina no espaço de um ano. Mas é preciso lembrar que as técnicas de produção de vacinas são conhecidas. O importante são os recursos que foram aplicados para a produção de vacinas. Nesta altura há 264 iniciativas de produção de vacinas no mundo e há 82 vacinas que já estão em fase de testes clínicos. Isso mostra a existência da capacidade, interesse mundial, aliada aos recursos financeiros. Neste momento há quase 400 milhões de doses de vacinas que já foram administradas no mundo. Felizmente, ainda não houve nenhuma morte associada à vacina. Isso representa uma grande vitória. A Covid-19 já causou mais de 120 milhões de casos e três milhões de mortes.


E essa celeuma em relação à vacina da AstraZeneca?

É normal. As vacinas foram testadas e passaram em todas as fases dos ensaios clínicos. A vacinação que decorre em quase todo mundo continua a recolher dados para o conhecimento destes imunizantes. Por outro lado, a vigilância dos efeitos adversos é muito mais rigorosa. É normal que uma pessoa imunizada e apresenta sintomas seja notificada e tem de ser investigada, mas não podemos esquecer que as pessoas que têm outras doenças continuarão a morrer de outras causas e nós estamos a vacinar o grupo alvo com cormobilidades. Ter acontecido alguns eventos em pessoas vacinadas é normal. Por isso, foi feita uma investigação através da Agência Europeia de Medicamentos e OMS, que fizeram uma revisão rigorosa de todos estes casos notificados, a fim de avaliar o que foi realmente que aconteceu. Em nenhum dos casos foi possível fazer uma ligação entre a vacina e esses efeitos. 


Não se cogita a possibilidade de que se esteja diante de uma guerra de marcas?
Estas questões são alheias ao nosso trabalho. Os efeitos existem, as pessoas tiveram problemas de saúde, algumas morreram e era necessário apurar se realmente havia alguma ligação ou não. Ainda estamos na fase de recolha de dados no mundo inteiro para continuarmos  a garantir eficácia, segurança e qualidade das vacinas. 


A distribuição equitativa das vacinas também é outra preocupação…  
De facto, o aspecto que nos preocupa é a iniquidade das vacinas. O director-geral da OMS e a directora regional têm estado a chamar a atenção para estas questões. Hoje há países que estão a vacinar inclusive pessoas que não são de risco. Estão a vacinar jovens que não correm risco de apanhar a doença, nem de morrer da doença. Por outro lado, temos países que ainda não conseguiram vacinar todos os profissionais de Saúde, idosos e pessoas com cormobilidades.  


Diante deste cenário, a OMS não tem autoridade para impor?  
O nosso papel é levantar a questão, discutir e incentivar a partilha. Estamos a trabalhar dia e noite com as grandes fábricas de produção de vacinas. Embora alguns países já tenham feito encomendas, uma vez que o atendimento é por ordem de chegada, podem ceder a sua vez à iniciativa Covax. O que estamos a assistir são países com stock de vacinas que não vão usar nos próximos dois ou três meses. O trabalho da OMS é fazer com que estes Estados partilhem a vacina. A pandemia não vai terminar enquanto existir  um país  não protegido. Pode se vacinar 80 por cento de uma população, mas estará em risco,  porque o mundo à sua volta não está protegido,  porque o vírus continua a circular. E quanto mais o vírus circular, mais rápido desenvolve as mutações e cria as variantes.
O perigo de não termos o mundo protegido é muito grande. Entretanto, um dos grandes desafios da OMS é conseguir que a distribuição da vacina seja equitativa. O objectivo da vacinação é diminuir o número de doentes graves, o elevado número de pessoas que precisa de ser internado, assim como evitar mortes. Os nossos sistemas de Saúde não podem continuar a funcionar com toda a capacidade nos cuidados intensivos, porque isso não é sustentável.

Angola conseguiu, através da iniciativa Covax, as primeiras doses de vacina e espera receber mais. Pode avançar mais dados sobre esta iniciativa?      

Com o surgimento da pandemia, em Março do ano passado, criou-se uma plataforma denominada Acesso de Instrumentos de Covid-19, com o objectivo de estimular a investigação, produção e  distribuição de meios de diagnóstico, de tratamento e de vacinas. Covax é a parte que trata das vacinas e também estimula a pesquisa e produção de imunizantes. A ideia é juntar forças para travar a Covid-19. Este compromisso não é apenas para os países pobres ou menos desenvolvidos. Aliás, os que têm dinheiro ou vacinas podem colocar à disposição. A meta é vacinar 20 por cento da população de cada país, que se estimou que seriam os grupos de risco na região africana. 

O que pesou na escolha para que Angola beneficiasse da vacina nesta fase?

É o mérito de estar pronto. Os critérios de distribuição das vacinas da Covax são claros e transparentes. Há um cálculo que é feito,  que tem a ver com a população do país, perfil da epidemia e o estado de preparação. Não é aceitável dar vacinas a um país que não está preparado para vacinar. Angola foi dos primeiros a receber a vacina na nossa região porque estava preparada, sobretudo, do ponto de vista logístico. 


Se uma pessoa apanhou a primeira dose da vacina Astrazeneca, a segunda pode ser da Pfizer?
Não. Tem de ser a mesma marca de vacina, porque a segunda dose é de reforço e o mecanismo de reacção destas vacinas é diferente. Por outro lado, ainda não sabemos o tempo de imunidade, uma vez que até à data os ensaios  feitos dão até seis meses. Mas é preciso dar mais tempo para se saber exactamente o tempo que vai durar a imunidade. Existem alguns poucos casos de reinfecção porque a imunidade não funcionou, mas são poucos.         
 

Qual é avaliação que faz da pandemia em Angola?
É positiva. Além dos vários decretos presidenciais, a Comissão Multissectorial têm estado a cumprir com o seu papel no cumprimento destas medidas. A campanha de vacinação tem mostrado que o Ministério da Saúde e outras autoridades estão comprometidos com a  luta contra a pandemia. Mas há também o desafio de acelerar a vacinação e se conseguir imunizar mais pessoas nos próximos dias. Até final de Maio, o país vai receber mais vacinas.


O que espera da relação da OMS com Angola?
Angola e a OMS sempre tiveram boas relações, que se estabeleceram logo após a independência. O trabalho da OMS em Angola é orientado por uma estratégia de cooperação, que é discutida com os parceiros nacionais, nomeadamente o Ministério da Saúde, outros sectores, sociedade civil e dadores, em que  são analisadas acções concretas para desenvolver no país. A OMS tem três grandes preocupações com Angola, com destaque para a cobertura universal da saúde, que pode ser alcançada com a consolidação dos cuidados primários . A segunda questão é o sector das emergências médicas, que precisava de ser reforçado. A terceira área é a consolidação dos ganhos em relação à erradicação da pólio. Angola foi durante muitos anos um dos países onde tivemos de fazer muito esforço neste sentido e não podemos deixar essa obrigação para trás.

Xavier António

Jornalista

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