Opinião

Alfabetização visual

Sousa Jamba

Jornalista

Recentemente, passei pela rua em frente ao Hospital Central do Huambo e fiquei muito triste. Vi por lá um pequeno centro comercial com quiosques e lojas que achei bastante feias e sem inspiração.

11/06/2021  Última atualização 05H05
Isto vê-se em várias partes do Huambo: há casas que são grandes exemplos da arquitectura arrojada colonial desfiguradas com muros gigantescos com pequenas  aberturas que servem para a venda de produtos. 

Aqui não é uma questão de negar o passado colonial; estamos a lidar com uma atitude profundamente grosseira, de uma falta gritante de alfabetização visual. Em 2004, eu estive com a minha falecida mãe nos Estados Unidos. A minha mãe tinha um hábito igualzinho ao do meu falecido irmão mais velho, Jaka Jamba, que eu também tenho: apreciar os edifícios. Eu adoro ir para várias localidades para apreciar a arquitectura. No Sul dos Estados Unidos, havia localidades que faziam a minha mãe gritar em Umbundu, "Ati ño ko Dondi; ati ño ko Chilume” — " Isto é parecido com a missão do Dondi; isto é parecido com a Missão do Chilume.”  A arquitectura dos missionários protestantes estava fortemente ligada à noção de que a igreja ou mesmo as residências não deveriam ter enfeites — o edifício deveria ajudar na contemplação. A igreja do Chilume, primeira igreja da IECA a ser construída em Angola, é um grande exemplo da beleza que vem com a simplicidade. No bairro São João, no Huambo, há a igreja dos Peregrinos no Huambo, um bom exemplo de arquitectura moderna. Há vezes quando passo pelos Peregrinos no São João me interrogo se este edifício tem inspirado tanto debate como a catedral metropolitana de Liverpool.  Lá, em Liverpool, há pessoas que vão somente para ver a Catedral que alguns acham ser feia, e outros acham ser uma das melhores igrejas já construídas no Reino Unido.

Uma vez parei nos Peregrinos e perguntei quem foi o arquitecto da obra. Ninguém sabia. E é este o problema; nem muitos se interessam pela história da arquitectura no nosso país.  Há uma grande igreja, Catedral de São José, na Missão do Janjo, no Bailundo, construída nos anos trinta por um padre alemão. Quando fui à Catedral do Janjo, várias pessoas vieram pedir-me dinheiro. Perguntei quem tinha construído a catedral, agora em ruínas; ninguém fazia a mínima ideia. Temos também a missão de Galangue ou Bunjei, perto da Caála, no Huambo. Esta missão evangélica foi construída por missionários afro-americanos, que foram expulsos do país pelas autoridades coloniais em  1957. A grande missão com os seus edifícios, um exemplo da arquitetura do século dezanove do Sul dos Estados Unidos, está em completamente em ruínas. Os mais velhos nesta missão me disseram que estão à espera de um dia um descendente dos afro-americanos dar fundos para reconstruir os edifícios. Quase não acreditei quando ouvi isto.

A Missão Metodista do Quéssua tem, também, edifícios históricos de imensa importância histórica. Quando estive no Quéssua, notei que o tecto da igreja principal estava defeituoso e deixava passar água. Na parede, havia rachaduras preocupantes. No Quéssua, visitei a campa dos missionários (com inscrições em Kimbundu) e fui fazendo muitas perguntas. Muitas pessoas no Quéssua também não faziam a mínima ideia sobre o grande  Bispo William Taylor. Notei, porém, uma grandíssima horta, a produzir vegetais de alta qualidade, o que teria impressionado o Bispo, cuja preocupação principal era erradicar a pobreza. Na nossa IECA, a igreja principal da Missão do Chilume também estava num estado deplorável; aquilo era uma vergonha…

Felizmente, os filhos do Chilume organizaram-se e a primeira igreja da IECA está a ser reabilitada, respeitando a arquitectura original. Os descendentes do grande missionário John Tucker, na missão do Dondi, reabilitaram a casa do seu avô, a Casa Tucker. Já visitei esta casa por várias vezes; um dos aspectos mais notáveis da mesma são as portas: o Doutor Tucker parece ter tido uma obsessão por portas. Há, na missão do Dondi, muitas casas maravilhosas, incluindo a da família Chipenda, hoje em ruínas. Jessé Chiula Chipenda foi o primeiro negro a ser secretário-geral da IECA.

A razão para esta falta de alfabetização visual tem muito a ver com a falta de uma cultura de museus no nosso país. Os museus não devem ser apenas os do Ministério da Cultura. No Huambo, pode haver o Museu dos Caminhos-de-Ferro de Benguela (CFB); Museu da CUCA; Museu do Benfica do Huambo, etc. Muita gente gosta de fazer turismo religioso. Há viaturas a visitarem a Missão do Dondi por causa do seu valor histórico. Será que a IECA tem um departamento dedicado à preservação da sua história? Onde é que estão os nossos curadores? Em 2003, depois da eleição de Isaías Samakuva como presidente da UNITA, a alguém que conheço foi dado o posto de secretário para a Preservação da História do partido. Ele teria a tarefa de organizar museus, documentos, etc, para preservar a História do partido. Há quem achasse esta posição de "bibliotecário” como não tendo nenhum valor. O desinteresse na preservação dos nossos edifícios estende-se, também, a uma profunda falta de respeito pela nossa própria História…

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