Opinião

“Amêsa ou a canção do desespero”

Adriano Mixinge

Escritor e Jornalista

Como acontece um pouco em todas as partes, a fronteira entre a vida e o teatro ou entre o teatro e a história é tão ténue que, muitas vezes, vemos coisas na vida real que, mais bem, parecem fruto do teatro. Difícil mesmo é fazer o contrário: levar os factos históricos ao teatro, já que exigem outra ordem de elaboração.

30/03/2021  Última atualização 08H00
Como acontece um pouco em todas as partes, a fronteira entre a vida e o teatro ou entre o teatro e a história é tão ténue que, muitas vezes, vemos coisas na vida real que, mais bem, parecem fruto do teatro. Difícil mesmo é fazer o contrário: levar os factos históricos ao teatro, já que exigem outra ordem de elaboração.

Sem saber bem o que veria a obra de teatro "Amêsa ou a canção do desespero” do dramaturgo José Mena Abrantes fez-me ir à Casa das Artes, em Talatona, na sexta-feira antepassada, e gostei o que descobri: ela faz-nos pensar não só em como a História pode ser levada ao teatro de um modo original, mas, também em como, como nunca antes, o teatro têm vindo a ganhar, entre nós,cada vez mais cultores e um público maior.

O teatro tem vindo a destacar-se, no panorama geral das artes e da cultura do nosso país, numa de márche que tem enriquecido as bases para aqueles actores e para outros profissionais do sector que, depois, dão o salto para o cinema ou pura e simplesmente escolhem fazer uma carreira navegando entre estas duas manifestações artísticas afins.

O que é que "Amêsa ou a canção do desespero” nos traz de interessante?
Por um lado, ela põe em cena "um ser”, - no caso Amêsa - representado no corpo e pelo desempenho de duas mulheres – que, afinal, representam todos nós - com múltiplos vértices ou dualidades (masculino e feminino/ voz e eco/ eu e nós/ natureza virgem e natureza humana/ memória e história/ esquecimento e saudade/ água e fogo), com uma história onde existem panos e cores com os seus significados muito concretos (vermelho, amarelo e preto, entre outras) e o seu lugar no imaginário e memória colectiva.

Por outro, na peça, os sons nos remetem tanto ao rio ou ao mar como à floresta, dentro de um relato que, também, interliga a vida e a morte, a adultez e a infância, o choro e a alegria, a sensualidade e o desprezo, o erotismo e a revolta, a coragem e o desespero, o nascimento e o desaparecimento: o texto é apaixonante e as actuações não deixam ninguém indiferente!
Ao contar a história de Amêsa o que, na verdade, percebemos é que ela é uma das formas mais poéticas de ver narrada, numa peça de teatro, a história de Angola mais recente.

"Amêsa e a canção do desespero” tem texto, cenografia e direcção de José Mena Abrantes. Claúdia Rosa Pucuta do Elinga Teatro e Suelma Mário da Companhia Henriques Artes formam o elenco que soube, e bem, interpretar a história que a peça conta de um modo deslumbrante, sem ser excessiva e é sensível e simples sem deixar de ser imponente: elas emprestam beleza e profundidade à "Amêsa”, que tão bem representam. Ambas estiveram maravilhosas!

E mais: a percussão e o ambiente sonoro são da responsabilidade de Raúl Rosário envolvendo com um ar vital e vibrante o desempenho de todos. O desenho de luzes e os figurinos pensados – de um modo intimista e agradável - ao mais mínimo detalhe são de Paulo Cochat e de Anacleta Pereira, respectivamente.

 A música de Vitor Gama, Miriam Makeba e Wiza situam-nos de início ao fim num lugar que só pode ser uma viagem, numa viagem que é, sem lugar a dúvidas, iniciática. O design do cartaz é de Tiago Mena Abrantes. Mas, com "Amêsa ou a canção do desespero”, o autor demonstra uma vez mais o que sempre teve desde que o conheço: maturidade. Recria temas que sempre lhe cativaram:a História de Angola e qual o lugar que as mulheres ocupam nela.

Na peça, a mulher - no caso duas actrizes angolanas- é o veículo da transição da simplicidade à transcendência, do aparentemente banal ao âmago mais profundo das coisas utilizando a mesa, tanto como objecto como como espaço simbólico e Amêsa, - a mulher -, como corpo e a pessoa que encarna em si todas as preocupações que, ao longo dos últimos cinquenta anos, estiveram no centro da nossa comunidade real e imaginária, tudo isso narrado com mestria.

Como muito bem o diz a brasileira Luciana Eboli: "escrito em 1991, o drama coloca em cena a realidade de uma mulher, Amêsa, e os seus conflitos. Amêsa simboliza a própria nação angolana, que sofre ao perceber que é destruída pelos seus próprios conflitos internos e vive na ténue linha divisória entre a esperança e a desesperança”.

Vendo a obra de teatro "Amêsa ou a canção do desespero” damo-nos conta de que, o teatro vive, amadurece e desperta consciências quando, as peças que chegam ao público têm o cuidado de reforçar o papel central da originalidade do texto, da força das ideias, do primor do talento e da criatividade dos profissionais que nele participam: quando isso acontece, o teatro deixa de ser a repetição de mensagens redundantes convertindo-se, de facto, numa forma de representação artística que induz percepções e vivências estéticas, refletindo a sua importância social.

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