Entrevista

“Amo o que faço e não me vejo a fazer outra coisa”

Francisco Curihingana | Malanje

Jornalista

Cecília Marina Agostinho Gomes faz parte do conjunto dos 18 médicos legistas que Angola possui. Dez homens e oito mulheres. Um grupo muito reduzido para um país tão vasto e com a população que tem. São profissionais que encontram muitas dificuldades para exercer a nobre missão de esclarecer as causas das mortes suspeitas, causadas ou não por violência. A nossa reportagem foi ao encontro da médica legista Cecília Gomes, uma superintendente de Investigação Criminal que exerce a função de chefe do Departamento de Medicina Legal na província de Malanje

30/05/2021  Última atualização 11H17
© Fotografia por: Edições Novembro
A senhora faz parte do grupo das oito médicas legistas que o país tem?
Sim. Faço parte deste universo de oito senhoras a desempenhar esta função de médico legista. No total somos 18 médicos: 10 homens e oito mulheres.
 
Como é que foi atraída pela profissão?
Isto já foi há alguns anos, quando eu frequentava a disciplina de Medicina Legal no 5.º ano da Faculdade de Medicina da Universidade Agostinho Neto, em 2005, com o malogrado Professor Doutor Manuel Adão Sebastião. Quando ele dava a cadeira de Medicina Legal eu sentia-me atraída, e pronto, fui uma das alunas que foram ter com o professor e disseram a ele que gostariam de fazer a especialidade de Medicina Legal. O professor Adão juntou os seis candidatos, que deveriam seguir para a Rússia, mas depois ele encetou contactos com o Instituto de Medicina Legal de Portugal e foram recrutados mais médicos. Éramos então um total de 25 médicos que partimos para Portugal para fazer essa especialidade. Alguns desistiram, mas nós permanecemos.
 
O que sentiu naquele momento quando se auto-mobilizou para esse desafio?
Gostei simplesmente da cadeira e pronto. A princípio eu gostaria de ser ou pediatra ou gineco-obstetra, mas, depois de ter a disciplina de Medicina Legal senti que era aquilo que queria ser.
 
Há quanto tempo exerce essa actividade?
Já estou a exercer há oito anos.
 
Quando começou a exercer, de facto, sentiu algum remorso?
Não. Não tive receio algum, porque enquanto estudantes de Medicina, da cadeira de Anatomia, já tínhamos contacto com cadáveres. E mesmo antes de partirmos para a especialidade, fizemos um estágio na Morgue Central de Luanda durante seis meses. Não tive nenhum remorso.
 
Quais são as dificuldades assinaláveis no exercício da sua actividade?
Dificuldades não tenho. Tenho simplesmente necessidades, porque sabemos da condição que o país está a atravessar, em que falta quase tudo.
 
Quais são as maiores necessidades?
As necessidades são de vária ordem, principalmente na aquisição de material de biossegurança. É uma luta para a aquisição das coisas principais, como as luvas, máscaras e as batas. Para se fazer uma autópsia é necessário material próprio, que nós não temos. Desde que estou a exercer a profissão em Angola nunca fiz alguma autópsia com as luvas próprias usadas para realizar a autópsia. Estamos assim até agora.
 
O que falta para a aquisição desses meios?
Falta tudo. Em princípio, a Medicina Legal é uma especialidade que aqui no país é exercida no Serviço de Investigação Criminal. A Investigação Criminal em Angola não tem uma morgue própria. Realizamos o nosso trabalho nos hospitais. Essas morgues nos hospitais pertencem ao Ministério da Saúde. Por exemplo, há cadáveres que nós encontramos putrefactos e temos que sepultar no local, porque as morgues dos hospitais não recebem cadáveres putrefactos. Se tivéssemos a nossa própria morgue, com certeza que teríamos as gavetas adequadas para conservarmos os cadáveres até ao acto da autópsia. O cadáver putrefacto também deve ser autopsiado, mas nós em Angola temos dificuldade de o fazer.
 
Têm laboratórios para apoio às vossas investigações?
Não temos laboratórios. A Medicina Legal, por si só, é uma ciência, mas não trabalha por si só, depende do auxílio de outras ciências para chegar à conclusão da causa da morte. A Medicina Legal precisa de laboratórios de Anatomia Patológica, porque se eu abrir um cadáver vou encontrar alterações dos órgãos. É preciso que eu mande as amostras dos órgãos para o laboratório de Anatomia Patológica, para o especialista desta área dizer se, realmente, as lesões encontradas ao nível macroscópico é que levaram à morte. Outro tipo de laboratório que precisamos é o de Toxicologia Forense. Na nossa experiência, cá em Angola e mesmo na província de Malanje, há muitos casos de meninas que dizem ter estado com alguém que lhes deu uma bebida e elas ficaram desacordadas, tendo despertado já num sítio ermo ou no hospital. Então, é necessário fazer a colheita de sangue e mandar para o laboratório de Toxicologia Forense para ver que substâncias esta pessoa ingeriu. Também há o caso, por exemplo, de  dois indivíduos que vão juntos consumir alguma bebida e dá-se o caso de um deles, já em casa, passar mal e morrer. A ideia inicial é o envenenamento e os familiares vão logo atacar a pessoa que esteve a conviver com o falecido, Nesses casos, precisamos também de colher o sangue e mandar para o laboratório de Anatomia e de Toxicologia Forense, para sabermos realmente o que ele tem no sangue. Por último, o laboratório de Biologia Genética Forense. Mesmo os cadáveres que encontramos putrefactos os familiares passam meses e anos e não os reclamam. Então, o que é que deve ser feito? É recolher amostras desse cadáver, mandar para o laboratório de Genética e Biologia Forense e ficarem ali numa base de dados. Quando alguém manifesta o desaparecimento do seu ente querido, tiramos amostras da pessoa mais directa (pai, mãe ou irmão) e comparamos com a base de dados para ver o perfil genético e sabermos se aguma amostra corresponde, realmente, à do parente que está desaparecido. Isso, infelizmente, ainda não temos. Ora, o médico legista não é um adivinho, é simplesmente um indivíduo dotado de conhecimentos técnicos e científicos. Quer dizer, que vai abrir um cadáver e fazer os exames para chegar a alguma conclusão. Mas, muitas vezes, mesmo fazendo exames de Anatomia Patológica de Bilogia Forense não se chega à causa da morte. E sem esses laboratórios é muito difícil. Em Angola trabalhamos em condições muito difíceis.
 
Com esse universo de problemas, como é que conseguem desenvolver o vosso trabalho?
Já não digo nessa altura. Não convém dizer que é por amor à camisola, não é mesmo. É porque, por um lado, eu amo aquilo que faço, nessa altura não me vejo a fazer outra coisa. Mas, por outro lado, há certos casos em que há indivíduos que estão detidos. Será que o indivíduo que está detido é realmente culpado? Nós sentimos isso aqui no peito e vamos para a autópsia. Quantas e quantas autópsias já foram realizadas por nós, onde já havia um culpado, mas, devido ao trabalho que nós fizemos os indivíduos suspeitos acabaram soltos, pois, muitas vezes, a causa da morte não tem nada a ver com a acusação?
 
Aqui em Malanje já aconteceram casos dessa natureza?
Muitos casos, muitos mesmo.  A maioria dos casos mesmo.
 
A senhora, na condição de mãe e chefe de família, como é que concilia com a missão profissional?
É muito difícil. Essa odisseia começou em 2008, quando parto para Portugal para a formação de cinco anos. Deixei o meu marido com os meus cinco filhos. O mais novo na altura tinha cinco anos de idade e a que estava acima dele tinha sete anitos. Eu fiquei por lá dois anos e depois tive que vir buscar os mais novos. Os mais velhos ficaram com o pai. Vim de Portugal, tive de fazer a recruta no Capolo, já que eu era funcionária civil do Ministério do Interior tive que fazer a transição para o quadro 1. Ficamos no Capolo, mas, pronto, aí era diferente, porque era casa-formação e formação-casa. Em 2014 fui nomeada chefe do Departamento de Medicina Legal e venho para Malanje. É difícil, os meus filhos estão lá, eu estou cá, é muito difícil.
 
Malanje tem muito trabalho no que toca ao vosso ramo? Ou nem por isso?
Temos. Nós temos muitas mortes violentas, principalmente entre jovens de grupo, as gangues. Há rixas entre grupos de jovens que, por vezes, acabam matando. Tudo isso acontece com facas, catanas, enfim...
 
Há alguma saída para se evitar essas situações?
É um trabalho que tem de ser profundo, porque esses meninos não têm ocupação. São meninos de 13-14 anos que abandonaram  a escola, mas nem sempre pertencem a famílias carentes. Não sei qual é a motivação. É um estudo profundo que tem de ser feito para saber as motivações que estão na base disso. Nós em Malanje, por exemplo, não temos um centro de acolhimento para as crianças que estão nesses grupos. Eu acho que deviam ser recolhidas, colocadas num centro e aí, pelo menos durante quatro a cinco anos, estariam a receber formação. E quando saíssem teriam uma ocupação. Mas o que acontece é que muitos deles são menores e não são imputáveis. Aqueles que a partir dos 16 anos são imputáveis vão para um serviço correccional, ficam lá dois ou três anos, não aprendem lá nada, quando voltam tornam a realizar os mesmos actos.
 
O que acha que deve ser feito nesse particular?
São menores em conflito com a lei. Na verdade, a educação começa na família. Sabe qual é a realidade que vivemos hoje. Os pais que não param em casa, a mãe que sai pela manhã, vai fazer o negócio ou vai para a lavra, então, os meninos agrupam-se e saem para cometer os seus actos. Em casa também falta muito a educação religiosa. Os pais não levam os filhos para a igreja. Creio que as crianças que estão na igreja têm um comportamento diferente.

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