Cultura

Angola vive a maior crise do livro dos últimos anos

Mário Cohen

Jornalista

Actualmente editar no país é, ainda, um processo bastante dispendioso, visto que muito material, como o papel, é importado. Contudo, o mercado nacional evoluiu e já se produzem livros no território nacional, em gráficas modernamente equipadas, o que acaba por baixar os custos de produção.

23/04/2021  Última atualização 12H20
Directora editorial e comercial da Editora das Letras acredita em dias melhores graças às novas tecnologias © Fotografia por: DR
Em Angola, vive-se, actualmente, uma das maiores crises dos últimos anos no mercado do livro, em parte, em consequência da Covid-19, apesar de existirem, a nível do Estado, algumas iniciativas, em termos legislativos, de políticas de incentivo à leitura e ao gosto pelo livro, defendeu, a directora editorial e comercial da Editora das Letras, Bruna Botelho. 

Com o "encerramento” da sociedade, o livro não tem chegado ao último destinatário, nem os apoios institucionais para atenuar os prejuízos imponderáveis, disse, acrescentando que a Editora das Letras não tem baixado os braços. "A crise tem alavancado sinergias para colmatar a situação, investindo em campanhas de marketing e eventos particulares, como lançamentos de livros e homenagens a autores”. 

Actualmente editar em Angola, afirmou Bruna Botelho, é ainda um processo bastante dispendioso, visto que muito material, como, por exemplo, o papel, é importado. "Contudo, o mercado nacional evoluiu e actualmente já se produzem livros em território nacional, em gráficas modernamente equipadas, o que acaba por baixar os custos de produção”, disse. 

Porém, o escoamento de "stock” é dos maiores problemas das editoras nacionais, já que só uma minoria lê com alguma regularidade. Outra dificuldade, não menos importante, disse, está relacionada com os apoios institucionais que, muitas vezes, ou não chegam ou tardam. "A Editora das Letras trabalha, em exclusivo, com a GestGráfica, o que permite ter edições de qualidade e vantagem competitiva”, disse a directora comercial.

Os lucros, explicou Bruna Botelho, quando os há, compensam sempre, acrescentando que quanto maiores são também é o investimento a ser feito. "Naturalmente, já se viveram tempos melhores. A situação actual comporta sérias dificuldades mas também desafios e os apoios que deveriam ter chegado aos escritores, investigadores e demais agentes ainda são uma miragem. A pandemia da Covid-19 também não tem ajudado”. 


Efeméride

No Dia Mundial do Livro, informou, a editora vai participar na cerimónia de entrega de prémios aos jovens autores, na União dos Escritores Angolanos (UEA). No mesmo dia, às 16h00, realiza o lançamento do livro "Percursos Imaginários Abrem Horizontes - Angola 45 Anos”, de Cremilda de Lima, no Shopping Avennida, no Morro Bento, em Luanda. 

Apesar de lançar o título de uma escritora consagrada, Bruna Botelho disse que a editora tem um projecto de incentivo aos jovens autores e os menos conhecidos. "Porém, nem todos escrevem bem”, criticou e explicou que a Editora das Letras não rejeita, de antemão, nenhuma proposta. "Mas só são seleccionadas as de qualidade, quer na escrita, quer no conteúdo, depois de submetidas a uma rigorosa avaliação prévia por uma equipa de especialistas”. Por regra, defendeu, uma editora que queira afirmar-se no mercado deve obedecer a rigorosos critérios de selecção de autores e suas obras. "Sem dúvida, todas as editoras gostariam de ter no catálogo obras de autores consagrados”.  

Para a editora, destacou, todas as publicações são prioritárias, sem desprimor de qualquer área do saber. "Desde a sua origem, a editora tem apostado forte na criação de materiais pedagógicos e didácticos de apoio ao ensino. Essa aposta permite hoje alargar o campo editorial. Naturalmente, a literatura infanto-juvenil ocupa um lugar preponderante no catálogo da editora, com dezenas de títulos publicados nesse género literário”, informou. A ideia, revela Bruna Botelho, é criar projectos tendo em conta que as crianças são os leitores do futuro e têm a capacidade de influenciar os pais na compra de livros. "O objectivo da editora é crescer cada vez mais, ao ponto de se tornar referência editorial nacional”, destacou. 

A era digital 

Para Bruna Botelho, a crescente onda das novas tecnologias de informação, acelerada pela pandemia, veio para ficar. "Muito do que se faz actualmente passa pelo online e quase tudo, hoje, pode ser encomendado pela Internet”, contou. Com o livro passa-se exactamente o mesmo. "São poucas as editoras que não têm plataforma, site ou rede social para divulgação e comercialização online das publicações. Por isso, muitos dos espaços físicos ligados à venda de livros podem vir a fechar, como, aliás, aconteceu com muitas livrarias”, lamentou. No país, referiu, ainda há muitos passos a serem dados nesse sentido, portanto, não corremos o risco de, no futuro, o livro físico em Angola ser substituído pelo digital, tal como aconteceu com os discos de vinil. 

"Mas se acontecer estamos preparados para as mudanças”, adiantou Bruna Botelho, além de defender que, "a nível nacional, assim como em muitos outros países, a leitura digital de livros ainda não é muito expressiva e a venda de e-books é residual”."Tudo aponta para que, no futuro, os vários formatos - físico, digital e audiobook - subsistam, sem terem que se anular. A tendência será, assim, para que tanto a leitura como a publicação sejam híbridas, ou seja, nos diversos formatos”, desejou. 

Neste momento, disse, parte das publicações da editora podem ser adquiridas através de lojas virtuais, ou pelo Facebook. Além disso, revelou, a editora está apostar no formato "híbrido”, editado em papel, mas com uma componente digital, com o título infanto-juvenil "O Aniversário de Vovô Imbo”, de Cremilda de Lima. "Mas, independentemente do formato, a indústria do livro só vai ser sustentável se os vários agentes envolvidos confluírem em interesses comuns”.  

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