Entrevista

“Ao poeta é imprescindível a liberdade”

Natural de Cabinda, Amélia Dalomba é oriunda de uma família muito ligada às artes. Poetisa e declamadora, ela também é compositora, intérprete e artista plástica. Na entrevista que a seguir se publica, a poetisa fala, essencialmente, de poesia, muito a propósito do Dia Mundial da Poesia que hoje se assinala.

21/03/2021  Última atualização 15H17
Amélia Dalomba © Fotografia por: Edições Novembro
É poetisa a tempo inteiro, ou só nas horas livres?
A poesia é composta de tudo. Haverá poetas pela metade?
Há quem diga que ser poeta vai muito além de escrever poemas, é uma atitude, uma certa maneira de sentir e olhar a vida e o mundo...
Vai para além da escrita. Os sentimentos não cabem nas palavras. O poeta é. É na forma como desencrosta o sentido do instante que descreve nas parcas palavras que lhe oferece a linguagem.


Como é que alguém se torna poeta? Como é que a Amélia Dalomba se tornou poeta?
Diziam os antigos: "É preciso dom. O poeta nasce”. Não sei como se torna poeta, só sei que é imprescindível a liberdade. Apenas adoro caçar momentos e partilhá-los através das várias formas de comunicar com os outros, as percepções que não me escapam. Sou uma aprendiza permanente da vida de fazer acontecer o que gosto quando Deus permite. Se isso é ser ou estar poeta, por instante que seja, que fazer senão ajoelhar e rezar?


Além de uma sensibilidade apuradíssima o poeta tem de ser, naturalmente, versátil no domínio da língua. Que outras valências deve ter um poeta?
A versatilidade no domínio da língua em que fala, raciocina, ouve, escreve é fundamental. O essencial é a forma como lapida a palavra em uma hermética poética que faça e toque o leitor. É preciso cultivar a leitura de tudo o que o rodeia, com sentido de intervenção, olhares próprios de interrogação, vírgula, ponto final e exclamação, na denúncia, elevação e protesto, ser um factor válido nas mudanças que quer ver no universo; a consciência de quem sabe que nada sabe, parafraseando o filósofo. Estudar para além dos livros. Ser eterno estudante dos fenómenos existenciais.


Em muitos contextos sociais há a tendência de se encarar o poeta como um aluado, alguém com pancada. O que se passará? Qual a razão dessa percepção?
A abstração ajuda a construir cenários onde o palco da imaginação desliza. É o bom momento de liberdade criativa. É poder estar entre uma multidão aos gritos e manter o mastro hirto da racionalidade poética e das emoções abrasadoras. O que poderá suceder é a falta de controlo da ansiedade que o tumulto de impressões acarreta em si. Por isso a meditação diária permite e dita as regras aos pensamentos desconexos, sensações, excessos de informações, enfim… Nada como um bom exercício meditativo, terapêutica do sono e relaxamento mental e físico. Jamais declarar guerra às suas percepções psicossomáticas enquanto medita, recita um mantra ora ou simplesmente incida em pontos que voluntária ou involuntariamente a psique o leve. Às vezes é bom deixar-se levar como canta Zeca Pagodinho. Na dita "loucura” não poderá haver um instante de felicidade, uma fuga ao chão de terra, do que se supõe ser regra do politicamente correcto, de certas máscaras subjectivas?

Como é que o seu olhar de poeta vê esta Angola de hoje?

Apesar de algumas conquistas, Angola não é ainda a que muitos de nós sonhamos e nos batemos por ela, até com a própria vida. Não estou a cobrar à mangueira para que nos dê laranjas, parafraseando o poeta António Jacinto e recordando Agostinho Neto, quando disse "O mais importante é resolver os problemas do povo”.


A poesia pode ter um papel no desenvolvimento de Angola? Como?

Há algum povo apartado da cultura? A arte e cultura de um povo é o que permanece ao longo dos séculos gerundiando aportes que o desenvolvimento humano, social e tecnológico deve conservar e aprimorar com bases sustentáveis às necessárias soluções para erradicar a miséria e elevar o bem-estar sócio-económico, político e humano. A cultura é a transformação que o ser humano faz com a natureza, segundo o professor Abreu Paxe, "como a transforma desde os mais pequenos detalhes.” Agora é preciso que haja em África a implementação séria de políticas de conservação e divulgação com programas sustentáveis de aproveitamento, engrandecimento e dignificação da cultura do homem africano inserido no património imaterial da humanidade. E que se cumpram os programas de desenvolvimento humano, muitos deles tão adiados, como a liberdade.


A liberdade inscrita na Constituição está adiada? O que falta então para que o seu pleno usufruto seja um facto?
Agradeço pela pergunta. Até os pássaros no seu voo invejável para algum lugar podem ser alvejados por algum caçador!... Nas conquistas a preservar em Angola a Constituição vem logo à baila, principalmente os artigos 40 a 50 sobre a Liberdade. Mas, agir com base nela, são outros quinhentos, pois temos assistido a variadas caneladas, por essas avenidas a fora, aos direitos fundamentais. Mas, estar no caminho não é só colher flores silvestres, há bastante espinho também. Tomara que ela esteja nas nossas consciências permanentemente por forma a evitarmos alguns desaires. A Constituição não é estática. Pode ser alterada ao longo dos percursos e é o que vamos assistir dentro em breve, segundo proposta do nosso chefe de Estado e do Governo João Manuel Gonçalves Lourenço.


O livro que vai publicar em breve vai centrar-se em que temáticas?
Prefiro não entrar em pormenores mas não será apenas poesia. São trabalhos de algum tempo a esta parte. Se Deus quiser, no momento certo, com certeza que serás o primeiro a receber um exemplar e a comprar outro… [Risos]


Amélia Dalomba é, certamente, uma das maiores declamadoras angolanas. A declamação é uma arte autónoma da poesia? Ou ambas são indissociáveis?
Agradeço o cumprimento e a classificação positiva ao que adoro fazer, que é declamar entre tantas outras vozes. Mas, sou um simples instrumento e quantas vezes falho em um projecto cósmico que me transcende, para partilhar cada palavra que o encanto da poesia gera. É preciso gostar do que se faz. E eu gosto. A declamação é autónoma. Não é preciso ser poeta para declamar. A voz, Deus dá, canta o fado. Os trovadores sabem bem disso. A poesia quer trova e os primeiros instrumentos na arte de declamar são a voz e o ouvido e coração de quem sente e escuta.


Como outros poetas, encontrou nas redes sociais uma plataforma de difusão dos seus poemas. Os poemas que aí publica são instantâneos ou têm o mesmo trabalho de depuração dos que publica em livro?
São instantâneos também. Poesia, crónicas minimalistas do quotidiano. A pandemia e o confinamento acabaram por empolgar a necessidade de visitar as janelas das redes sociais com mais frequência. Pertenço a alguns grupos de poetas e escritores, pintores, músicos, familiares, amigos e leitores. Queremos saber uns dos outros. Até por uma questão de saúde mental. Divulgo muitas vezes o que já tenho em livros mas, com frequência instantaneamente, no aconchego da memória, falando com os meus botões... [risos] Muitas vezes precisamos de um ouvido, do olhar de gente que comunga os mesmos gostos e desgostos. Tenho aprendido muito. Mas tudo é cíclico. Nem sempre consigo partilhar minha chikuanga, meu micate... Então partilho o que escrevo e colho o que outros me vão dando. Sabes bem que a poesia é de comer. Poesia é o conduto no funje de jiboiar e com gindungo pelas entrelinhas xinguilar um bocado. Andamos à chuva de sensibilidades alheias e quantas delas escondidas sob um perfil falso. Enfim: andamos à chuva…


Indique-nos, por favor, cinco poetas de sua eleição e por que razão são especiais para si?
Poetas da quintessência universal. Deus é O Poeta. Depois os poetas da quintessência dos universos com vida, Jesus Cristo, Mãe Maria, Buda - Siddhartha Gautami, Hermes Trismegistu, Shirdi Sai Baba, Maomé, Dalai-Lama, Kardec, Luís de Matos e tantos outros... São especiais por haverem criado o sol na noite e a lua ao meio-dia, para que pudéssemos, de formas muito mais elevadas, alimentarmos as nossas energias e valências cognitivas mais proactivas.


No geral, indicou poetas da metafísica, relacionados com a transcendência. E quanto a poetas do quotidiano, da realidade empírica, mais existencial?
Indiquei os poetas primeiros, que recheiam em cada dia conteúdos novos aos meus sentidos, incontornáveis na arte de amar, perdoar e despertar a humanidade ao bem comum. Que sentiram o chão agreste, o sabor do sangue nos lábios e no coração as lanças dos "patrulheiros poéticos” da existência, que, há mais de dois mil anos, mudaram tão pouco a essência e a índole. As parábolas pela grandiosidade do Sermão da Montanha, de Salomão a David. A poética do amor que não morre. Da revolta, denúncia, luta, vida, dor e morte. Talvez consideres ascético demais citá-los, mas sou nada sem eles. Adoro os poetas da antiguidade e da contemporaneidade que exaltam a consciência identitária da humanidade, a igualdade e a justiça social no respeito pelas diferenças raciais e de classe. Nada como poemar em prosa e verso, quando o corpo arrasta uma alma que padece pela insensibilidade da espécie humana. Apenas um terço do que das leituras comparadas estou a fazer entre poesias libertárias a nível mundial: "Outrora, vias coqueiros e escrevias: ‘Pinhos’. Hoje, sob os pinhais, um vento corre de África sobre o teu pensamento” – Mário António de Oliveira. Manuel Alegre: "É justo que me fales de Hiroxima. Porém tu nada sabes deste tempo longo… Ai tempo onde a palavra rima com a palavra morte em Nambuangongo”. Manuel Rui Monteiro: "Não fui navegador embora me quisessem em vários continentes em que sempre estive e disse nunca para que naufragasse minha história com o peso das grilhetas amarrado aos oceanos e epitáfios, não conheço.” José Marti: "A liberdade custa muito caro e temos ou de resignarmos a viver sem ela ou de nos decidirmos a pagar o seu preço”. Nekrassov: "…Por minha terra natal eu vaguei antes… Eu construo castelos no ar! O espírito do homem opta por muitas maneiras de frustrar todas as minhas esperanças…” Viriato da Cruz: "Pelo teu regaço minha mãe, outras gentes embaladas à voz da ternura ninadas do teu leite alimentadas de bondade e poesia… Em nós outros, teus filhos, gerando, formando, anunciando o dia da Humanidade”. Amílcar Cabral: "Não me fujas Poesia. Quebra as grades invisíveis da minha prisão, abre de par em par as portas do meu ser…Toma os meus braços para que abrace a vida. A minha poesia sou eu”. É empolgante rever como somos produto de um testemunho que conflui e engrandece "o nosso tijolo nos alicerces do mundo”, como escreveu Agostinho Neto.


Acredita que exista uma poesia especificamente no feminino? Quais seriam os traços dessa poesia?

É claro que a identidade do género fica sempre marcada no que produzimos. As narrativas poéticas não fogem à regra. Questões biológicas humanamente femininas e masculinas ficam explícitas muitas vezes. É claro que não podemos fugir de nós próprios. Podemos ajuizar que uma determinada poesia seja de uma mulher ou de um homem? Cuidado! Olha que o poeta é mesmo um fingidor. "Que finge tão sinceramente as dores que deveras sente”, segundo Fernando Pessoa. Daí podermos ponderar muito a análise de identificação de género à literacia de um autor sem que o conheçamos? Há poeta de mulher e poeta de homem, dizia o meu bom e saudoso amigo, poeta e declamador Grande Menezes! Que importância tem agarrarmo-nos ao azul e cor-de-rosa de um autor se as obras falam mais do que se diz ser e de quem as produziu?


Livros publicados
Entre outros títulos, Amélia Dalomba publicou os livros: "Ânsia”, poesia, UEA, 1995; "Sacrossanto Refúgio”, poesia, Edipress, 1996; "Espigas do Sahel”, poesia, Kilombelombe, 2004; "Noites Ditas à Chuva”, poesia, UEA, 2005; "Aos Teus Pés, Quanto Baloiça o Vento”, poesia, Zian Editora, Brasil; "Sinal de Mãe nas Estrelas”, poesia, Zian Editora, 2007; "Nsinga, O Mar No Signo do Laço”, infanto-juvenil, Mayamba Editora, 2011; "Senhor, Há Poetas no Telhado”, poesia, UEA, 2015. Tem poemas publicados em antologias em Angola e no estrangeiro. 

Isaquiel Cori 

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