Reportagem

Aqui, em Mukulu wa Ngola, jazem os soberanos do Ndongo

Uma das personagens mais estudadas na História de África, a Rainha Njinga Mbande começa por ter a sua mais emblemática estátua no Largo do Kinaxixi, erguida em 2003.

07/03/2021  Última atualização 11H24
Túmulos de Njinga Mbande e Ngola Kilwanje, os históricos soberanos do Ndongo. © Fotografia por: DR
À entrada do Museu de História Militar, a imponente estátua da soberana do Ndongo e da Matamba não nos deixa indiferentes: faz-nos pequenos ao levantar a cabeça para o céu a fim de poder ver-lhe o rosto. As representações não param por aqui: Na capital do Cuanza -Norte, em Ndalatando, pode ver-se um busto de Njinga Mbande na rotunda da maior avenida da urbe. Malanje exibe, igualmente, à entrada da cidade, uma estátua.

Mas toda a representação cultural desta icónica figura contrasta com a humildade do espaço onde estarão os seus restos mortais e dos seus parentes. Quem visita os túmulos dos soberanos do Ndongo em Mukulu wa Ngola, no município de Marimba, na província de Malanje, surpreende-se com esse descaso, depois de ver as imponentes estátuas erguidas nos centros das maiores cidades do país.
Há séculos que tudo é simples aqui nos túmulos de Njinga Mbande e Ngola Kilwanje, os históricos soberanos do Ndongo. Com quatro sepulturas existentes no local, o espaço remonta ao ano de 1617, depois da morte de Ngola Kilwanje e de Njinga Mbande, em 1663. No local, estão sepultados Njinga Mbande, Ngola Kilwanje, Mbinge a Mbande e Ngunza a Mbande.
O acesso às campas é totalmente limpo. A população local não arreda pé, quando o assunto é a limpeza do local. Os dois alpendres erguidos, de pau-a-pique e cobertos de capim, com a missão de proteger as campas, são renovados quase sempre, fruto da mobilização da população.
O guardião Filipe da Cunha, um dos sobas na localidade, disse à nossa reportagem que a desatenção ao local, ou seja, a falta de manutenção, pode resultar em desgraças para a região, como chuvas intensas, epidemias, entre outras. "Por isso, nós temos de cumprir com a limpeza constante, aqui, deste local”, disse.

O soba João Moisés é um dos guardiões mais adultos – conta 70 anos -, sendo que o menor deles tem hoje 41 anos, Filipe da Cunha, o chefe do grupo. Em entrevista, disse que o local recebia, antes da pandemia, algumas visitas de nacionais e estrangeiros. Porém, as péssimas condições da estrada que liga àquela localidade impedem a adesão de mais turistas.
"Não há pontes, não há comunicação. Não temos hospital. Quando alguém está doente, é transportado para Dala Samba ou Cabombo, essas duas localidades distam muitos quilómetros daqui”, sublinhou, lamentando que a construção de um monumento, para homenagear aqueles soberanos e dignificá-los, continua, até ao momento, no papel.
E a última promessa digna desse nome continua por se cumprir. Em Julho de 2017, Norberto Fernandes dos Santos "Kwata Kanawa” garantiu que os túmulos dos reis Ngola Kilwanje e Njinga Mbande seriam transformados em pontos turísticos, com vista a perpetuar as suas figuras e promover o turismo cultural. A reabilitação do troço que dá acesso à localidade de Mukulu wa Ngola fazia igualmente, parte do projecto do governador.

Contudo, o rei Nvula Dala Mana Cabombo, actual Rei do Ndongo, e 43º sucessor do reinado, não se cansa de lembrar que, além dos guardas que protegem a área, nos túmulos só há sinais de areia, não havendo até agora qualquer sinal da promessa de construção de um memorial local e infra-estruturas do Palácio na região.
"Nós estamos quase o tempo todo a falar desse espaço. Chamamos a atenção a quem de direito, no sentido de ver este local aqui, como pode ver, essa imagem em nada dignifica uma figura de alta referência histórica do nosso país, do Reino do Ndongo, que é o Ngola Kilwange. É esse homem que deixou o nome que temos hoje Angola como país”, realçou o chefe dos guardiões, Filipe da Cunha.
Os guardiões cumprem turnos, para evitar chantagens de intrusos aos túmulos naquele local.

O bairro Mukulu wa Ngola, local onde estão as campas, conta com mais de 300 habitantes, entre homens, mulheres e crianças. As condições de vida da população local não são as mais dignas. Filipe da Cunha solicita às autoridades competentes maior atenção àquela população, particularmente no que toca à agricultura.
"Estamos a pedir ao Governo que nos disponibilize um tractor, para nos auxiliar a desbravar as terras. A nossa terra é fértil, estamos em condições de produzir e contribuir para o combate à fome”, disse.

A base de sobrevivência daquela população é a agricultura, caça e pesca. A comercialização da produção não encontra resposta, por causa das péssimas condições de transitabilidade.
"Nós nos consideramos isolados, estamos fora da realidade das outras pessoas, quer seja o problema da comunicação, da saúde e da educação. Mukulu wa Ngola é o bairro que está a dar dignidade ao local dos túmulos. Foi prometida a construção de um monumento, há um tempo atrás, até agora, nem água vem, nem água vai”, desabafou.
Percurso esburacado
São sete horas da manhã. Conforme o combinado, fomos ao local indicado pelo guia para a concentração e seguirmos viagem para a localidade de Mukulu wa Ngola. Localizados no sítio combinado, partimos. Bem descontraídos, fizemos os primeiros seis quilómetros dos mais de 140.

No desvio de Cambaxe, o nosso guia interrompe a conversa e questiona: "Chefe, esse carro tem tracção?”. Respondemos, prontamente: "Tem sim”. A partir daí, o pressentimento de que algo não ia bem, começa. Apesar disso, a nossa viagem conheceu a primeira paragem em Caombo. O nosso guia, que por sinal é guardião e é o chefe de grupo em Mukulu wa Ngola, olha-nos e dispara: "Chefe, a verdadeira viagem vai começar”.
"Agora é que estamos tramados”, pensa-se logo. A determinado ponto, um dos acompanhantes diz: "manos, aqui está tudo seco, não está a cair chuva”. Animados com o cenário, tentamos acelerar, a ver se alcançamos o local o mais cedo possível.
Depois de percorrermos uns bons quilómetros, o nosso guia voltou a advertir: "chefe, estamos quase na zona de maior perigo. Se durante os últimos dias tiver caído chuva, vamos ter que deixar o carro deste lado e caminhar a pé. O chefe aguenta caminhar 10 quilómetros?”, perguntou, ao que se seguiu um aceno positivo da nossa parte.

No local considerado "intransponível”, por falta de pontes, encontrámos tudo bem. Um comerciante que frequenta a área improvisou uma ponte à base de paus atravessados, o que possibilitou a passagem da nossa viatura. Passámos por outras três pontes improvisadas, até atingirmos a localidade de Mukulu wa Ngola.
Às 13 horas, atingimos Mukulu wa Ngola. O ambiente na aldeia era característico. Homens, mulheres e crianças mergulhados no seu ambiente rural, isolados, mas dispostos a revelar a alegria de ter visitas. Todos vieram ao nosso encontro e ficámos mergulhados naquele recepção calorosa, enquanto entoavam saudações eufóricas ao soba que se encontrava em Malanje.
Minutos depois, o nosso guia chamou os restantes quatro guardiões para a concertação e ver as condições para chegarmos aos túmulos. Terminada a reunião, o soba, ou seja, o chefe de grupo, Filipe da Cunha, transmite-nos a decisão tomada. No local, não se pode chegar sem que os visitantes cumpram com algumas exigências. Por isso, é necessário uma grade de cerveja, uma de gasosa, vinho, Whisky e cinco mil kwanzas. Informámos que tínhamos apenas metade das exigências. Concordaram. Metemo-nos então a caminho, em direcção aos túmulos...

Local deve merecer atenção

O professor de História e de Antropologia na Escola Superior Politécnica de Malanje e liceu Gomes Spencer, Simão Coxe, disse ao Jornal de Angola que, pelo facto de estarem sepultados no local altas figuras da História do país, devia ser prestada a máxima atenção.
"Eu visitei o local e não gostei do que vi. Aqueles túmulos não têm condições. Não tem nada aí; é como se fosse um lugar sem impacto, como se fosse um lugar sem importância”, desabafou
Simão Coxe é de opinião que o Governo faça algo no local e aconselha mesmo que seja transformado em museu, onde a nova geração vá colher mais informações.

"Na província de Malanje, não existe um museu e seria um lugar apropriado, tal como acontece noutras realidades, como, por exemplo, na província do Zaire, que foi a capital do Reino do Congo. Lá não há problema. O cemitério dos reis é um lugar aprazível, bem construído. Os túmulos estão bem localizados, o mesmo também acontece com o Reino do Bailundo, os túmulos estão bem localizados, é um lugar de visitas constantes. Mas, infelizmente, o que eu vi no Mukulu wa Ngola, não, aí não há condições”, lamentou.

O professor considera não haver valorização, nem atenção, pelo que chamou a atenção para a necessidade de se preservar tudo o que tenha a ver com a nossa identidade e realidade histórica. Nos dizeres do historiador, a primeira coisa a fazer é conhecer e, depois, valorizar e preservar, porque "ninguém pode preservar algo que não conhece. Não conhecendo, não tem como valorizar. Eu acredito que talvez o povo de Malanje não conheça a dimensão histórica que aquilo tem, aquele é um lugar muito importante”, destacou.
O professor disse que, quando esteve no local, durante três dias, enquanto chegava, saía uma brasileira que ficou lá uma semana a pesquisar.

"Imagina alguém que sai do Brasil … Ela ouviu, a partir do Brasil, que existem uns túmulos no Mukulu wa Ngola, em Malanje, veio e visitou. Os estrangeiros conhecem a importância daquilo, mas, nós, os angolanos, às vezes desconhecemos a nossa própria realidade, eis a razão por que nós abandonámos aquilo. É errado”, considerou.
Simão Coxe apela para a necessidade de melhoria do acesso ao local, já que é uma das razões que impede a vinda de turistas, nacionais e estrangeiros. A transformação do local em museu, diz, é, igualmente, uma alternativa para a valorização e uma maior visibilidade ao actual rei do Ndongo. " Também não gostei muito de ver a corte onde vive o próprio rei. É preciso mais valorização.

Projecto de construção em curso

O director do Gabinete Provincial da Cultura, Turismo, Juventude e Ambiente, Fernandes Cristóvão, disse que há esforços no sentido de melhorar as condições do local onde estão sepultados os soberanos do Ndongo, pelo que está em curso o projecto de construção do memorial.
Confrontando com as promessas feitas pelas autoridades, Fernandes Cristóvão revela que a questão da valorização dos túmulos já foi levada à discussão no Conselho de Auscultação das comunidades, em algumas sessões do Governo, e com a sociedade em geral e autoridades tradicionais. A ideia é construir o memorial na cidade capital de Malanje, um assunto que continua a dividir opiniões.

Fernandes Cristóvão considera que construir o memorial em Malanje seria o mais acertado, devido à sensibilidade dos equipamentos a serem utilizados para o efeito. Por outro lado, o museu em causa não representa unicamente os Ngola, mas, sobretudo, representa todos os soberanos que configuram o Reino do Ndongo, do Congo, de Cassange... Então, temos estado a discutir, avaliar com o Ministério, o mais viável”, considerou.

Apesar das divergências sobre o local onde construir o memorial, Fernandes Cristóvão aponta a capital da província por reunir melhores condições, quer em termos de conservação, quer em facilidade na energia eléctrica, entre outros.
"Tendo-se a opinião de que seja feito aqui ou não, o que surgiu no quadro do debate é que, a ser aqui, que se faça uma réplica no local (em Mukulu wa Ngola), numa dimensão menor, que possa, na verdade, dignificar o local e representar melhor essa homenagem aos soberanos do Ndongo”, completou.

Em relação aos acessos, o responsável disse haver esforços, com a Administração Municipal de Marimba, para, no quadro do PIIM, proceder-se à recuperação. Foi feito algum trabalho de terraplanagem, mas, na óptica do responsável, não correspondeu aos anseios e orientou-se para a necessidade de se reverem todos os pormenores do contrato e melhorar o trabalho.
Fernandes Cristóvão reconhece haver dificuldades de recursos para acudir a comunidade que vela pela conservação dos túmulos, assim como das condições dos guardiões que asseguram o local dia e noite. Contudo, disse existirem apoios para os guardiões, através do rei Cabombo.

  RETRATO
A rainha Njinga Mbande


O retrato mais divulgado da rainha Njinga Mbande é, na verdade, imaginário. Da autoria do pintor  francês  Achille Déveria (1800-1857), a imagem foi feita em 1830 e atravessaria os séculos XIX e XX, chegando aos dias de hoje nas representações das estátuas que actualmente estão exibidas nas cidades.
O trabalho de Déveria baseia-se nas pinturas de Cavazzi de Montecúcolo, capuchinho italiano que com ela cruzou, tendo passado várias temporadas na corte do Ndongo e da Matamba, nesta última a partir de 1658.
Apesar da sua inegável popularidade e do elevado número de trabalhos académicos, a soberana do Ndongo e da Matamba estará assim sepultada num lugar humilde, longe das pomposas estátuas, a exigir um monumeto digno do seu legado. 

  TONY NGUXI
"Entendi-me ao visitar Mukulu wa Ngola”


"O impacto é inexplicável”, começa por dizer o músico e investigador cultural Tony Nguxi, que efectuou uma visita ao túmulo dos soberanos do Ndongo. A viagem enquadrava-se nas pesquisas do projecto Weza Angola Imoshi e foi feita em Agosto de 2016. Mas, de lá para cá, o artista ainda convive com a mística dos Ngola.
 "Ao visitar Mukulu wa Ngola, entendi-me definitivamente. Nunca mais voltei a ser a mesma pessoa. Sou hoje uma versão muito melhorada de mim mesmo”, garante o pesquisador cultural, a quem as estradas e as pontes improvisadas não impediram de realizar a aventura, rica em paisagens, conhecimento e descoberta.

Além do legado dos soberanos do Ndongo, a viagem da busca pelo passado permitiu-lhe perceber e sentir melhor a presença dos vales e riachos, monumentos naturais de florestas existentes à volta dos túmulos.
"Ngola Kilwanje kya Samba não é apenas o rei do Ndongo, é a visão dos povos de Angola. É o pai do Bailundo, irmão do Kongo, filho da Lunda, irmão de Mandume, estadista do Monomotapa, guerreiro de África e patrono de Angola”, diz o pesquisador sobre o lendário Rei do Ndongo, figura que merecerá um filme a ser apresentado em 2022. A produção está a cargo da Akwafrica Produções, detentora do projecto Imoshi-SADC, em parceria com o Instituto Angolano de Cinema e Audiovisual.

"Ngola” é o título político máximo do Ndongo, de que resultou o nome da pátria Angola. Mas é apenas uma primeira pista para perceber o valor e o legado dos soberanos sepultados em Mukulu wa Ngola. Tony Nguxi vai muito mais longe:
"A Ngola quer dizer Os de Angola, isso nas nossas línguas. Angola, por isso, é uma pronúncia das línguas africanas, que vem desde os Grandes Lagos, por onde  a ancestralidade tem uma incursão profunda”, afirma.
Tony Nguxi garante o mesmo que a Nação não nasce por mero acaso.
"Angola é uma Nação recomendada pelo Conselho dos Reis de África, para acudir os tristes acontecimentos que já se desenrolavam no Reino do Kongo, à volta do século XV”, diz, realçando, deste modo, a importância da gesta de líderes que empreenderam lutas e resistências contra a expansão portuguesa.

Francisco Curihingana/ e Gaspar Micolo |

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