Opinião

As trapalhadas evitáveis

Luciano Rocha

Jornalista

A trapalhada na qual se converteu o espaço público luandense faz com que não seja o asfalto a estender-se às zonas que nunca o tiveram, mas o oposto, que o areal vermelho se estenda aonde não devia.

10/06/2021  Última atualização 04H25
As consequências nefastas deste estado de abandono a que permanece votada a província, onde se situa a capital angolana, principalmente neste tempo de pandemia, continua a não incomodar quem tem a obrigação de zelar por ela e pelos que a habitam. Aqueles reflexos hão-de ser cada vez mais gravosos, pois o desmazelo arrasta com ele a falta de asseio, "porto de abrigo” de uma série de doenças assassinas que contribuem - e de que maneira! - para o enfraquecimento da economia e, por consequência, atrasa o desenvolvimento, não apenas de Luanda, mas do país, no seu todo.

A responsabilidade da delapidação do erário é, também, de quem não justifica o que lhe é pago, não interessa quanto, para exercer funções que não desempenha por incompetência ou preguiça, não raro juntos Façam-se as contas a quanto um destes inertes recebe de salário mais as mordomias, a que se juntam Internet - dos passatempos predilectos que os ajuda a passar o tempo - chamadas telefónicas, água, electricidade, desinfectantes de mãos, toalhetes, papel higiénico e percebe-se, sem esforço, o prejuízo que cada um deles constitui.

Quase um mês após o início oficial do Cacimbo, logo sem chuva - a eterna justificação, a par da falta de dinheiro, de incapazes e indolentes - a poderem adiar ou interromper obras, pergunta-se: o que foi alterado, para melhor, no espaço público luandense? As respostas que o cidadão comum deseja ouvir não se referem a grandes projectos, com avultados investimentos, discussões orçamentais, sequer a criação de mais comissões.

O fim da trapalhada do espaço público luandense pode começar com acções sem grandes gastos. Requerem apenas, entre outros requisitos, vontade, conhecimento da província, trabalho, que é dele que se precisa, não de conversa, como, por mais do que uma vez, lembrou o Chefe de Estado. Por essa razão, até, se dispensam discursos, tantas vezes movidos por vaidades bacocas, frases feitas, fora do contexto, sem nexo.

O espaço público luandense necessita que os contentores de lixos domésticos sejam lavados, tenham tampas, deixem de os colocar em cima de passadeiras e em esquinas; que o asfalto das artérias não continue encoberto com as areias provenientes de onde bem se sabe; que os passeios sejam arranjados e desimpedidos de todos os estorvos, que obrigam os peões a utilizar locais destinados a carros e motos; os multicaixas passem a satisfazer, ininterruptamente, as necessidades dos clientes e deixem de ser mais uns objectos decorativos, como os semáforos, por exemplo; ou fiquem inactivos porque as contas de quem confiou neles e lhes paga foram abusivamente postas em malas, sacos, guarda-fatos ou nas mãos de traficantes ilegais de divisas ilegais.

A trapalhada do espaço público luandense tem culpados em vários sectores. que continuam a ocupar indevidamente lugares para os quais não estão minimamente preparados. Sabe-se, mas nunca é demais insistir, que a incompetência e a mangonha, funcionam como tentáculos de polvo, espalham-se por todos os sectores e níveis. Não fosse isso, Angola não tinha chegado onde chegou. A situação, mesmo com as baixas do preço do petróleo, crise económica internacional e a pandemia do coronavírus, nas mais variadas estirpes em que se desdobra, podia não ser tão má. Mesmo assim, não é pior - à primeira vista, parece impossível, mas é verdade - devido aos esforços empreendidos para contrabalançar os saques ao erário que puseram o país à beira da bancarrota. Como sempre, foram e continuam a ser os mais carenciados a pagar as quotas maiores dos males que não provocaram.

Luanda, que devia, por motivos evidentes, ser exemplo a seguir pelo resto do país, demonstra exactamente o oposto, o que não deve ser feito em nenhum espaço, nem nos nossos quintais. E há formas, sem grandes dispêndios, de inverter a situação. Basta vontade, trabalho, competência.

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