Sociedade

Bancadas atenuam sofrimento

De segunda a sábado Catarina João, 30 anos, apanha o táxi em direcção ao mercado do Mutundo para comprar abacate que vende nas ruas do Lubango.

24/01/2021  Última atualização 14H10
Duzentas zungueiras beneficiaram de bancadas de madeira © Fotografia por: Arão Martins | Edições Novembro| Huíla
Com a sua voz de soprano Catarina João facilmente atrai a clientela. Mãe de cinco filhos, ela considera que ser zungueira "é uma tarefa difícil”, mas apesar disso nunca desistiu. Tudo, segundo ela, porque tem de alimentar a si e aos seus. "É desta actividade que tiro dinheiro para sustentar os meus filhos. Meu marido foi militar e perdeu o braço direito na guerra. Tenho que ajudá-lo”, explicou à reportagem do Jornal de Angola. 

Mesmo em período de gestação, a rotina de Catarina João é a mesma. A acção dos fiscais é o pior incómodo.  
Rosalina Ngueve, 38 anos, é zungueira há 20 anos. Natural do município da Caála, província do Huambo, reside no bairro Nambambe, arredores do Lubango. Ela vende banana e tomate oriundos da comuna do Bentiaba, província do Namibe. Vende também melancia, pêssego, pêra, tangerina, banana pão e manga. Todos os dias percorre os bairros João de Almeida, Laje, Santo António, Bula Matadi, Joaquim Kapango e Santo António, uma actividade que requer sacrifício e determinação.
Feliciana Chimbinha, 40 anos, diz que começou a vender frutas no antigo mercado do bairro Santo António, hoje desactivado. "O mercado estava localizado na zona onde foi construído o hospital da Machiqueira. Depois da mudança optei por vender na zunga. É uma actividade que me deu família”, disse.

Através da zunga, revelou, sustentou os estudos dos seus filhos, que hoje são maiores de idade e exercem cargos em diversas áreas. "Para levar uma bacia na cabeça é preciso ter força e determinação. É preciso superar a vergonha e os maus tratos de alguns clientes”, contou.

Caty Antunes, 28 anos, outra vendedora, confessou que várias vezes caiu com a bacia na cabeça. "As quedas foram ao tropeçar quando fugia dos fiscais da Administração Municipal. Graças a Deus, nunca aconteceu o pior”, afirmou, acrescentando que é na zunga "onde obtemos algo para nos alimentar e comprar material escolar dos filhos. A rotina é diária”.
Feliciana Chimbinha explicou que "nenhum ser humano é capaz de percorrer longa distância com peso na cabeça” e que é no momento do descanso que as zungueiras aproveitam para vender em qualquer lugar. "É nessa ocasião que tem havido desentendimento com os fiscais”, disse.
 
Oferta de bancas

Mais de duzentas zungueiras beneficiaram de bancadas feitas de madeira para vender fruta em diversos bairros da cidade do Lubango. O administrador municipal do Lubango, Armando Vieira, disse que o projecto está a ser implementado em parceria com o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), que disponibilizou 8 milhões de kwanzas.
Armando Vieira informou que a acção denominada "Minha bancada, meu negócio” visa atenuar o sofrimento das zungueiras, que, para obter dinheiro para o sustento, são obrigadas a circular longas distâncias pela cidade. "A mulher zungueira quando circula pelas ruas da cidade nem sempre consegue vender. Com a entrega das bancadas a venda é feita em locais fixos, o que facilita a sua localização”, disse. As bancadas que estão a ser entregues servem para vender, exclusivamente, frutas. 

Segundo o administrador foram fixados postos de venda de fruta nos bairros Laje, junto a igreja Católica, Mitcha, Nambambe e na margem do rio Mukufi. O objectivo, explicou, é construir 400 estruturas do mesmo tipo. Armando Vieira deu a conhecer que a Administração Municipal, que controla, actualmente, mais de 300 zungueiras, numa primeira fase produziu 100 bancadas para beneficiar 200 mulheres. Cada bancada serve para duas vendedoras. 

Armando Vieira lembrou que no âmbito do Plano Integrado de Intervenção nos Municípios (PIIM) recentemente foi construída uma nave junto ao mercado municipal, que está a albergar um número considerável de antigas zungueiras. "O ganho permitiu enquadrar mulheres que vendiam peixe e frutas nas ruas da cidade”, disse. "Queremos também inserir as mulheres na Segurança Social”, adiantou, salientando que a Administração Municipal está a incentivar e a ajudar as mulheres a obterem o Bilhete de Identidade e a abrirem conta bancária.

Maria João, uma das beneficiárias, explicou ao Jornal de Angola que a iniciativa é louvável, pois reduz o sofrimento da mulher zungueira. "Circulando pelas ruas nem sempre tínhamos sucesso. Com a entrega das bancadas e fixação dos pontos de venda, a população, seja lá onde for, tem onde se dirigir”, afirmou, sublinhando que a criação dos pontos de venda facilita não só a actividade das vendedoras, mas também da pessoa que procura frutas.

Arão Martins | Lubango

Jornalista

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