Opinião

Caminhos do nosso “desenvolvimento”

“A terra é de todos os angolanos” – foi assim que levantou a voz o Cali, e percebemos que ao dizer “terra” se referia ao território nacional. E continuou: “O que somos?: – um país que hoje é um Estado independente, dirigido por angolanos mas que continua a exibir um desenvolvimento tão desigual...”.

07/03/2021  Última atualização 10H52
Responde-lhe o Juca Brilhante, que tinha funções importantes no Estado: "Lá está!, sempre a exigir o impossível: – a guerra tudo atrasou!, já esqueceram? Fizemos tudo o que era possível: – construímos estradas, infraestruturas eléctricas, barragens, escolas, hospitais, habitação social, enchemos Luanda de arranha-céus, reconstruímos os 3 caminhos de ferro, fartámo-nos de importar maquinaria de todo o tipo, equipamentos de ponta, e até mandámos um satélite para o espaço... Não era simplesmente possível fazer mais.” E a conversa assim iniciada por aqueles velhos amigos, prometia...

"Admitamos...” – retorquiu o Cali – "...admitamos que os cidadãos como tu, do lado das elites que têm governado, achem legítimo pensar assim. Mas como explicar que, com esse 'tanto esforço' e investimento, tenhamos um desenvolvimento tão marcado pela injustiça social e, sobretudo, que não exista em nós, um sentimento colectivo de esperança no futuro do pais? Como explicas isso?”
Foi aí que entrou na discussão a Delmara, que até então só ouvia: "Gostava ainda de saber que sentido tem esse 'desenvolvimento' de que estão a falar?” Apaixonada pela dúvida e pela arte de levantar questões, Delmara aproveitou a ocasião: "Não será hora de perguntarmo-nos, angolanos, que noção temos dessa palavra 'desenvolvimento' de que tanto falamos?”

"Se desenvolver é o caminho, tendência natural dos seres humanos, caminho predestinado, um pouco como acontece com a felicidade e o amor (querermos sempre mais, a qualquer preço; e sem termos ideia dos limites a alcançar)...– onde será que esse caminho nos irá levar?”
O Cali aproveitou a tranquilidade que as palavras da Delmara trouxeram à conversa: "Pois!, isso faz-me perguntar algo que me tem incomodado ultimamente: será que explorar os recursos naturais como temos feito até hoje, garante os objectivos visados?”... "Esse tipo de 'desenvolvimento' não carregará nele próprio um intrínseco princípio de injustiça, sob aparência de um 'natural' sentido de progresso?”

"Nada disso!” – voltava o Juca dos brilhos – "não temos outra solução senão a de o Estado continuar a explorar os nossos recursos minerais para dispor dos meios e dar boas condições de vida a todos os angolanos. Tudo o que houver para explorar e esteja onde estiver: os sólidos, líquidos e gasosos que se encontrem no subsolo de todo o país – sem poupar as zonas sensíveis – pois sem dinheiro não se desenvolve!...Precisamos de dinheiro!”
Não nos surpreendeu a resposta do Cali: "Espera aí!, primeiro tens de me explicar, ó Juca, porque será que com o dinheiro todo que se fez até hoje – explorando os nossos recursos (petróleo, diamantes...) – não conseguimos ainda melhorar a vida da maioria dos angolanos nem eliminar os níveis inaceitáveis de pobreza que exibimos? Será que não vai ser mais do mesmo?

"É justamente aí que nos temos de entender” – veio, de novo, a Delmara – " Se tivéssemos as ideias mais claras quanto ao tipo de 'desenvolvimento' que queremos... nem seria preciso estarmos a debater se o assunto da exploração petrolífera que o governo persegue nas bacias interiores do território é ou não compatível com proteger a natureza e o ambiente! Por vezes o que me desanima é que diante da nossa fragilidade no aprofundar do conhecimento e do saber, os interesses de grupo, os interesses políticos e sobretudo a ganância arrasem tudo!”

"Faz-nos falta ter ideias muito mais claras sobre o conceito de desenvolvimento que melhor convém às nossas realidades e às nossas capacidades. Começando pelo Estado. Sobretudo quando há tanta (boa) gente a pensar que 'desenvolvimento' é fazer do nosso país uma imagem do Dubai... Não estaremos um pouco confundidos, baralhados?”
"Defender que 'desenvolver' é criar riqueza com o foco na economia, pois sem ela não se pode dar condições de vida e de educação aos cidadãos– para que estes próprios tenham a capacidade de participar no debate sobre 'como desenvolver'– é não sair do impasse, como uma cobra que engole o seu próprio rabo!”

Tentou ir mais longe: "Não será que 'desenvolvimento', como conceito e instrumento que não resolveu os problemas sociais e ambientais das sociedades em geral, e, em particular dos países das periferias, não está a servir, no essencial, como instrumento para manter-nosdominados pelos países industrializados?”
"Não construiríamos um país melhor se ousássemos pôr em causa os paradigmas dominantes, passando a considerar o desenvolvimento humano como prioritário, criando uma nova 'cultura de desenvolvimento', uma forma diferente de conceber a angolanidade, de ver a vida?”

"Se promovêssemos a liberdade – e construíssemos a capacidade de escolher, nós próprios, a chave que nos leve a um bom caminho, e a abandonar a ‘fácil’ e 'eterna' opção de seguir as opções dos outros, geralmente as dos países do Norte?”
"Só perguntei...!”– disse, por fim, a Delmara quebrando o silêncio– "Ficaram apáticos porquê? Quis apenas dizer que é preciso entendermo-nos sobre a visão do mundo em que assentamos a nossa ideia de 'desenvolvimento'...!”
Promover o desenvolvimento harmonioso e sustentado em todo o território nacional, protegendo o ambiente, os recursos naturais e o património histórico, cultural e artístico nacional, é obrigação do nosso Estado, estabelecida pela alínea m) do artigo 21º da Constituição.

Apusindo Nhari |*

Jornalista

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