Cultura

Como e por quê ensinar Literatura Portuguesa?

Tal como observa Russel Hamilton (1999), em relação ao nascimento dos Estudos Pós-coloniais, há uma querela quanto ao precursor.

16/05/2021  Última atualização 07H00
Ensina-se Literatura Portuguesa © Fotografia por: DR
Para muitos,  Edward Said, professor de literatura na Universidade da Columbia, em Nova Iorque, com a sua obra "Orientalism”, publicada em 1979, dá o início à teoria pós-colonial.  Todavia, segundo outros, "o primeiro texto a elaborar uma teoria pós-colonial é  ‘The Empire Writes Back: Theory and Practice in Post-Colonial Literatures’ (O império responde escrevendo: Teoria e prática nas literaturas pós-coloniais), publicado em 1989 por Bill Asrehcroft, Gareth Griffiths, e Helen Tiffin”. Hamilton (1999, p.13).

Segundo o professor Luiz Antonio Guerra, "os estudos pós-coloniais apontam para a construção de novas epistemologias e paradigmas de análise sócio-cultural, agindo na valorização de saberes não hegemónicos que provém dos países periféricos  ”. É sobre esse prisma que nos movemos numa esfera analítico-científica com alguns resquícios de ideologia. Ademais, fica difícil explicar se é possível, dentro do espaço que se designou pós-colonialismo, não partir sempre de uma atitude ideológica, antes da tomada da consciência científica.

A ciência é considerada como uma predicação universal, mas o seu ensino deve respeitar a constituição antropológica dos indivíduos bem como a configuração social e económica da sociedade, pois, como observa Freire (1987, p.58), "a educação autêntica não se faz de ‘A’ para ‘B’ ou de ‘A’ sobre ‘B’, mas de ‘A’ com ‘B’”. Em vista disso, o ensino da Literatura Portuguesa curricularmente preparado para estudantes angolanos não pode obedecer a mesma grelha curricular, implicando a recorrência a uma didáctica especial, de ponte, metodologicamente orientada a partir dos Estudos Comparados .
Vivemos num contexto em que, ideologicamente, várias correntes de pensamento andam em voga. O nosso panafricanismo tardio e saudosista cujos  principais  espaços de exposição de pensamentos são as redes sociais e tertúlias presenciais, por um lado, tem-se configurado como obstáculo para o processo de assimilação de alguns conteúdos produzidos pelo mundo ocidental.

Por outro lado, sem a assumpção explícita dessa atitude afrocêntrica enquanto ideologia, muitos professores deparam-se com estudantes que manifestam inquietações do tipo "Literatura Portuguesa para quê? Por que é que na História da Língua Portuguesa falamos mais de Portugal?  O que esta fonética tem a ver connosco se se parece mais com a portuguesa?”, chegando ao ponto de alguns estudantes, sobretudo a nível do ensino secundário, declararem o seu desamor em relação à Língua Portuguesa, mesmo quando não falam uma outra língua nacional. Isto ocorre porque a maior parte dos professores se quedam nas duas primeiras dimensões de Paulo Freire "A” para "B” ou de "A” sobre "B” em que o professor, ensina para o aluno sobre coisas com as quais ele julga não se relacionar. O problema que se coloca aqui é de ordem existencial. Todas essas disciplinas devem concorrer para explicação ou para a resolução de problemas que inquietam os estudantes e com eles se relacionam na vida prática.

Essa educação libertadora, que afinal é a que todos deveriam perseguir, não começa, como observa Freire (1987, p. 57) "quando o educador-educando se encontra com os educandos-educadores em uma situação pedagógica, mas antes, quando aquele se pergunta em torno do que vai dialogar com estes. Esta inquietação em torno do conteúdo do diálogo é a inquietação em torno do conteúdo programático da educação”. O nosso maior problema é que, muitas vezes, os programas são forjados por indivíduos com uma concepção diferente daquilo que postulamos aqui. É sobretudo nestes casos que o professor se deve pautar pela Didáctica da Ponte.
Não há critérios esclarecedores em termos de produção de programas para o ensino de disciplinas como Literatura Portuguesa,  História da Língua Portuguesa, Fonética do Português, entre outras. Ou seja, há, na verdade, um critério, que é o do copy/paste, como se o estudante português fosse como o estudante angolano em todas as vertentes e dispusesse das mesmas condições técnicas que aquele.

Ensina-se História da Língua Portuguesa, por exemplo, para se compreender a evolução de uma língua que, fruto das políticas exoglóssicas adoptadas pelo Estado angolano após a independência, se tornou igualmente nossa. Portanto, é imperioso estudá-la, saber como ela entra em Angola, em que período da história dessa língua, atendendo às principais propostas de periodização e como ela evoluiu dentro do território nacional, ajudando a enriquecer e a empobrecer as línguas nativas.

Literatura comparada
O ensino da Literatura Portuguesa implica uma elaboração crítica do programa e exame de toda a matéria. Quem ensina Literatura Portuguesa tem de ter obrigatoriamente bases sólidas em Literatura Angolana, pois a Didáctica da Ponte, busca os seus princípios orientadores na Literatura Comparada. Guyard (1951) entende por literatura comparada  "a história das relações literárias internacionais” e sugere que o comparatista se encontre nas fronteiras, linguísticas ou nacionais, "e acompanha as mudanças de temas, de ideias, de livros ou de sentimentos entre duas ou mais literaturas”. Ou seja, ensina-se Literatura Portuguesa para que o estudante construa uma cultura geral sólida e para que compreenda melhor a Literatura  Angolana, por sua relação histórica  e este ensino deve orientar-se didacticamente por um ensino de ponte.

"Ponte é uma construção que permite interligar ao mesmo nível pontos não acessíveis separados por rios, vales, ou outros obstáculos naturais ou artificiais” . O sintagma "interligar ao mesmo nível” pressupõe equidade, mas a ideia de equidade não pressupõe que no ensino de uma disciplina como Literatura Portuguesa, a perspectiva comparativista faça com que os dois conteúdos sejam administrados na mesma proporção. O conteúdo dominante será indubitavelmente a Literatura Portuguesa, cuja explicação deverá culminar num conteúdo que ajude o estudante angolano a compreender a Literatura Angolana ou fenómenos universais. Para lograr êxito, o programa terá de ser também de ponte.

As literaturas mais antigas, segundo a estudiosa portuguesa Amélia Pais (2004), transmitiam-se de forma oral, ou seja todas as literaturas começaram de forma oral. Isto inclui a Literatura Angolana e a Literatura Portuguesa. O europeu encontrou expressões que lhe convinham para se referir com mais frequência à literatura oral: literatura medieval, trovadoresca, etc. Ao ensinar este conteúdo a um estudante angolano, o professor deve fazer a ponte, porque há muitos  estudantes que crescem a acreditar que  a   Literatura Ocidental começa de forma escrita. Além disso, conhecemos os estereótipos por que África passa por lhe ser reservada a oralidade, mesmo tendo contribuído para a construção da escrita nos termos em que é hoje conhecida, facto que provaremos num outro artigo. Por conseguinte, um programa curricular que obedeça à Didáctica da Ponte segue o seguinte princípio:
• Literatura Medieval, Poesia Trovadoresca e Palaciana  remetem para Literatura Oral.

• De forma concisa e pragmática, ensina-se Literatura Portuguesa na Idade Média, Classicismo, Maneirismo, Barroco, Arcádia, procurando sempre elementos que ajudem o estudante a compreender o homem como ser universal.
• Do romantismo em diante, com raras excepções, é possível fazer ponte com a literatura angolana. Contudo, é preciso ter na devida conta que esses "ismos” não desembarcam conceptualmente no espaço de criação angolano como movimentos literários e sim como manifestações. Não existe um romantismo, realismo, naturalismo, surrealismo angolanos, e sim manifestações dessas correntes em alguns textos de autores angolanos, não de forma plena, porque cada um desses autores acrescentou elementos locais.

A didáctica da ponte explica o "como”, mas até agora não responde à pergunta "por quê ensinar Literatura Portuguesa?” que, na verdade, nunca constituiu uma preocupação de nossa parte, por acharmos clara a sua importância, ou talvez, o "como” subentenda já a razão.  Terminamos assim o nosso texto respondendo  ao "porquê” do ensino da Literatura Portuguesa:

1- Ensina-se Literatura Portuguesa pela mesma importância com que se deve ensinar Literatura Brasileira, Literatura Moçambicana, Literatura Cabo-verdiana, Americana, Francesa, Alemã, entre outras literaturas. Sobre a importância da Literatura, Barthes (2007, p.18) assevera que "se todas as nossas disciplinas devessem ser expulsas do ensino, excepto uma, é a disciplina literária que devia ser salva, pois todas as ciências estão presentes no monumento literário”. Visto deste modo, conseguimos compreender até mesmo o inconsciente desse povos, os quais estudamos por via da literatura.

    2 - Ensina-se Literatura Portuguesa porque a partir dela podemos compreender muito da Literatura Angolana escrita. Historicamente, Portugal está no centro da génese de Angola enquanto nação e a Literatura Angolana Escrita, desde os primórdios, foi essencialmente forjada ideologicamente em oposição ao seu domínio.

* Professor, Escritor
e Crítico Literário

Referências Bibliográficas
BARTHES, Roland. Aula. São Paulo: Cultrix, 2007
FREIRE, P. Pedagogia do Oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.  
Hamilton, R. G. (1999). A LITERATURA DOS PALOP E A TEORIA PÓS-COLONIAL. Via Atlântica, (3), 12-23. https://doi.org/10.11606/va.v0i3.48809
Guyard, M.F.(1951). Objet et méthode. La littérafure comparée. Paris: PUI.
POSNETT, H. M. (s/d).The Comparative Method and Literature. In: -. Comparative Literature. Ncw York: Appleton,.
PAIS. A. P. (2004). História da Literatura em Portugal: uma perspectiva didáctica. Vol.1Leiria.

Hélder Simbad |*

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