Reportagem

Condição social das populações de Nancova pode melhorar com acções do PIIM

Viajar para a sede municipal de Nancova em serviço, negócios ou visita privada é um autêntico calvário. A distância entre a sede provincial do Cuando Cubango é de cerca de 360 quilómetros de estrada, passando pelo Cuito Cuanavale. O percurso é feito em terreno arenoso, grandes buracos e lagoas. Apenas as viaturas à tracção circulam na via

19/11/2020  Última atualização 13H45
© Fotografia por: Lourenço Bule | Nancova | Edições Novembro
Na sede de Nancova, o si-lêncio é quase absoluto. Há três anos que o Ministério das Finanças canaliza cerca de 30 milhões de Kwanzas à localidade, no quadro do Programa de Combate à Fome e à Pobreza, mas, apesar disso, todos os serviços administrativos e comerciais são realizados em estruturas improvisadas.
Com uma população estimada em 3.451 habitantes, segundo dados definitivos do Censo Populacional de 2014, o município de Nancova, na província do Cuando Cubango, é das regiões do país menos populosa e, também, mais pobre. Falta de tudo um puco. É difícil viver nesta localidade.

Logo à chegada, saltam à vista as 28 casas sociais de tipologia T2 e T3, onde estão acomodados os diferentes serviços da administração local do Estado e alguns funcionários públicos. Das antigas residências, construídas pelo colono, sobram apenas escombros e algumas apresentam paredes cravadas de balas. Fazem lembrar o longo período de guerra civil que assolou o país.
Nancova tem uma ex-tensão territorial de 10.310 quilómetros quadrados, partilhados pelas populações residentes na comuna do Rito e na sede municipal. A sua população vive maioritariamente da agricultura de subsistência, pastorícia, pesca e da recolecção de frutos silvestres, sobretudo no período em que há seca na região.

No período colonial, a localidade era designada Vila Nova da Armada, em homenagem à Companhia de Fuzileiros nº 3 da Armada Portuguesa ali destacada, de 1972/1974, equipada de barcos militares de pequeno e médio porte, com os quais realizavam patrulhas ao longo do rio Cuito.
Apesar de o Decreto Presidencial nº 36/19, de 31 de Janeiro, eleger o município como unidade territorial principal de implementação do Programa de Desenvolvimento Local e Combate à Pobreza, Nancova continua igual a si mesma. A circulação de pessoas e mercadorias é quase impossível, situação que a torna num dos piores lugares para se viver.

Elevada à categoria de município no dia 18 de Agosto de 1978, a sede municipal de Nancova ganha a primeira infraestrutura pública em 2002, com a construção do hospital municipal "Linhaku Lia Mbuenga”. Em 2013 beneficiou de uma pequena central de captação e distribuição de água, dois geradores de 100 e 90 KVA, respectivamente, no quadro do Programa de Investimentos Públicos (PIP).

A maior parte das in-fraestruturas do município foi erguida na comuna do Rito, onde as autoridades locais pretendiam transferir a sede municipal. Mas a proposta enviada ao Ministério da Administração do Território foi rejeitada. Existem, na localidade, 65 casas sociais do tipo T2 e T3, três escolas do primeiro ciclo , um centro médico e dois postos de saúde.
Ainda são muitos os problemas que tornam Nancova numa zona pouco habitada e mais pobre da província do Cuando Cubango.

Educação e saúde em dificuldades

Em Nancova, o sector da Educação debate-se com a falta de escolas e de professores capacitados para atender os alunos que se encontram fora do sistema normal do ensino, com realce para os que concluem o primeiro ciclo do ensino secundário. Na localidade, os alunos só podem estudar da iniciação à 9ª classe.
O chefe de secção de Educação e Ensino de Nancova, Generoso Tchicassa Arão, disse que o município conta com um universo de 16 salas de aula, sendo que oito funcionam na comuna sede do município e igual número na comuna do Rito. Com um total de 1.850 alunos matriculados no presente ano lectivo, as aulas são asseguradas por 25 professores.

Quanto à prevenção à Covid-19, Nancova beneficiou de algumas quantidades de sabão e álcool em gel, provenientes da Direcção Provincial da Educação, Ciência e Tecnologia, que já foram distribuídas às escolas da localidade
Sobre a Saúde, o director municipal Garcia Malemene revelou, ao Jornal de Angola, que o sector que dirige controla um hospital, dois postos de saúde nas aldeias de Massongue e Tchipande, bem como o centro e posto médico em funcionamento na co-muna do Rito.

O hospital municipal recebe, mensalmente, dois milhões de kwanzas para a compra de medicamentos e vários materiais e equipamentos de apoio aos diversos serviços de atendimento médico. A maior unidade sanitária do município debate-se com inúmeros problemas, que só deverão ser ultrapassados com a implementação do Plano Integrado de Intervenção nos Municípios (PIIM), segundo fez saber o administrador municipal.
António Isaac Chilemo disse que, o município de Nancova, para manter o normal funcionamento das unidades sanitárias necessita de sete médicos, dos quais cinco clínicos gerais, um ortopedista e um pediatra, além de 35 enfermeiros.

   Doze horas de viagem

 Da cidade de Menongue para o município de Nancova, passando pela sede municipal do Cuito Cuanavale, o percurso é de cerca de 360 quilómetros. A viagem pode durar até 12 horas, quando os passageiros vão em viaturas 4X4, como Land Cruisers 1HZ, em bom estado técnico. Enquanto isso, Unimogues, Kamazes e Krazes fazem o percurso carregadas de mercadorias diversas. Com estas viaturas, a viagem dura de 24 a 72 horas.

De Menongue até Cuito Cuanavale, cerca de 188 quilómetros, a viagem é feita em estrada asfaltada, mas depois os automobilistas entram numa picada de mais ou menos 170 quilómetros, que seguem até a sede municipal de Nancova. O troço está muito degradado. Há muitos obstáculos pelo caminho.  
As equipas de reportagem do Jornal de Angola e de outros órgãos públicos de Comunicação Social, que saíram de Menongue por volta das 23 horas de terça-feira, só alcançaram a localidade de Mpalei Mpalei no dia seguinte (quarta-feira), quando o relógio marcava 12 horas.

Deste ponto onde termina a estrada, por falta de uma ponte para a travessia, os repórteres prosseguiram a viagem em barcos a motor e canoas, pelos rios Longa e Cuito, onde abundam crocodilos. Até chegar à Nancova, a distância é de quase 50 quilómetros.
Na via Menongue/Cuito Cuanavale/Nancova, os homens do volante preferem viajar no período nocturno para evitar o sobreaquecimento dos motores e pneus das viaturas, como consequência do grande volume de areia na estrada de terra batida, e das altas temperaturas que se fazem sentir na região. O camionista João da Costa contou ao Jornal de Angola que, para aceder ao município de Nancova (antiga Vila Nova da Armada) a partir de Menongue, com o seu camião de marca Unimog percorre mais de 600 quilómetros, passando por Caiúndo e Cuangar, e depois entra pela comuna do Rito até chegar a sede municipal de Nancova.

"É preferível dar a volta, porque pela via do Cuito Cuanavale, no Mpalei Mpalei, as mercadorias são transportadas em pequenas quantidades, em barcos e canoas”, disse João da Costa, para explicar que a carga transportada numa viatura do tipo Unimog é cobrada no valor de 350 mil kwanzas, enquanto as do tipo Kamaz, que têm uma tonelagem superior, o frete varia entre 600 mil e 700 mil kwanzas.
"Transportamos de tudo um pouco, desde materiais de construção, bens alimentares, produtos de beleza e estética, bebidas alcoólicas, refrigerantes, calçado e vestuários adquiridos nos mercados da província do Huambo ou mesmo na cidade de Menongue”, disse o motorista.
O proprietário de um dos maiores estabelecimentos comerciais do município, Adão Mbanza, lamenta as dificuldades que a população local enfrenta na busca de bens de primeira necessidade na sede provincial do Cuando Cubango.

"As vias de acesso são péssimas e, por esse motivo as viaturas apresentam, constantemente, vários problemas mecânicos. Mas, enfim, não temos outro remédio, porque precisamos de dinheiro para sustentar as famílias”, desabafou o empresário, que chega a pagar entre 500 mil a 600 mil kwanzas de frete pelo transporte de mercadorias diversas, que adquire na cidade de Menongue para serem comercializados em Nancova.
O munícipe Simão José, que vive há mais de 20 anos na localidade, afirma que em Nancova não há estradas em condições, energia eléctrica, farmácias, água potável, transportes públicos, ambulâncias e agências bancárias. "Aqui não há nada”, concluiu.

Uma luz no fundo do túnel

O município de Nancova foi contemplado com 68 projectos sociais, inscritos no Plano Integrado de Intervenção nos Municípios (PIIM) e avaliados em quatro milhões de dólares, que começam a ser executados em Dezembro deste ano.
O administrador municipal António Isaac afirmou que  o concurso público para a adjudicação de obras acontece neste mês de Novembro. "A falta de pontes sobre os rios Cuito e Longa cria constrangimentos à circulação de pessoas e bens, particularmente no período chuvoso”, disse, para de seguida afirmar que o hospital municipal começa a ser reabilitado nos próximos meses.
Segundo o responsável, parte dos projectos do PIIM será direccionado para as obras de terraplanagem de estradas, construção de uma ponte sobre o rio Longa e de um posto policial. Com os dinheiros do PIIM, prosseguiu o administrador, serão adquiridas três viaturas pesadas do tipo Kamaz, para o transporte da população, combustível e mercadorias diversas, pequenas embarcações a motor, viaturas Land-Cruisers, ambulâncias, câmaras frigoríficas, manga de vacinação do gado, entre outros meios e equipamentos essenciais.
Entre as obras programadas constam a construção e apetrechamento do edifício da administração e do palácio municipal, residências do tipo T3 para acomodar os técnicos de saúde que actuam na localidade, uma escola do ensino primário, três jangos comunitários e o mercado comunal do Rito. Estão, também, previstas acções nos sectores da Agricultura e Pesca, Telecomunicações, Desporto, Cultura e Energia e Águas.
António Isaac disse que todos os projectos foram gizados "de acordo com o grau de dificuldades dos habitantes de Nancova”, sendo as obras de maior dimensão a terraplenagem de estradas e a construção da ponte de betão sobre os rios Cuito e Longa.
O administrador salientou que no município de Nancova está em curso a criação de um pomar comunitário, com oito mil plantas fruteiras de manga, caju, abacate, laranja, limão, tangerina, que "além de proporcionar frutas alcalinas, servirá de pulmão de ar para a região mais ao centro da província do Cuando Cubango”.
Segundo o administrador de Nancova, cerca de 942 famílias vão ser integradas em vários projectos agrícolas desenvolvidos em toda extensão do território municipal. António Isaac destacou a instalação da moagem integral para assegurar o desenvolvimento agrícola e apícola na região.
"É necessário que haja um princípio de entendimento, entre governantes e governados, de que todos têm responsabilidades em relação ao estado do município, para que nos próximos dias conheça um desenvolvimento sustentável”, sublinhou o administrador municipal de Nancova.

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