Desporto

Coreano: Estrela que a lesão apagou

A velocidade e o drible eram o forte de Francisco Teodoro da Fonseca Soares, que por ter olhos rasgados, foi apelidado de Coreano. Jogou pouco tempo no Girabola, devido a uma lesão no joelho, mas durante os seis anos em que esteve na equipa principal da TAAG (actual ASA), deixou o seu perfume de ponta de lança temível.

20/11/2020  Última atualização 20H10
© Fotografia por: DR
Desde muito cedo, mostrou queda pelo futebol e, apesar de a mãe nunca ter aceitado a prática da modalidade, representou o clube aviador desde as classes de formação aos seniores. Sente-se orgulhoso por nunca ter representado outra agremiação. Pela Selecção de Angola também não deixou os créditos em mãos alheias. Lamenta a fase negativa por que passa o seu clube de coração, mas augura dias melhores com a direcção agora encabeçada por José Luís Prata. Siga: Como a maior parte dos garotos dos musseques de Luanda, Coreano não fugiu à regra: começou a dar os primeiros toques na bola nos campos pelados do bairro onde vivia e cedo se revelou um talento para a modalidade. "Foi nas Cês, bairro onde morava, onde comecei a dar os primeiros passos no futebol. Foi no campo das Armadilhas (entre os prédios do Caputo) e no campo das Cês (próximo da creche das Bolinhas). Na altura, tinha 13 ou 14 anos”.A bem da verdade, nunca pensou que um dia viesse a ter o destaque que granjeou nos anos que se seguiram, até porque, vezes sem conta teve que "fugir” de casa e "fugar” à escola para jogar a bola, uma vez que os seus pais não aprovaram o engodo pela modalidade. Como todo o progenitor, preferiam que o filho desse prioridade aos estudos.  "Não esperava dar este passo no futebol. Treinei algumas vezes no Atlético (actual Petro Atlético de Luanda), mas, depois, o falecido Zé do Prado (filho do também já falecido Jorge Dias do Prado, que jogou no ASA) disse: ‘Coreano, vamos jogar na TAAG. O meu pai trabalha lá’. E fomos...Uma vez, estava sentado, a assistir a um treino dos juniores, e uma bola saiu do campo. Fiz uma recepção, que o treinador Carlos Romão admirou”.Apesar de, na altura, já treinar na equipa da TAAG, isto a partir de 1978, Coreano confessa que o técnico Carlos Romão (da categoria de juniores), não tinha a verdadeira percepção da sua qualidade. Foi a partir da recepção que fez à bola que saíra que passou a acompanhá-lo e, algum tempo depois, ordenou-o que se juntasse aos juniores. "Éramos juvenis e apenas treinavamos de noite. Lembro que a iluminação vinha através dos faróis do carro do técnico Carlos Romão (risos). Fomos indo, até atingir o escalão de juniores, em que fomos primeiro campeões provinciais e depois, nacionais”.O nosso interlocutor assegura que a equipa de juniores da TAAG era demolidora e merecedora do título de campeão. "Tínhamos grandes jogadores, como o Maninho, os centrais Zé Bartolomeu e Simão Fonseca, o Toi, o Nelo, o Pocolovic, o Esquerdinho, o guarda-redes Acácio e , etc. Era uma equipa forte e corríamos muito”. Depois de conquistar o campeonato provincial e nacional, o avançado aviador foi elevado a sénior, por indicação do técnico Chico Ventura (falecido). "Na altura, fazíamos alguns jogos com a equipa principal e o técnico Chico Ventura, o Geoveti (médio, já falecido) e outros craques da equipa principal, já me tinham como um futebolista promissor. Tive a sorte de jogar com craques como Geoveti, Sabino, Juca, Gonçalves, Zola, Cuba, Chico Dinis, Luntadila, Eduardo Machado, Tozé, Bento, Bondoso, Catarino, corria o ano de 1983/84. 
Altos e Baixos 
Apesar de ter sido um grande atleta, Coreano tem como principal conquista um campeonato provincial e nacional em juniores. É que, na altura em que jogou, A TAAG não conquistou o título do Girabola.  "Fui duas vezes segundo melhor marcador do Girabola, atrás do Túbia. No que toca à selecção, defrontei os Camarões, a Nigéria e outros grandes e pequenos de África. Estive num dos jogos entre Angola e Cuba, com Ndunguidi, Jesus, Nsuca, Vicí, André Nzuzi, entre outros” Lamenta o facto de não ter conseguido o título de campeão do Girabola, mas reconhece que, na época em que jogava, havia muitos clubes fortes. "Naquela época, haviam muitos clubes fortes. Acho que a TAAG precisava de ter jogadores de mais qualidade para chegar ao título”. Na altura, o principal dérbi do Girabola era com o 1º de Agosto. Destes, há um que não esquece. "Quando regressei de Cuba, em 1990, ganhámos por 4-2, no Estádio da Cidadela. Marquei dois golos, dei um ‘show’ ao Tando, cabritos... E é curioso que um dos golos mais bonitos que apontei foi também contra o 1º de Agosto.  Perdemos por 2-1, no Estádio dos Coqueiros, mas marquei um grande golo que o Napoleão até perguntou: ‘onde foste buscar aquela bola?’. Lembro que fintei o Napoleão e o esférico estava para sair, mas dei uma trivela e entrou”.Coreano sente-se triste com a subida e descida de divisão por que passa o ASA. "Do meu ponto de vista, falta tudo no ASA: organização, estrutura e jogadores de melhor qualidade. Temos esperança que as coisas melhorem, agora, com a nova direcção, encabeçada pelo comandante Prata. Estou disposto a dar a minha cintribuição. O ASA já não se compadece com aquelas instalações. Está amarrado! É um clube grande, mas a falta de uma grande estrutura impede que se desenvolva”.
 "A minha mãe nunca quis que eu fosse futebolista”
Em pouco tempo, a carreira do craque dos olhos rasgados no Girabola foi-se consolidando. Contudo, por culpa de uma lesão e de motivos pessoais, teve que a interromper. "Joguei durante cinco ou seis épocas como seniores.  "Quando vim de Cuba, fui operado no joelho, na Clínica Geral do Rio de Janeiro. Esta infiltração no joelho surgiu uma semana antes de irmos ao Congo Democrático, com a selecção.E daí, fiquei quase uma época parado. Mais tarde , voltei a ser operado em Cuba e voltei. Joguei até 1993. Terminei a carreira com 26, 27 anos. Para além da lesão, o facto de na altura lutar por melhores condições de vida, as constantes cobranças da minha mãe, que nunca aceitou a minha carreira como futebolista, e outras situações, levaram-me a pôr término à carreira”.Os planos da mãe para o filho, nunca passaram pelas quatro linhas.”Como disse, às vezes fugia de casa para treinar. A minha mãe não gostava muito de futebol. Ela dizia: ‘meu filho, tens que estudar'. E hoje, honestamente, acho que ela tinha alguma razão. Não tenho curso superior, mas uma formação que me permite um emprego condigno. O futebol tem dessas coisas e temos que aceitar. São épocas diferentes, ontem éramos nós e hoje são os outros”. Apesar de ter jogado pouco tempo no Girabola, Coreano sente-se satisfeito por ter representado a TAAG e a Selecção de Angola. "Apenas joguei pela TAAG e sinto-me satisfeito pelo que dei ao clube e à Selecção de Angola, tanto em juniores quanto em seniores”. O craque aviador revela que, após ter posto término à carreira, tinha sido cobiçado pelo arquirrival 1º de Agosto."Fiquei lá uma semana! Depois de deixar de jogar, vieram como uma conversa... ainda fiz alguns treinos, mas o meu coração não estava lá.”
A perda do amigo Cansas 
"Lamento muito a perda do Cansas, um dos melhores jogadores que vi. Era um meio-campista que lançava bem a bola. Antes de morrer, ele mandou-me chamar. Era na minha casa onde mandava o filho buscar água fresca e outras coisas de que precisava. Num domingo, fomos ao campo das Armadilhas e ele madou o filho chamar-me. Mas, naquela época já tinha deixado de jogar, tinha bebido umas cervejinhas, uns vinhos e não fui ter com ele. No dia seguinte ele morre (baixa a cabeça)! Fiquei com peso de consciência. Chorei mais a morte do Cansas do que da minha mãe. Fiquei muitos anos a pensar no que ele queria dizer-me”Apesar de momentos agradáveis e desagradáveis, valoriza as amizades que ganhou no futebol. "O futebol é algo que nos torna feliz, une-nos,dá-nos amigos, inimizades, etc. Estou satisfeito por conhecer muitas pessoas neste desporto, tenho muitos amigos, pessoas que reconhecem os meus feitos, respeitam-me e...vamos indo”.
 Velocidade e don de drible eram o seu forte
Coreano era um futebolista de reconhecidos dotes, mas reconhece que o cabeceamento era o seu ponto fraco.  "Não era muito forte a jogar de cabeça. O meu forte era a velocidade e o drible. Nestes dois aspectos, não era brincadeira (risos)!”Era difícil ser defendido pelos defesas adversários, mas, conta, havia um que lhe dava bastante trabalho: "No início, o Mané Vieira Dias deu-me muito trabalho. O nosso despique vinha desde os jogos de bairro, entre o  Popular e as Cês, e chegou até ao Girabola. Depois, estudei-o e o meu irmão Mané passou mal comigo (risos)! Mas nos damos bem, estamos sempre juntos e tudo ficou para a história”.
Futebol da actualidade 
"Naquela época havia jogadores de mais qualidade. Hoje, o futebol é mais táctico. Anteriormente, quando as pessoas iam ao campo, sabiam que iam ver um espectáculo. Lembro que uma vez me foi feito um passe pelo Gonçalves, na Cidadela, fiz uma recepção e toda a bancada se levantou para ver o que iria acontecer na sequência”.O antigo jogador da TAAG explica a preferência pelo número 9.  "Gostava de dois jogadores, no Girabola. Como ponta-de-lança, gostava do Alves. Inclusive, nos jogos de bairro, o meu número era sempe o 9”.  O facto de Alves ter sido jogador do arquirrival, em nada diminui a admiração que tinha por este. "Temos que ser honestos conosco mesmos. Quando o outro sabe, temos que o valorizar. Para mim, o Alves e o Ndunguidi eram jogadores fora de série. Na TAAG, gostava muito do Eduardo Machado, mas havia outros como o Sabino, Chido Dinis, jogadores de grande qualidade e que faziam a diferença. Lembro que o meu primeiro jogo no Girabola foi diante dos Construtores do Uíge e ganhámos por 2-1, nos Coqueiros. Marquei o golo de empate e fiz um cruzamento e o Chico Dinis apareceu no sítio certo para cabecear e facturar”.
Futebolistas de ontem e de hoje 
"O jogador de hoje tem qualidade, mas, às vezes, falta alguma responsabilidade. Gosto do futebol da actualidade, porque se troca mais a bola, se ganha mais dinheiro, mas lhes falta mais cobrança. Não aceito que um jogador chegue à linha de fundo e, ao invés de cruzar, trava a bola, finta, etc. Falta mais inteligência e responsabilidade. Quer fintar até onde!?”

João Carmo

Jornalista

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