Sociedade

Crianças recolhem garrafas de plástico para sobrevivência

Crianças e adolescentes, sem meios de protecção individual à Covid-19, dedicam-se diariamente à recolha de garrafas plásticas em contentores de lixo, na centralidade do Mussungue, Lunda-Norte, para vender às mulheres que se dedicam à comercialização de óleo de cozinha.

18/01/2021  Última atualização 09H18
Trabalho infantil, aumenta a cada dia que passa. © Fotografia por: Edições Novembro
Os adolescentes afirmam que os progenitores perderam o emprego por causa da pandemia da Covid-19 e a recolha de garrafas de plástico é uma forma de ajudar as famílias nas  despesas de casa. A situação é real, mas os nomes colocados nesta matéria são fictícios,  com a finalidade de se preservar a imagem dos miúdos face à protecção especial a que têm direito, em conformidade com a Constituição da República.

A Centralidade do Mussungue é considerada pelas autoridades o epicentro da pandemia da Covid-19. Da-dos oficiais  indicam que 90 por cento dos infectados são assintomáticos.

José Nelson, 12 anos, vive no bairro do Aeroporto, periferia da cidade. Revelou à nossa reportagem que até Maio do ano passado, a mãe trabalhava como empregada doméstica numa residência da centralidade do Mussungue, mas por causa das restrições no quadro das medidas de prevenção e combate à pandemia da Covid-19, os patrões mandaram-lhe, temporariamente, ficar em casa até que a situação epidemiológica do país melhore.

Segundo o garoto, a mãe, viúva, aguarda esperançosamente pelo retorno ao trabalho.  
"Duas garrafas plásticas de  um litro vendemos a 100 kwanzas, o mesmo preço que quatro garrafas pequenas. Um bidão  de cinco litros também vendemos a 100 kwanzas”,  explicou.  

Mas na centralidade do Mussungue, os garotos não se limitam à recolha de garrafas para a venda. Também solicitam aos moradores ajuda em alimentos. Além de recolher garrafas e bidões, batemos portas para pedir óleo, açúcar, arroz , frescos e roupa usada", contou José Nelson. Explicou que a irmã, de 16 anos, teve que interromper as aulas em consequência de duas gravidezes precoces  que resultaram em igual número de filhos.

A irmã de José Nelson fica em casa a cuidar dos dois filhos e a ajudar a mãe na venda de carvão vegetal.
O rapaz garante que está matriculado na escola 4 de Julho, no  bairro do Aeroporto, mas não se lembra da  classe em que estuda. Questionado se já ouviu falar da Covid-19,  José Nelson respondeu  afirmativamente, sublinhando que as pessoas devem proteger-se usando máscara facial e lavando constantemente as mãos.

Referiu, no entanto, que a mãe não tem possibilidade de adquirir máscara facial por falta de dinheiro, uma vez que os parcos recursos que a família consegue têm servido para  a compra de bens alimentares e vestuário. Fernando Mateus, 11 anos, reconheceu que não deve sair  de casa sem observar as medidas de biossegurança, sobretudo o uso da máscara facial.
"Na Televisão e na Rádio dizem sempre que não devemos sair de casa sem máscara”.
Fernando Mateus  vive no bairro Kamaquenzo-2 com o pai e a mãe. Além da recolha de garrafas na centralidade,  dedica-se também à venda ambulante de detergentes e sacos de plásticos.

"Quando termino o trabalho de recolha de garrafas, a minha mãe manda-me para a  zona comercial vender sacos pretos de plástico, detergente e sabão", referiu. Fernando Mateus disse que nunca esteve matriculado  numa escola,  situação que espera ser resolvida pelo pai no próximo ano. "Eu não estudo. O meu pai é pedreiro, mas neste momento está sem trabalho. Ele disse-me que não tem dinheiro para matricular-me,  por isso estou a trabalhar para ajudar em  casa", referiu. Fernando Mateus é o penúltimo filho de um casal com seis irmãos, cuja família conforme  contou  está a enfrentar muitas dificuldades.

Exploração do trabalho infantil

A chefe do Serviço Provincial do Instituto Nacional da Criança na  Lunda-Norte, Madalena Alentejo, disse que o trabalho infantil continua sendo um problema generalizado, apesar do maior compromisso do governo.
Referiu  que as autoridades locais esperavam que,  com a aplicação das medidas de restrição, a exploração infantil diminuísse. "Esperávamos que com a pandemia a exploração do trabalho infantil reduzisse, mas  está a acontecer o contrário. O número aumenta a cada dia" , lamentou.

Madalena Alentejo frisou que a recolha de lixo e venda ambulante deixam as crianças  demasiado expostas ao vírus SARS-CoV-2, pelo que solicitou as famílias a preocuparem-se mais com os pequenos.
A responsável  do INAC na província  sublinhou, por outro lado,  que muitas crianças vão parar à rua por acusações de práticas de feitiçaria,  fuga à pensão alimentar devido a separação dos progenitores e pobreza.

Madalena Alentejo declarou que no Instituto Nacional da Criança chegam  queixas contra  marginais que, aproveitando-se da fragilidade das crianças, usam-nas em acções delituosas, sobretudo assaltos em residências e estabelecimentos comerciais.
Armando Sapalo | Dundo 

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