Opinião

Crise no mercado de trabalho

Juliana Evangelista Ferraz |*

Segundo o recente relatório da Organização Internacional do Trabalho (OIT), em 2021, cerca de 75 milhões de empregos serão destruídos no mundo, devido à Pandemia da Covid-19, sendo que, em 2022, o número irá reduzir, com previsão de perda de cerca de 23 milhões de empregos.

08/06/2021  Última atualização 06H50
Falar de desenvolvimento económico e social no século XXI e dos desafios que as mulheres e jovens ainda enfrentam nas sociedades modernas e em desenvolvimento é compreender o alcance da Agenda 2030, proposta pela Organização das Nações Unidas (ONU) em 2015. Por outro lado, o 8º Objectivo de Desenvolvimento Sustentável (ODS) - economia inclusiva e sustentável e em-prego decente - defende a promoção e modernização do trabalho, protecção dos direitos dos trabalhadores e promoção de um ambiente de trabalho seguro. 

Existem no mundo cerca de 108 milhões de trabalhadores pobres que subsistem com menos de 3 dólares por dia. Portanto, é importante controlar os indicadores sociais de forma a mensurar a dimensão dos problemas vividos pelas mulheres e jovens, que, por dificuldades de integração e falta de oportunidades, por vezes, socorrem-se de pequenos ofícios fora do mercado de trabalho formal, trabalhos temporários pouco dignos e precários, com riscos à integridade física, para sustentarem os respectivos agregados familiares.

A reposição dos postos de trabalho está condicionada à recuperação da economia mundial, que tem sido afectada pelo ritmo moderado do processo de vacinação por parte de alguns países. Segundo a Agência de Notícias Francesa (AFP), o processo de vacinação contra a Covid-19 no mundo registou mais de dois mil milhões de doses, num total de 125 países abrangidos. Porém, o relatório da OIT reporta que, após a recuperação económica mundial, os novos postos de trabalho serão de menor qualidade, incluindo várias posições de trabalhos informais precários. 

De realçar que, nas últimas décadas, o número de postos de trabalho precários tem crescido no mundo, devido ao movimento da globalização. As empresas adoptaram mudanças radicais, para se ajustarem à nova realidade dinâmica e competitiva. Com a introdução de novas tecnologias e sistemas de informação que permitem a realização de operações de forma automatizada, tem sido dispensados em todo mundo um número elevado de trabalhadores, sobretudo não qualificados, que são absorvidos nos segmentos de trabalho informal ou precários, no qual estão expostos à situação de instabilidade e vulnerabilidade no emprego. 

É nesta ordem de ideias que cabe referir o sector de trabalho doméstico, desempenhado essencialmente por mulheres, no qual os trabalhadores estão sujeitos a trabalhos sem contrato e a um nível de precariedade elevado, contribui para expansão do sector informal no mundo. É importante referir que se incluem os serviços remunerados prestados a terceiros, exercido, predominantemente, em residências que englobam, para além das empregadas domésticas, uma gama de tarefas relacionadas, ligadas à cozinha, tratamento de roupa, limpeza residencial, serviços de amas, entre outros. 

Durante a pandemia, foram destruídos mais postos de trabalho femininos. Dados da OIT referem uma contracção de 5%, em comparação aos homens, em cerca de 3,9%. As estatísticas vêm reforçar a maior apetência das mulheres no mercado de trabalho informal, como por exemplo, a venda ambulante, que é uma actividade desenvolvida em muitos países africanos, e responsável por 90% das pessoas envolvidas no comércio informal, movimentando cerca de 60% da facturação da economia.Apesar da disseminação crescente de centros comerciais e infra-estruturas equivalentes dedicadas ao comércio, em todas as cidades é possível encontrar pessoas a comercializar uma enorme variedade de artigos, nas ruas e nos locais públicos, mesmo em espaços onde a actividade é supostamente interdita. Vejamos que as características específicas das actividades diferem muito, em função da região e aspectos culturais de cada país. Portanto, os desafios estão em todo lado e é importante injectar recursos para investir em saúde e outros sectores, medidas de apoio emergencial que visam conter o impacto negativo da pandemia e atenuar também os impactos económicos. 

Salvar os postos de trabalho passa também por olhar para alguns aspectos, como a formalização do trabalho, elevação do índice de alfabetização, direito à protecção social, contrato de trabalho, subsídios de férias e Natal. São, enfim, são alguns remédios a dar a este segmento de trabalhadores, muitas delas inseridas num contexto de vulnerabilidade social e pobreza extrema.Em muitas famílias monoparentais, são as mulheres que garantem grande parte do sustento familiar; são também as educadoras e mentoras de todo o saber. E olhar para os aspectos que as dignifiquem como cidadãs é imprescindível para se escalar os níveis desejáveis, para se garantir a educação, estabilidade e equilíbrio emocional de crianças e jovens para o bem das futuras gerações.
*Economista

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