Reportagem

“Da vida do campo nunca julguei passar”

Em ambiente de reverência, combinado com a observância das medidas de biossegurança, decorreu, domingo último, no pavilhão multiuso da Nossa Senhora do Monte, na cidade do Lubango, a Missa de Ordenação Episcopal de D. Joaquim Nyanganga Tyombe, nomeado pelo Papa Francisco para bispo do Uíge

14/03/2021  Última atualização 15H00
© Fotografia por: Arão Martins | Edições Novembro - Huíla
Estando tudo devidamente preparado, deu-se início à missa de ordenação. Um diácono levou a Bíblia que seria utilizada durante a missa; seguiram-se-lhe outros diáconos, os presbíteros celebrantes e os bispos ordenantes. Por fim, o bispo ordenante principal.

Ao chegarem ao altar, depois de fazerem gestos de reverência, todos se dirigem para os respectivos lugares. Entretanto, canta-se a antífona de entrada com o respectivo salmo. Os ritos iniciais e a liturgia da palavra até ao evangelho decorrem como de costume. Diz-se o símbolo dos apóstolos, segundo as rubricas; emite-se a Oração Universal. A unção da cabeça e a entrega do livro dos evangelhos e das insígnias, anunciaram então o início da missa de ordenação do novo bispo da Diocese do Uíge, o padre Joaquim Nyanganga Tyombe, do clero do Lubango, até então reitor do Seminário de Teologia Padre Leonardo Sikufinde.

"De um tempo a esta parte, tenho me apercebido, com mais clareza, que sou um permanente vocacionado e estou desafiado sempre a responder e a dar um sim a toda uma história que já não é só minha, percorrer toda uma geografia de espaço, de existência e de tempo, que, longe de me levar para lá, traz-me inevitavelmente para dentro de mim mesmo. Sou eu com um pouco de tudo e de todos”, afirmou D. Joaquim Nyanganga Tyombe.

O tempo e a história são uma escola, sublinhou o novo bispo, acrescentando que Deus é Pai, Jesus é um Mestre e a Igreja é a Mãe. "Caí na realidade da minha pequenez, no limite dos meus sonhos, na fronteira dos meus horizontes e o Espírito do Senhor é uma necessidade. Não saberia acolher os sinais do tempo, interpretar as novas propostas, revestir-me dos novos olhares, enxergar as veredas dos novos percursos no tempo, no espaço e no céu”, disse.

Destacou que já devia ter entendido o salmista quando cantou que "os fundamentos da terra pertencem ao Senhor, que sobre ela construiu o mundo dos homens. É o Senhor inesperado e surpreendente, que na sua omnisciência, na grandeza do seu poder e na universalidade da sua misericórdia, até do pó levanta o indigente e da miséria tira o pobre para fazê-lo sentar com os grandes e colocá-lo em lugar de honra”.

 
Filho de Tyombe Ndjai

"Eu era Nyanganga Tyombe, filho de Tyombe Ndjai. Meu pai não dava outros nomes. Eram apenas os da sua família e de seu mundo”, afirmou o agora bispo, frisando que era pastor, filho de pastor. "Sei o que é o cheiro do gado. Já me senti farejado por ele. Palmilhei as pastagens da minha terra. Conheço o ruminar dos bois. Também o seu mugir. Apanhei chuva e frio, dormi ao relento, conheço o cantar das aves nocturnas e as outras pelos seus nomes. Da vida do campo nunca julguei passar. Talvez mais ninguém julgasse. Mas existem olhos como aqueles de São Pedro e do seu companheiro”, disse.

D. Joaquim Nyanganga Tyombe agradeceu a Deus "por ser a célula que empodera a vontade, o espírito e o empenho na busca constante de condições que permitem ao indivíduo, às pessoas e aos grupos humanos levantarem-se e caminharem com dignidade e orgulho de serem feitos à imagem e semelhança  de Deus”.

"Aceito sim”, prosseguiu, "que revestido deste nome, eu possa pronunciar palavras, observar silêncios e fazer justos que contribuam para a santidade de vida, para dignidade humana, para a justiça, para a fraternidade universal em Jesus Cristo Nosso Senhor, para um olhar atento e comprometido para as mais alegrias e esperanças, tristezas e angústias dos homens e mulheres do nosso tempo”.

D. Joaquim Nyanganga Tyombe comprometeu-se a olhar atentamente, sobretudo, "aos débeis em perigo, àqueles como ovelhas sem pastor, os destratados, os que experimentam a marginalidade e desgraça, aos relegados às periferias geográficas, entre outros”.  

Menções e agradecimentos
D. Joaquim Nyanganga Tyombe manifestou filial obediência e sincera gratidão ao Papa Francisco pela escolha e por confiar-lhe a histórica Diocese do Uíge, detentora, como disse, de relevantes vultos de fé e históricas instituições de evangelização, terra de um povo nobre e rico de cultura, amante das suas memórias e tradições.
Salientou que, nos limites das suas forças, fará o seu ministério de bispo "com mestria dos navegantes e amor de pai”. 

O bispo do Uíge fez menção aos seus "irmãos mais velhos”, os cardeais, arcebispos e bispos da Conferência Episcopal de Angola e São Tomé (CEAST) e a D. Geonay Gaspari, núncio apostólico em Angola e São Tomé. "Agradeço do fundo do coração, por me terem feito sentir vosso irmão, com a vossa explosão de alegria e o caloroso acolhimento, expressos em apoteóticos gestos de ternura e festa. Sinto que em mim depositam confiança e esperança aos quais espero corresponder com a ajuda de Deus”, disse, para depois agradecer a um colega seu da 4ª Classe, no início dos anos 80, que lhe surpreendeu um dia, durante a aula, "com a ideia de Deus vivo e presente no meio de nós”. Essa notícia, segundo disse, foi o que o converteu ao cristianismo.

Dentre as várias as figuras que tiveram papel relevante no seu percurso de vida citou os nomes dos seus padrinhos Tiago Tyimbuli e Florinda Afonso, de Sua Eminência Alexandre Cardeal do Nascimento, que o admitiu no Seminário e que despertou em si "a beleza do mistério ordenado e a nobreza que lhe deve corresponder”, bem como o seu pároco e "eterno amigo”, o padre Eusébio Rafael Tyimbanda, do primeiro reitor do Seminário Menor Francisco Nangolo Tyimani, "de origem modesta”, um leigo comprometido do interior do município da Chibia, que "amou a igreja até a morte”.

"Que um dia a história te seja justa e o teu exemplo de leigo comprometido seja seguido”, augurou D. Nyanganga, informando que "dos que da casa de Francisco Tyimani passaram”, mais de 10 são padres e, destes, três são bispos.
O prelado agradeceu ao ex- governador provincial da Huíla, Luís Nunes, que empenhou todo o seu esforço e o do seu governo em prol da arquidiocese do Lubango, para que fossem possíveis "todos os meandros da missa de ordenação episcopal, com brio e brilho sem iguais”. 

Participaram da homilia de ordenação o núncio apostólico D. Jeovany Gaspary, o arcebispo de Luanda e presidente da Conferência Episcopal de Angola e São Tomé, D. Filomeno do Nascimento Vieira Dias, o ex-governador da Huíla, Luís Nunes, deputados à Assembleia Nacional, arcebispos, bispos e padres, religiosos de distintas congregações, representantes dos governadores das províncias do Uíge, Namibe, Cunene e Cuando Cubango, reitores dos seminários maiores,   autoridades militares, policiais, judiciais e tradicionais, entre outros.


Pregar a verdadeira palavraO arcebispo do Lubango e pastor ordenante, D. Gabriel Mbilingue, pediu ao novo bispo do Uíge, D. Joaquim Tyombe, a anunciar a verdadeira palavra e a não proferir discursos que desviam os fiéis. Assegurou que as principais tarefas do bispo são a oração e a proclamação da palavra.
Na igreja do Uíge a ele confiada, defendeu, que seja guardião e dispensador dos mistérios de Cristo colocado pelo pai à frente da sua família, seguindo sempre o exemplo do bom pastor que conhece as suas ovelhas.

D. Gabriel Mbilinge afirmou que o bispo tem que ter tempo para escutar os fiéis, porque só assim é que dará respostas acertadas às questões de fé que muitos deles colocam. "Há necessidade de uma proximidade em relação ao povo. O primeiro trabalho é estar próximo a Deus em oração.  É inegável estar próximo dos fiéis, ao povo de Deus, à família. Não se deve esquecer que o novo bispo foi escolhido no meio do rebanho”.

Como bispo, referiu, "é preciso amar com o amor de pai e de irmão todos aqueles que Deus te confia”. Antes de mais, prosseguiu D. Gabriel Mbilingue, "ama sacerdotes e diáconos, que são os teus colaboradores no ministério. Mas também ama os povos, os indefesos e todos aqueles que precisam de acolhimento e de ajuda”.

O arcebispo emérito do Lubango, D. Zacarias Kamwenho, disse que a missão do novo bispo continua na obediência. "Vocação é gratidão, são tribulações, é coragem e louvor”, referiu, lembrando que D. Joaquim Nyanganga Tyombe é o primeiro padre da etnia Nhaneka Humbi a ser chamado ao presbitério da Arquidiocese do Lubango.
"Obrigado por ter aceitado, porque muitos que receberam formação neste presbitério disseram não”, disse o arcebispo emérito.

Biografia 
O padre Joaquim Nyanganga Tyombe nasceu no dia  22 de Novembro de 1969, na localidade de Mambandi, município de Cacula, província da Huíla. É filho de Tyombe Ndjai e de Kwafukala, ambos já falecidos. Foi baptizado no Lukondo, aos 28 de Junho de 1981, crismado na Catedral do Lubango, aos 18 de Maio de 1986, e ordenado presbítero do clero secular do Lubango aos 24 de Novembro de 2001.

Frequentou o curso superior de Filosofia nos seminários maiores de Cristo Rei, na cidade do Huambo, e do Bom Pastor (3º ano),  em Benguela. Fez ainda o curso superior de Teologia no Seminário Maior St. John Vianney, de Pretória, África do Sul, filiado à Universidade Urbaniana de Roma. Em 2016 obteve o grau de mestre em Administração Escolar pelo Instituto Superior de Ciências do Trabalho e Emprego de Lisboa, Portugal.


Actividades pastorais
Joaquim Nhanganga Tyombe foi, dentre várias funções, pároco e superior da Missão Católica Nossa Senhora Rainha do Mundo, nos municípios da Bibala e do Camucuio,  director do Instituto de Ciências Religiosas de Angola (ICRA – Regional Lubango), vigário paroquial da Catedral do Lubango e membro do Secretariado da Pastoral Arquidiocesana do Lubango.
Foi ainda vigário cooperador da Paróquia dos Santos Reis Magos, vulgo Paróquia do Campo Grande, em Lisboa, Portugal, e reitor do Seminário Maior Padre Leonardo Sikufinde – Secção de Teologia, de Março de 2017 até à data da sua nomeação.

Arão Martins | Lubango

Jornalista

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