Reportagem

Viagem entre Malanje e Saurimo consome mais de 12 horas

O Jornal de Angola completou, quinta-feira, por via terrestre (Estrada Nacional 230), a ligação entre a cidade de Malanje, capital da província homónima, e Saurimo, capital da Lunda-Sul. O percurso, que totaliza 630 quilómetros, consumiu cerca de 12 horas.

18/10/2020  Última atualização 20H16
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Mais ou menos 90 por cento das viaturas na estrada eram camiões pesados que transportavam combustível. Os restantes 10 por cento dividiam-se entre o transporte de mercadorias contentorizadas e alguns (poucos) jipes de tracção total. As viaturas ligeiras quase não têm como avançar nos troços mais difíceis, sobretudo durante a época chuvosa.

As limitações para sair e entrar da província de Luanda, devido à Covid-19, diminuem certamente o tráfego automóvel em todo o país. Mesmo assim, as 12 horas de viagem para 630 quilómetros de distância, entre as 5 e as 17 horas, representam uma (baixíssima) média de 52,5 quilómetros por hora. É a velocidade de uma motorizada de baixa potência.

A EN 230 passa pela cidade de Malanje, atravessa parte da província da Lunda Norte para depois entrar na Lunda- Sul.

Se entre a cidade de Malanje e a ponte do Rio Lui (pouco mais de 120 quilómetros) é possível andar razoavelmente, apesar dos percalços, os mais de 60 quilómetros - percorridos em três horas - até à sede do município de Xá-Muteba, província da Lunda-Norte, são um autêntico martírio de lama, buracos e desvios bruscos.

Quem sofre de problemas de coluna deve evitar as viagens de carro naquele trajecto. A determinada altura, vários camiões bastante pesados encalharam numa zona de lama escorregadia e pegajosa, resultado da falta de condições de trânsito e das chuvas constantes que ali vão caindo.

Foram mais de 30 minutos de espera até haver condições para seguir viagem. Só mesmo a necessidade de um salário leva os heróicos camionistas àquela região.

À saída de Xá-Muteba já são visíveis os trabalhos de recuperação da estrada. Mas, é uma alegria efémera, por enquanto.

Muxinda, terra sem lei

Entre a sede do município de Xá-Muteba e a localidade de Muxinda, município de Capenda-Camulemba, província da Lunda-Norte, a viagem faz-se com algumas dificuldades.

Mas à entrada de Muxinda está um controlo policial que não deixa adivinhar o que se segue. É praticamente impossível atravessar a pequena vila numa velocidade superior a 20 quilómetros por hora.

Nem é isso que mais impressiona quem ali passa pela primeira vez. Qualquer olhar atento percebe logo que é uma zona de actividade mineira onde parece não existir autoridade. As montanhas de lixo da altura de uma pessoa normal acumulam-se ao lado da picada. E das muitas pessoas que ali vivem e trabalham cara-a-cara com a sujeira.

As lojas comerciais precárias (cantinas, barbearias, restaurantes de mau aspecto, entre outras) são às dezenas e basta olhar para a esquerda e para a direita para apreciar os montes de cascalho, resultado da actividade diamantífera manual, que se acumulam a pouco mais de 100 metros das viaturas que vão passando aos saltos.

Ultrapassado o desgosto, continuamos na mesma senda: 20 quilómetros por hora de velocidade para um sem-número de solavancos e barrancos até à sede do município de Capenda-Camulemba. Muxinda está a 350 quilómetros de Saurimo.

Até à comuna de Xinge, ainda no mesmo município, somos brindados com uma chuva intransitável, de tão forte, e por buracos de todo o tipo e cara-feia, mais o asfalto cortado aos pedaços. Nestas condições não é possível contemplar as bonitas planícies e montanhas e pessoas que vivem ao longo do trajecto.
De Xinge até ao destino final são mais três horas de percurso, agora em melhores condições.

Nos últimos dias de Agosto, o ministro das Obras Públicas e Ordenamento do Território, Manuel Tavares de Almeida, consignou cinco lotes (6,7,8,9 e 10) de 328,7 quilómetros do projecto de reabilitação e ampliação da EN 230.

Com a assinatura dos contratos, ficam cobertos os 10 lotes da ligação entre Malanje e Saurimo. As obras enquadram-se no Programa Estratégico para a melhoria do sistema de transportes no país. Ainda faltam 18 meses – duração prevista das obras – para o fim do martírio.

Miguel Gomes

Jornalista

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