Reportagem

Devastação florestal altera clima e deixa Ndalatando mais quente

Três quilómetros, a partir da Paróquia de São João Baptista em direcção Sul de Ndalatando, Cuanza-Norte, localiza-se o Centro Botânico do Quilombo. Trata-se de uma zona potencialmente turística, berço de uma das 11 estações experimentais agrárias do país, local de produção agrícola e “pulmão” da cidade.

19/11/2020  Última atualização 09H18
© Fotografia por: DR
No Quilombo a temperatura ronda entre 17 e 20 graus em tempo de calor. A floresta, constituída por árvores frondosas de várias espécies, provoca uma escuridão precoce.  
O silêncio, o verde de di-versas plantas e ruas cobertas pelos ramos de árvores  que as atravessam, tornam-no num lugar aprazível. As ruas,  asfaltadas e de terra batida têm vários destinos, dentre os quais a ponte chinesa, erguida para se chegar a uma das raras ilhas do Muembeje. 

São valências que incentivam a preferência para se organizar no local almoços, lances, piqueniques e visitas diárias de numerosas pessoas de diferentes extractos sociais, individuais ou em caravana provenientes de vários pontos da província e não só.
"Local lindo e agradável. Pode atrair pessoas de várias origens”, comentaram  várias figuras que integravam uma comitiva do então ministro da Comunicação Social, Nuno Carnaval, que esteve no local para a gala do Prémio Provincial de Jornalismo do Cuanza-Norte, em Fevereiro.

É consensual que a beleza do Quilombo reside no seu desenho horto-botânico, fruto da acção do homem em sincronia com a natureza. Para a valorização turística da zona apontam-se várias medidas. O barista Julito Santos sugere que o ponto de partida é a recomposição do horto, porque as pessoas vão para aquele centro conhecer plantas raras.
" É preciso atrair investidores para criação de  áreas de lazer como piscinas e quiosques, onde se pode consumir bebidas naturais e pratos da terra. Além isso, é preciso entender redes de telecomunicações, água, luz e loja para venda de flores, plantas e se possível construir-se construir hotel”, acrescentou. 

 Quilombo precisaria também de recrutar tradutores, equipas para melhorar o sa-neamento e apresentar a flora aos turistas. Existem também as pessoas que defendem a necessidade de sair do tu-rismo espontâneo ou de livre iniciativa pessoal para um processo de pendor empresarial, em que o Estado assume a segurança policial, regula e supervisiona o exercício da actividade.   
Mas a beleza do Quilombo começa a ser afectada pela acção humana. A devastação da floresta devido ao aumento crescente de lavras é hoje uma grande preocupação. Centenas de famílias camponeses desmatam, lavouram e semeiam milho, feijão, mandioca e ginguba, plantas de baixa altura que não exercem o mesmo papel como as árvores frondosas.

Maria Cassequele cultiva próximo da residência "presidencial”. Disse que já foi advertida por técnicos da Es-tação Experimental, mas insiste por considerar que o local possui bons solos e fica próximo de casa. A situação é semelhante a de Luísa António, que trabalha nas imediações do horto-botânico. "Por causa das advertências dos senhores da Estação só produzimos culturas de curta duração”, disse.
A devastação é interpretada por técnicos agrários em perspectivas diferentes. O engenheiro agrónomo José Augusto Martins defende que o abate massivo de árvores no Quilombo e regiões próximas, como o morro do Binda facilita a entrada de ar quente para Ndalatando.

"No passado o ar quente proveniente de Cambambe era arrefecido na floresta do Quilombo e Binda, criando ali um microclima com temperaturas entre 20 e 25 graus e daí partia o ar frio para a cidade de Ndalatando”, disse. A isso, José Augusto associa às queimadas anárquicas e o corte de paus para fabrico de madeira.
Um outro agrónomo que pediu para não ser identificado, entende que os populares podem continuar a trabalhar, mas devem ser inseridos como mão de obras nas experimentações. " O camponês ganharia know-how, produtividade e a Estação, o resultado da produção e a mão-de-obra”.

A dura realidade é que o microclima do Quilombo está a alterar e Ndalatando é cada vez mais quente nos últimos 15 anos. Para o equilíbrio ambiental, o chefe interino da Estação Experimental anuncia o repovoamento das áreas descobertas com árvores de variedade limba, eucaliptos e palmar, esta que já tem 300 plantas germinadas e com projecto de produção de 100 mil exemplares, quantidade que pode servir para abastecer toda a província.
     Para sucesso das variadas actividades em carteira Célsio Luamba quer mais dois licenciados, 15 operários e sobretudo guardas. " Assaltaram-nos os arames de vedação, vandalizaram as residências e o equipamento de rega”. Revelou.

Quilombo, se chamava entre 1961 e 1975 Jardim Botânico de Salazar (Salazar agora e Ndalatando), a sobrevivência do local depende de três grandes desafios designadamente, o funcionamento dos laboratórios, reconstituição do horto e a reposição da flora abatida. A vocação original do Quilombo é a investigação agronómica.  
Tudo começou em 1907 com estudos das abundantes seringueiras, a data producto de enorme procura no mercado mundial. O Centro tinha duas áreas de estudos designadamente, o horto-botânico, bem como a de café e palmar.

A partir de 1952 incorporou-se no objecto social da Estação o ensino da agricultura. " O acesso era reservado, os alunos das Escola Comercial e Industrial e os da Óscar Carmona, em Ndalatando, tinham aulas sobre física prática no local, fazia-se ensaios e experimentações desde os anos 50”, disse o ex-estudante, José Manuel Ricardo.
Por volta do ano 1983 Quilombo chegou a ter mais de mil tipos de plantas nativas e oriundas de diversos pontos do mundo. Com início da guerra, na década de 80, começa a degradação do jardim botânico e se agrava em 1992 com as escaramuças pós-eleitorais.

 Pararam os estudos científicos, vandalizaram-se infra-estruturas, bibliografia e começaram a desaparecer várias espécies como as emblemáticas cocaína e penicilina. O responsável interino do Quilombo, engenheiro Célsio Gaspar Luamba, reconhece a necessidade de se efectuar novo levantamento para identificar o que realmente existe em termos de plantas. Afirma que isto requer financiamento para aquisição de meios, como placas de identificação, máquinas fotográficas, internet e pessoal. 

Entre Março de 2013 e Dezembro de 2014 realizam-se obras de construção civil, tendo sido adquiridos alguns equipamentos. Foi o primeiro investimento do género no período pós-independência. O edifício sede da Estação foi reabilitado e os laboratórios de análise de plantas, fitopatologias, botânica, herbário e a estação meteorológica foram equipados, incluindo o refeitório, cozinha, salas de serviços administrativos, reuniões, auditório.

Outras realizações foram a montagem da unidade de refrigeração e conservação de produtos agrícolas, de classificação e embalagem, aquisição de gerador, duas máquinas agrícolas (das quais uma já avariada) e edificação da respectiva área de parqueamento, sistema de captação, transporte e tratamento de água a partir do rio Muembeje.

A executora da empreitada, Agricultiva-Lda, descreve no projecto da obra que o Jornal de Angola teve acesso, que o investimento visa ampliar e manter as colecções de variedades de mandioca e multiplicar o material genético selecionado.  Priorizava-se, igualmente, a batata-doce, amendoim, banana e citrinos e a implantação de variedades de plantas ornamentais como a rosa de porcelana, bromeliáceas e produção de mudas seleccionadas de frutíferas.Seis anos depois os laboratórios e demais áreas técnicasnão funcionam por falta de corrente eléctrica da rede pública.  

O responsável interino da Estação descarta o uso dos motores geradores por falta de dinheiro para a compra  de combustíveis e assegurar a manutenção.
Falta de energia impossibilita, igualmente, o funcionamento do sistema de água que abasteceria os laboratórios e a irrigação dos campos. No passado resolvia-se a questão das regas por via do rio Muembeje, que cruza a paisagem densa. Através de um canal com cerca de um quilómetro, a água corria em gravidade até ao horto, e no meio do trajecto abastecia dois tanques piscícolas, actualmente inoperantes.  Por causa da inactividade, o engenheiro Célsio Luamba admite degradação de algum equipamento nos laboratórios, caducidade de medicamentos que podem ter custado mais de 100 mil dólares. A solução definitiva dos laboratórios passa pela construção de uma linha de transporte de energia de média tensão subterrânea, com cerca de cinco quilómetros, a partir da vizinha Escola Superior Pedagógica do Cuanza-Norte, segundo técnicos na matéria.  

Trabalhos em curso na Estação Experimental 

Desde Janeiro decorrem na Estação do Quilombo, órgão do Instituto Angolano de Investigação Agronómica (IIA), experimentações de raízes e tubérculos, com destaque para uma variedade de mandioca que acontece num espaço de meio hectare para ensaios de adaptação.

 A multiplicação inicia nos próximos dias num hectare com objectivo de estudar a capacidade de suporte da mandioqueira às característica climáticas da região, resistência a doença virose e o rendimento por hectare.
Segundo o engenheiro florestal Célsio Luamba, a variedade da mandioqueira em causa apresenta certas vantagens, comparada com a nativa, porque tem crescimento precoce, é doce e resiste à estiagem.  Celso Luamba revela que a produtividade da mandioca em Angola varia entre 14 e 20 toneladas por hectare e as variedades amargas mais cultivadas são a precoce de Angola (mais conhecida por calawenda), jaca, dixobi e ngana rico. Mandioca amarga é a utilizada para fazer bombó e, por conseguinte, fuba.

O engenheiro aponta como doces a mundele paco e chumbanda, que se degusta fervida, assada e crua, en-quanto hoto, cassacala, mudiholome, jaca, quinhento, manuele e camundondo são tipos dados como desaparecidos.  
Na província do Cuanza-Norte e não só, vastas extensões de mandiocal estão afectadas de virose, praga que provoca apodrecimento da mandioca antes da maturação. Para o engenheiro Célsio, a solução passa pela formação do pessoal e aquisição de fitofármacos.
Ao nível da batata-doce estão em ensaios desde Fevereiro transacto 27 variedades e utilizadas como banco de germoplasmas. Espera-se por resultados já este mês, apesar de no primeiro semestre algumas batateiras terem produzido.   

Fruteiras e plantas ornamentais 

Entre as plantas ornamentais, a rosa de porcelana e bambu são as de maior visibilidade, por terem cultivo orientado. Quilombo tem dois hectares de rosa de porcelana e um e meio de bambu. Os talhões de porcelana clamam por limpeza mais eficiente e rega em tempo seco.
Apesar de quantidades reduzidas, vende-se regularmente a flor-rosa de porcelana, muito utilizada para decorações diversas. " A rosa é a mais solicitada e gera receitas para suportar algumas das despesas correntes”, disse o chefe em exercício da Estação.

 Para muitos, a rosa de porcelana substitui o café como  símbolo da cidade de Ndalatando, por isso, atribui-se o nome à única equipa de futebol da cidade de Ndalatando que já disputou o Girabola, a hotéis, pessoas e instituições.
Nas bermas do rio Muembeje, principalmente, existem bambus introduzidos como filtro biológico, protector da erosão dos solos e em última instância para melhorar a beleza. Há também filas de jaqueiras, fruta-rosa, palmeiras e sobretudo sapota, a árvore que produz a principal matéria-prima para fabrico de pastilhas alimentares.

Café e  palmar 

A cerca de 500 metros antes da entrada do horto-botânico situa-se uma área onde entre 1988 e 1990 se desencadearam ensaios de multiplicação vegetativa (por estaca) de café robusta e arábica com plantas oriundas das Repúblicas do Togo e da Costa do Marfim.
Quem orientou o processo foi o técnico agrário Félix Mateus, que antes foi enviado à República da Costa do Marfim para receber formação específica em fazendas locais. Félix Mateus sublinha que a multiplicação resultou na produção de mais de 10 mil plantas que apresentavam bons indicadores de rendimento e aceitável tamanho do grão.

Disse que chegaram a colher 19 toneladas, mas a falta de interesse dos produtores desencorajou a continuidade do projecto. O ca-
fezal  continua de pé, mas a clamar por mais limpeza e outros cuidados.
No mesmo período, Quilombo serviu também para fazer mudas de palmar com coconote pré-germinado importado, resultante de cruzamento entre variedades nativas e das Repúblicas da Tailândia e Singapura. " Mandamos para diversos pontos do país palmeiras mais vantajosas, de menor altura em relação as locais, maior rendimento e que começam a produzir a partir do terceiro ano”, disse Félix Mateus.  

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