Entrevista

Do Cazenga para estudante de mérito nos EUA

Aos 27 anos de idade, Pedro Domingos Paposseco Manuel é já, para muitos, uma referência da ciência em Angola. Com um percurso académico de invejar, no seu currículo constam distinções de realce. Recentemente recebeu a distinção máxima, 4.0 Grade Point Average, equivalente a 20 valores no sistema educativo angolano, nos cursos de mestrado em Administração Pública e pós-graduação em Desenvolvimento de Recursos Humanos e Diversidade da Força de Trabalho na Universidade de Oklahoma, nos EUA. Com foco e determinação, superou todos os momentos delicados pelo quais passou e reergueu-se ainda mais forte. Em conversa com o caderno Fim-de-Semana, o jovem fala ao pormenor sobre a sua caminhada académica no exterior do país, sobretudo nos Estados Unidos, bem como sobre os seus desafios pessoais.

06/06/2021  Última atualização 06H55
Pedro Domingos Paposseco Manuel © Fotografia por: Cedida
Pode contar-nos, em breves palavras, como e quando começou e se desenvolveu o seu interesse pela ciência/pesquisa? E a sua vontade de ser académico?
Sou nato do Cazenga. Como tal, as minhas origens sociais e económicas motivaram o meu interesse  pela ciência e o comprometimento académico, pois os meus pais sempre me ensinaram que a educação era o instrumento mais viável para eu mudar a minha condição social e o da minha família. Ademais, as dinâmicas sociais do nosso musseque e o bom acompanhamento familiar que tenho tido, desde muito cedo, ajudaram-me a formar uma consciência social muito apurada. Os diversos desafios enfrentados tanto pela população da minha comunidade como pelos agentes da Administração Pública, despertaram a minha atenção ao serviço público e à educação. Como cidadão, senti, desde muito cedo, a responsabilidade de contribuir para a transformação e desenvolvimento sustentável da minha comunidade. Por serem áreas de bastante influência no desenvolvimento humano e económico das comunidades, decidi dedicar-me à Ciência da Administração Pública e Relações Internacionais, pois sabia que me revestiria com conhecimento e ferramentas necessárias para eu desenvolver as minhas habilidades de liderança e actuação na administração pública angolana e as Relações Internacionais elevariam a minha experiência académica, permitindo-me contribuir para a criação de políticas públicas eficazes e sustentáveis para o desenvolvimento humano e económico local e internacional. Outrossim, sabia que tais áreas do saber ajudariam a desenvolver as minhas capacidades académicas e profissionais, a fim de ajudar Angola através de pesquisas científicas, ensino e interacção com cidadãos e legisladores em Angola.
 
Os Estados Unidos são muitas vezes criticados pelas suas políticas, mas uma coisa é certa: têm as melhores universidades do mundo. Oito no top 10. Que importância teve este poderio educacional para a sua opção pela América?
O grande desenvolvimento do ensino superior americano foi bastante motivador para mim, pois deixou claro, desde o princípio, que se eu fosse dedicado à academia e apresentasse um aproveitamento escolar excelente, poderia ser valorizado e, consequentemente, obter um espaço para continuar a desenvolver as minhas habilidades académicas e profissionais apesar de o processo ser bastante desafiador, por causa dos diversos problemas de origem racial, social, económica, política e cultural, que, como estudante negro, pobre e africano, tenho enfrentado neste país.  

"Sou filho do Curtume”

A sua entrada para os Estados Unidos foi por conta de alguém próximo ou foi um desafio pessoal?

Eu sou filho do bairro Curtume, um musseque localizado no Cazenga, e os meus pais são cidadãos humildes. No Curtume, os filhos não se desenvolvem por si só. A comunidade tem um papel crucial no desenvolvimento da pessoa, ou seja, como o Paulo Freire sugeriu "desenvolvemos todos em comunhão e mediados pelo mundo”. Sobre a minha vinda aos EUA, os meus professores e mentores dizem que vim cá parar por eu ter demonstrado excelência académica e grande aspiração para a liderança de grupos e comprometimento com o desenvolvimento sustentável global.  O Dr. Fábio de Sá e Silva, um académico brasileiro, meu professor e meu mentor, costuma apresentar-me como um estudante com "habilidades, conhecimento e atitude distinguíveis que (me) tornam um excelente estudante”. Em termos profissionais, ele diz que sou "um verdadeiro líder” e "cidadão global”. Parece que essas qualidades estão na base das oportunidades de escolarização que venho tendo durante esse tempo todo. Importa, porém, deixar claro que nenhuma pessoa próxima facilitou a minha transição de Angola para a Noruega ou da Noruega para os EUA. Todos os apoios financeiros e académicos que venho tendo, até hoje, são de pessoas distantes de mim com quem tenho uma relação meramente académica e profissional.
 
O que o atraiu, na qualidade de estudante angolano, para ir aos Estados Unidos?

Como aludi, fui atraído pelo alto nível de desenvolvimento do ensino superior americano, oportunidades de crescimento académico, liberdade de expressão académica e financiamentos de iniciativas académicas e profissionais.
 
Muitos estudantes africanos, particularmente angolanos, são vistos como fracos do ponto de vista académico e sem capacidade para conquistar lugares de destaque na Europa e nos Estados Unidos. Chegou a notar isso em Oklahoma?

Sem prejuízo à vossa avaliação e constatação, felizmente, não posso concordar com a vossa afirmação. Tendo em conta a minha experiência em diversos países europeus e, agora, nos EUA, entendo que estudantes africanos têm, normalmente, um lugar de bastante destaque académico nas universidades onde estudam. Todavia, como estudantes de qualquer outra parte do mundo, incluindo americanos e europeus, alguns estudantes africanos encontram algumas dificuldades académicas próprias da jornada. Portanto, recuso, firmemente, a tese de que os africanos, e angolanos, especificamente, são fracos. Falando da minha experiência em Oklahoma e dos angolanos que conheci aqui, posso dizer, sem equívoco, que os meus contemporâneos são muito inteligentes. Os angolanos, incluindo bolseiros da Sonangol que fizeram a licenciatura na Universidade de Oklahoma durante o meu tempo, foram sempre destacados, independentemente das dificuldades. Pelo seu bom aproveitamento académico, muitos graduaram-se com notas de distinção nos cursos de Engenharia de Petróleo, Geologia e Engenharia Química e, posteriormente, voltaram para Angola, a fim de ajudarem o país a desenvolver-se. Infelizmente, alguns deles encontram-se desempregados em Angola, por motivos diversos.
 
Quais são as principais competências que você considera ter desenvolvido ao longo dos anos como estudante nos Estados Unidos?

Da Noruega para os EUA consegui aperfeiçoar as minhas competências de liderança de grupos heterogêneos; tornei-me culturalmente mais competente, sensível e consciente; desenvolvi as minhas habilidades de comunicação intercultural e inclusiva em Português, Inglês e Espanhol. Academicamente, fui capaz de desenvolver as minhas habilidades de pesquisa e análise de dados estatísticos, bem como as minhas competências de escrita académica e profissional. Com isso, quero dizer que sou um cidadão global mais consciente, proactivo, responsável, culturalmente mais fluente e preparado para me engajar na resolução de dilemas locais e internacionais.
 
Segredo para o mestrado com 20 valores
Na sua visão, quais foram os factores mais importantes que contribuíram para a sua afirmação e distinção no curso de Mestrado em Administração Pública, pela Universidade de Oklahoma, obtendo a classificação máxima de 20 valores?
Para a obtenção de todas as distinções, incluindo o 4.0 GPA, ou seja, média de 20 valores agora no mestrado e pós-graduação, o segredo tem sido focar-me rigorosamente nos meus objectivos académicos e lembrar-me sempre das minhas origens humildes, concretamente, o bairro Curtume no município do Cazenga. Estou consciente de que as oportunidades de formação académica e crescimento profissional que tenho tido não são vãs. É Deus a confiar-me uma missão muito importante, para eu representar o Cazenga e todo o povo angolano com dignidade, responsabilidade e criar oportunidades, para que outros jovens angolanos possam realizar os seus sonhos assim como eu tenho vindo a realizar os meus. Vindo do Cazenga, conheço a dor da ferida, da humilhação e discriminação. Luto, portanto, para que as gerações futuras dos musseques de Angola não passem por toda a humilhação que nós passámos na nossa infância e adolescência. Ouço as músicas de Rei Loy, o Pai do Lamento, e outros cantores mussecados, para não me esquecer das necessidades do povo e poder alinhar-me de forma adequada.  
 
Chegou a conhecer muitos angolanos na Universidade de Oklahoma? Qual tem sido a vossa relação?
Cheguei a conhecer mais de 40 estudantes angolanos na Universidade de Oklahoma e sempre procuramos manter uma relação saudável e de inter-ajuda.
 
O que hoje os americanos sabem mais sobre Angola, desde a sua distinção?
A minha distinção é consequência de uma jornada muito longa e desafiadora. Embora eu tenha sido destacado com uma média final de 4.0 GPA (20 valores, em Angola), importa dizer que, antes disso, os angolanos já promoviam Angola na Universidade de Oklahoma e em outras partes dos EUA. Em 2015, com alguns compatriotas, criamos a Associação de Estudantes Angolanos na Universidade de Oklahoma, que cheguei a presidir em 2017. Através desta associação, conseguimos apoio institucional por parte da Universidade de Oklahoma, para desenvolvermos um conjunto de actividades recreativas, debates sobre temas ligados ao desenvolvimento humano e económico angolanos e outros ligados à cultura e história angolana, a fim de educarmos, promovermos a cultura angolana nos EUA e elevar o nome de Angola neste país. A repercussão da minha distinção foi mais sentida dentro do Departamento de Ciências Políticas e da Faculdade de Artes e Ciências, pois as notas são confidenciais e, por isso, um número reduzido de professores tem acesso às mesmas. Pela nossa boa representação na academia e em eventos culturais, posso garantir que os nossos colegas americanos e outros têm uma memória de Angola muito positiva da qual não se vão esquecer tão cedo.
 
Os melhores estudantes africanos são muitas vezes aliciados por multinacionais e acabam por não voltar aos seus países de origem. Será este o seu pensamento? Quais são as propostas que tem recebido de empresas americanas?
Após terminar o mestrado e a pós-graduação em Maio de 2021, tive algumas oportunidades de emprego e uma para ingressar no programa de doutoramento em Ciências Políticas na Universidade de Oklahoma. Tendo ouvido os meus mentores, decidi aceitar a oferta para completar o doutoramento e declinei a oferta de emprego. Tendo em conta o meu amor e interesse pelas relações internacionais, experiência académica e de intercâmbio cultural acumuladas em Angola, Noruega, Estados Unidos, assim como no Brasil, Holanda, França, Polônia, Dinamarca, Alemanha e Bélgica, tenciono fazer parte da diplomacia angolana como quadro destacado em países ocidentais ou instituições internacionais como a ONU e continentais como a União Africana e outras, a fim de facilitar a interacção entre Angola e os diversos actores internacionais.  Por isso, desejo, quando for oportuno e necessário, contribuir activamente para o desenvolvimento humano e social nas comunidades angolanas.
 
Tem algum contrato ou pretensão de trabalhar em Angola?
Não tenho nenhum contrato. Gostaria de trabalhar em Angola quando for oportuno e necessário. Como disse anteriormente, gostava de ser integrante da diplomacia angolana e representar Angola internacionalmente.

Do seu currículo constam várias consultorias em instituições angolanas. Qual delas lhe garante maior fiabilidade de contrato?
Não tenho nenhuma promessa ou contrato de trabalho com nenhuma empresa neste momento, mas gostaria de ter oportunidades de engajamento profissional, pois sinto a necessidade de ganhar alguma experiência fora da academia e usar a minha experiência e conhecimento acumulado até hoje para o desenvolvimento de Angola e não só.
 
Meritocracia nos EUA
Quando pensamos nos Estados Unidos, especialmente no sistema educativo americano, pensamos no conceito de meritocracia. Essa ideia é real?

Esta é uma ideia relativa. Assim como em toda a parte do mundo, nos Estados Unidos, há pessoas que conseguem alcançar os seus sonhos e realização académica com mérito. Todavia, a distribuição desigual dos recursos às pessoas, nas comunidades americanas, divide as pessoas em privilegiadas e discriminadas, dando a alguns mais recursos e possibilidade de conseguirem alcançar os seus sonhos do que os outros. Sendo assim, a escassez de recursos e possibilidades, em certas comunidades dos EUA, limita o desenvolvimento académico de certos americanos e não só. Por exemplo, depois de eu terminar a licenciatura em 2019, decidi completar o mestrado também, pois sentia a necessidade de aperfeiçoar os meus conhecimentos e tornar-me num verdadeiro perito em questões de Políticas Internacionais, Administração Pública e Governo. Para isso, concorri e fui admitido em universidades dos meus sonhos e algumas das melhores para os programas que eu tencionava frequentar, incluindo a New York University, a American University e a George Washington University em Washington DC, para estudar Relações Internacionais ou Administração Pública. No entanto, por motivos financeiros, não pude frequentar nenhuma dessas universidades. Foi triste e desanimador. Eu senti-me como se estivesse sendo impedido de realizar os meus sonhos. Pior ainda, senti-me discriminado. Todavia, na altura, tive a sorte de já ter sido dada uma oportunidade académica adequada às minhas necessidades económicas para frequentar o mestrado em Administração Pública na Universidade de Oklahoma. Diferente de mim, os meus colegas mais ricos ou com melhores financiamentos, puderam ingressar nas universidades dos seus sonhos. No final, por terem a possibilidade de estudar em universidades mais conceituadas e mais caras, parece que são mais inteligentes que nós que frequentamos universidades mais humildes por razões financeiras. Isso serve para dizer que a diferença, muitas vezes, está no poder económico dos estudantes e não na sua capacidade intelectual. Contudo, isso não quer dizer que pessoas ricas não sejam academicamente capazes de serem admitidas em universidades conceituadas por mérito.
 
Actualmente está no primeiro ano do seu doutoramento. Chegou a pensar em algum projecto ou caminho profissional para depois do doutoramento?

Sou co-fundador e presidente do projecto Leading Africa Forum-Angola, uma rede de líderes angolanos com vista a promover o engajamento juvenil na resolução de questões comunitárias através do diálogo sobre temas ligados aos programas da Agenda 2063 da União Africana. Como cidadão angolano, pretendo desenvolver este projecto a fim de o mesmo contribuir para o desenvolvimento local em Angola e integração continental. Como profissional, pretendo, um dia, tornar-me embaixador de Angola em um dos países escandinavos, Noruega preferivelmente, ou outros países ocidentais, incluindo os EUA, pois têm a cultura diplomática que melhor conheço.
 
Convidamo-lo a deixar umas dicas para os nossos leitores que estão a realizar trabalhos de iniciação científica na área de Materiais, respondendo à pergunta "Como desenvolver um trabalho de destaque nacional?”.
Reconhecendo a abrangência da pergunta. Sem prejuízo a nenhuma resposta alternativa ou complementar, a minha dica estaria focada na legitimidade, validade e aplicabilidade da iniciativa científica. Com isso, aconselho aos investigadores angolanos que baseiem as suas iniciativas académicas em dados estatísticos propriamente colectados em Angola para a resolução dos diversos problemas que assolam a sociedade angolana.

PERFIL
Nome:
 Pedro Domingos Paposseco Manuel
Data de nascimento:
17 de Setembro de 1994
Naturalidade:  Cazenga - Luanda

Filiação:
Joana Paposseco e Domingos Manuel

Estado civil: Solteiro
Filhos:
Nenhum
Marca de perfume:
Não tenho nenhuma preferida
Marca de roupa: Não tenho nenhuma preferida
Marca de sapatos:
Não tenho nenhuma preferida
Cor predilecta: Não tenho nenhuma preferida
Defeito:
Não sei
Prato preferido: Não tenho nenhum preferido
Passatempo: Assistir a documentários de estratégia política e inteligência militar, sobre dilemas internacionais diversos e assistir a noticiários
Local para férias: Cazenga, Luanda
Cidade predilecta: Washington DC
Tem casa própria:
Não
Tem carro próprio:
Não
Sente-se realizado:
Ainda não

Sonhos:
Melhorar a qualidade de vida dos meus pais, a fim de os mesmos desfrutarem de uma velhice mais pacífica e feliz. Além das minhas ambições académicas e profissionais, como cidadão angolano, também tenho o sonho de desenvolver programas sociais que possam contribuir para o florescimento humano nas comunidades mais humildes de Angola e não só. Isso inclui a criação de espaços de instrução formal e iniciativas de negócio para o desenvolvimento local

Ferraz Neto

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