Opinião

Do Far ao Leste

A minha geração começou a ver cinema com as míticas figuras dos vaqueiros invasores, os chamados cowboys, que, com armas de fogo, perseguiam e matavam os índios, cujo crime era existirem na terra que era deles e defenderem-se com arcos e flechas contra o invasor que o matava para lhe tirar o escalpes ou a orelha, lição que mais tarde o colonialismo português passou para cá na guerra colonial.

14/01/2021  Última atualização 09H15
A América, deve ser entendida como um todo de coisas muito boas e coisas muito más. Estou a lembrar-me dos emigrantes que viajavam na terceira classe do Titanic em busca da forma de viver americana e do sonho americano. Porque valia a pena enriquecer num ápice. O explodir das grandes cidades, a construção civil, os automóveis, os aviões, a nacionalidade rápida, em suma, um paraíso que sairia reforçado depois da 2ª Guerra Mundial. Paraíso para brancos e inferno para negros mesmo para os que haviam sido recrutados para combater contra Hitler.
Enquanto o Sul prosperava através do trabalho escravo e da exportação de matéria-prima para a Europa, o Norte privilegiou o trabalho assalariado e a articulação de um poderoso comércio. Os nortistas eram pela venda das terras devolutas a baixo preço, com o objectivo de diversificação económica e novos mercados consumidores. Um negro assalariado era um consumidor, devia pagar imposto e não poucas vezes era capataz sem chicote. No fundo, os do Norte, viam nos negros uma grande massa assalariada que podia ampliar o mercado consumidor dos produtos manufacturados.Porque Abraham Lincoln venceu as eleições em 1860,os sulistas não aceitaram a vitória de um abolicionista, tinham tradição militar e comandados pelo general Robert Lee desencadearam a guerra da secessão.A Guerra da Secessão, entre 1861 e 1865, resulta de os estados do Sul terem declarado um movimento separatista para a Independência, tudo, principalmente, pela divergência sobre a abolição da escravatura, guerra de que resultaram 600 mil mortos.

Com a derrota sulana aparece a Ku Klux Klan, uma organização chamada racista mas que hoje, felizmente, os investigadores designam por terrorista, tinham tradição militar nos Estados Unidos da América, na cidade de Pulaski no interior do Tennessee na passagem de 1865 para 1866 logo após a Guerra Civil Americana e está relacionada com o seu desfecho. De inspiração nos supremacistas brancos muito fortes no Sul. Nas prioridades da organização estava o combate ao direito de voto dos negros e contaram com o auxílio de outras organizações como a Irmandade Branca (White Brotherhood), os Homens da Justiça (Men of Justice) Os Guardiões da União Constitucional (Constitutional Union Guards) e os Cavaleiros da Camélia Branca (Knights of White Camelia). Ataques violentos, enforcamentos, incêndios em casas ou mortes por espancamento.Décima quinta emenda, 1870… mas a Ku Klux Klan não deixava os negros votarem e estes também não se expunham para não serem mortos…também só em 1964 o voto feminino negro foi validado com a Lei dos Direitos Civis.

Com altos e baixos na luta da lei contra a organização, parcialmente extinta por lei de 1871 até 1915.Mas, nos anos vinte renova-se e cresce até ter 4 milhões de membros.No Sul, aceitavam que os negros eram iguais mas separados dos brancos, escolas, hospitais, etc., para negros. Os negros não se registavam como eleitores com medo dos linchamentos.Só a partir de 1970 e 1980 os tribunais sulistas se dispuseram a julgar crimes da Ku Klux Klan.Lawrence Brewer, membro das Ku Klux Klan, tinha 44 anos e foi executado por injecção letal pelo assassinato do negro James Byrd e há pelo menos um caso de prisão perpétua.

Não quero manchar este texto com os nomes dos heróis americanos contra o racismo. Porque estou a falar do Far-West que passou para o Leste, onde fica Washington, o Capitólio e a Casa Branca, onde tem morado o homem mais ameaçador depois do fim da guerra fria e que só baixou a bola quando o Kim, da Coreia do Norte, lhe disse que já tinha um míssil que alcançava a Casa Branca.

Um homem que convocou as massas para irem pela Avenida até ao Capitólio. Nada de novo. Uma imitação de caricatura da guerra da secessão. Só que agora era um golpe de Estado, posteriormente rectificado pelo punho da filha e genro. Era a última emenda à Constituição. Tudo somado, retiro, por pudor, o que já escrevi contra Trump, mesmo ficando a meditar sobre a sua força manipuladora, chego à conclusão que na crise de lideranças do Ocidente, um inimputável pode destruir o mundo. Esta particularidade: o abolicionista Lincoln era republicano…

Manuel Rui

Escritor

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