Opinião

Educação artística precisa-se!

Todas as vezes que oiço um cantor, sem noção nenhuma de solfejo a desafinar sem vergonha nenhuma,a gritar em vez de cantar e sem qualquer carisma vocal nem melodia sequer, eu sinto um dó no peito.

12/01/2021  Última atualização 07H31
Sempre que me deparo com um artista plástico incapaz de captar o parecido das formas e a desenhar aleijados quando, na verdade, o que quer é deformar os corpos sem saber de anatomia humana, eu fico sem capacidade para ver, nos seus trabalhos, outros acertos, qualquer tipo de ousadia.

Quando noto a pobreza expressiva e as limitações técnicas de um bailarino, incapaz de interpretar com os seus gestos a tradição ou a modernidade, como para todos os outros casos anteriormente citados, eu penso na necessidade que temos de desenvolver o ensino das artes e da cultura, no nosso país e o quão urgente é criar e massificar a educação artística em todos os níveis de ensino já que, como sabemos, ela é a única via para a elevação estética dos alunos e para que, de um modo geral, os cidadãos possam adquirir critérios artísticos para um juízo de valores estético, o mais adequado quanto possível.

Concordo com todos aqueles que pensam que a educação e a apreciação das artes, o conhecimento da história da arte e, em geral, a educação artística deve preceder a mercantilização dos produtos artísticos e culturais, uma vez que o inverso pode, com muita probabilidade, provocar que a falta de polimento, o vulgar e o banal se instalem onde gostaríamos de ver o contrário, o transcendental e o sofisticado.

Não é, pois, admissível que, por exemplo, tendo em conta as necessidades gritantes com que nos enfrentamos, na centralidade do Kilamba, actualmente, esteja abandonada, sem terminarem de construí-lo, o edifício de uma Escola/Conservatória de Música que muito útil seria para educar e desenvolver o talento dos amantes da música.

Se a educação artística, principalmente na sua vertente de educação visual e plástica, ainda no tempo colonial, se leccionava nas Escolas Industriais, o certo é que o ensino de "Elementos da História de Arte” como já nos narra Victor Manuel Teixeira na sua tese de doutoramento "Prática e teoria das artes plásticas angolanas – da tradição à nova expressão”(1983) é uma das disciplinas que já foi incluída nos programas intensivos do "primeiro e no segundo Curso de Monitores de Artes Plásticas, realizados em Luanda entre 1978/79 e 1979/81, respectivamente durante nove e doze meses”.

Os cursos de que falamos unidos a outras iniciativas da então Secretaria de Estado da Cultura viriam a ser o embrião da institucionalização uma década depois, já nos anos 90, dos Cursos Elementares e Médios de Artes, do Instituto Nacional de Formação Artística (INFA) adscrito ao, então, Ministério da Cultura, com as suas escolas nacionais de dança, de artes visuais e plásticas e de música.

Passados todos estes anos a coincidir com a mudança do prédio da Escola de Música, na Marginal de Luanda para o Camama, o Estado criou o Complexo de Escolas de Arte (CEARTE) – que, há dias, soube que passou para a gestão da Administração do Município de Belas - e instalou-o num belo e moderno edifício mais foi incapaz de equipá-lo convenientemente e, o que é mais importante, não lhe proveu de meios económicos e financeiros nem o dotou de um corpo docente qualificado e especializado à altura do edifício construído.

Resultado: hoje temos o CEARTE instalado num belo continente sem o conteúdo e os saberes apropriados que lhe dariam corpo, sentido, projecto e missão. Para o CEARTE nem já a cooperação cubana – com as limitações técnicas, materiais e científicas e o afunilamento ideológico que sabemos que actualmente tem - foi equacionada como aconteceu, por exemplo, com Instituto Superior de Artes situado no Kilamba, que nem, por isso, deixa de ter outros problemas sérios.

Se quisermos que, no futuro, o nosso país tenha uma economia das artes e da cultura mais desenvolvida, capaz de alicerçar valores morais, económicos, financeiros e estéticos que permita aos artistas, intelectuais e criadores angolanos, com vozes próprias e em igualdade de condições que outros do mundo, dizer qualquer coisa de relevante aos da sua rua, aos do seu bairro, aos da sua cidade, a todos nós e à humanidade inteira,é preciso que, antes, desenvolvamos e tenhamos uma melhor educação artística: ela trará paz social, elevação de espírito e, em geral, uma cidadania edificante.

Adriano Mixinge

Escritor e Jornalista

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