Reportagem

Emoção e lágrimas na hora da despedida

Ana Cristina Massanga é auxiliar de limpeza há 30 anos no Governo da Província da Huíla. Ela confessou ter a sua casa construída numa zona de risco.

21/03/2021  Última atualização 13H57
Despedida do governador Luís Nunes © Fotografia por: Arão Martins | Edições Novembro| Huíla
Tinha a esperança de mudar-se para a centralidade da Quilemba, mas a notícia da exoneração do governador Luís Nunes a deixou apreensiva. Em pleno exercício de zelar pela limpeza do edifício-sede do Governo da Huíla, Ana Cristina Massanga, ao notar a saída do governador cessante da sala onde decorreu a entrega de pastas, acompanhado pelo ministro Marcy Lopes e o novo governador Nuno Mahapi Dala, gritou, com lágrimas nos olhos, dirigindo-se a Luís Nunes: "Não, Chefe. Não. Vais aonde? Porquê? Não nos abandones…” 

Em entrevista ao Jornal de Angola Ana Cristina explicou que vive na zona de risco denominada "Ilha”, adjacente ao extinto bairro Camazingo, em processo de requalificação. E tinha a esperança e a confiança de que mudaria de residência para a Quilemba, segundo garantia do então governador Luís Nunes. 

"Estou a viver na Ilha do Camazingo”, situou, acrescentando que "a minha casa está ao lado do rio e tem a parte traseira desabada. As rachaduras estão a alastrar-se. A casa já foi marcada pela administração municipal. Para me proteger, coloquei uma chapa”, explicou. "Já falamos com o chefe Luís Nunes. Ele disse para ter calma. Na centralidade tem casas. Já tem luz mas falta água. Ao ouvirmos da saída do chefe nos interrogamos e ficamos sem saber quem irá resolver o nosso problema”, acrescentou.

Ana Cristina  confessou carregar boas e más memórias de todos os antigos governadores com quem trabalhou, mas particularizou as qualidades de Luís Nunes. "É uma pessoa diferente. É simpático com todos. Dá-se bem com todos, independentemente da sua posição social. Ele saúda todos. Hehe…foi um pai”, exclamou.

Teresa Canjala, 55 anos, é outra auxiliar de limpeza no Governo da Província da Huíla. Mãe de sete filhos, vive no bairro Nambambe. "Foi um bom líder. Era um pai e carinhoso para todos. Dava atenção a todos, principalmente para nós que ganhamos pouco. Sentíamos que tínhamos um pai a frente do Governo da Huíla”, afirmou, referindo-se, obviamente, a Luís Nunes. "Nem sempre precisamos receber dinheiro, mas sim ser tratadas com respeito, ouvir palavra de consolo e ser corrigidas em bom tom de voz quando estamos erradas. Pena é que poucas pessoas têm essa virtude”, concluiu.

O acto protocolar de passagem de pastas decorreu no auditório do Governo Provincial da Huíla, na presença do ministro da Administração do Território e Reforma do Estado Marcy Lopes. Presenciaram ao acto membros do Governo Provincial e distintas figuras da sociedade civil. 

 
Emoção  na despedida
"No coração… levo aquele abraço fraterno do povo da Huíla, ao mar de Benguela”, disse Luís Nunes, com a voz tremula e lágrimas no canto dos olhos. A emoção tomou conta de todos.
Luís Nunes disse que sai da Huíla para Benguela transportando na bagagem sonhos, experiências, conhecimento e a mesma determinação e empenho com que chegou ao Governo da Huíla.

  Lembrou as palavras que disse aquando da sua tomada de posse no cargo de governador da Huíla: "Por muito trabalho, empenho e competência que eu tenha, o governador sozinho vale zero”.
Destacou e agradeceu o "valioso” contributo das instituições judiciais e administrativas, associações sectoriais e religiosas, classe empresarial, juventude e de todos os parceiros públicos e privados, que, no seu dizer, "desde a primeira hora disseram presente”. 

"O trabalho muitas vezes furtou-me do convívio familiar, e pese embora a minha família ter sempre participado activamente de toda a minha trajectória empresarial e política, registo com emoção, também, o meu agradecimento pelo seu carinho, compreensão e apoio incondicional”, sublinhou um Luís Nunes que não cabia em si de emoção.
O ex-governador agradeceu também ao povo da Huíla, que "nunca permitiu que abandonássemos e deixássemos estreitar os caminhos da mudança e do desenvolvimento. É a este povo do qual faço parte, que peço compreensão”.

Agradeceu à vice-governadora para o Sector Social, Maria João Chipalavela, "pelo comprometimento que demonstrou com os objectivos da mãe pátria, para o alcance do desenvolvimento sustentável”. E disse mais: "Ao meu lado, nos bons e maus momentos esteve sempre um amigo, Nuno Mahapi Dala, que assumiu a condução dos destinos da província”. E acrescentou ainda: "Parto para uma nova missão porque os mais altos interesses da pátria assim o exigem, parto, porque amo o meu país, e acredito neste projecto que sob a sábia liderança do Presidente João Lourenço visa catapultar (...) o país para um contexto onde a paz, o progresso e a igualdade sejam usufruídos por todos, sem excepção”.

 
"Kota Luís, envie peixe”
No seu primeiro discurso nas vestes de governador provincial Nuno Mahapi Dala pediu ao seu antecessor, agora governador de Benguela, para enviar sempre peixe para os huilanos. "Kota Luís, fique descansado que as acções realizadas por esta equipa, que sabiamente liderou, serão bem conservadas, e aquelas que estão por se concluir, garantimos a sua continuidade com a mesma dedicação, coesão e perfeição com que nos brindou, ao longo destes mais de dois anos”, disse, tendo solicitado: "Por favor, não se esqueça de enviar o sal e o peixe para a província da Huíla, pois o mar é grande e rico, e jamais secará”.

Nuno Mahapi Dala não tem dúvidas que a melhoria das vias de comunicação entre os municípios, comunas, bairros e aldeias, é uma determinante para a promoção das dinâmicas no domínio da agricultura familiar, fortalecendo o comércio rural e as pequenas indústrias rurais. Garantiu que, ao mesmo tempo, vai se continuar com as acções em torno da melhoria da produção de energia e indicou que os sectores da educação e saúde vão continuar a merecer atenção especial.


A ordem é acelerar
O ministro da Administração do Território, Marcy Lopes, disse que Luís Nunes deixou trabalho feito na Huíla, que é visível, notório e não se pode tapar com o sol, por mais que se esforce. "O seu trabalho aqui é visível”, reconheceu, acrescentando que com o actual governador da Huíla, que foi membro da equipa do anterior, o processo fica mais facilitado. "A minha missão é sempre difícil, porque trago alguém e levo outra pessoa. Neste caso em particular, eu entrego alguém que já é local, que trabalha na Huíla e assume agora o leme da província, numa mudança que não é fácil, mas que foi assim definida superiormente.

Temos todos de abraçar o novo governador”, apelou o ministro, que desejou ao novo governador da Huíla "tudo de bom, muito trabalho, muita força” e pediu a todas as pessoas que exercem funções públicas, e não apenas, a abraçarem o novo governador: "apoiem-no e corrijam-no naquilo que estiver, eventualmente, a ser feito em sentido contrário àquelas que são as aspirações do povo desta província”.

Marcy Lopes pediu ao novo governador que acelere, porque substituiu um "turbo”. "O meu conselho é este: acelere e trabalhe porque nós vamos ter muito tempo para descansar quando morrermos. Enquanto estamos vivos a palavra de ordem é acelerar, colocar o acelerador colado ao tapete. (...). Isto é responsabilidade de todos e não apenas do governador. O governador sozinho não faz nada”.

Arão Martins | Lubango

Jornalista

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