Reportagem

Especial/11 de Novembro: Agostinho Neto, os desafios do primeiro Presidente

Os três movimentos independentistas assinaram com o Estado português, no Algarve, o Acordo de Alvor, destinado a regular a "descolonização" de Angola e previa a instituição de um Governo de Transição constituído por portugueses e por representantes da FNLA, do MPLA e da UNITA, com a marcação da Independência para 11 de Novembro de 1975.

11/11/2020  Última atualização 07H05
© Fotografia por: DR
Contudo, as hostilidades recíprocas dos movimentos e as influencias externas (de velhos aliados) impediram a partilha do poder. Tanto a batalha de Kifangondo como a batalha do Ebo não impediram que Agostinho Neto proclamasse a Independência da República Popular de Angola. É esse ambiente de transição do poder, influência externas e a ambição de "discutir o problema pelas armas", que gera um dos maiores e primeiro desafio de Agostinho Neto, após a proclamação da Independência: a luta pela garantia da integridade territorial e soberania nacional.   

Agostinho Neto, depois de ter jogado um papel relevante na época em que os movimentos de libertação nacional entenderam que era no interior que se deveria incrementar as acções, define, com os seus companheiros, a primeira estratégia militar do pós-independência, a fim de garantir a integridade territorial do jovem país. O reconhecimento deste heroísmo, bravura e patriotismo,  que marcaram a trajectória de Neto, particularmente na vertente militar, desde os anos de 1960, é quase unânime. Em Março de 2018, foi mesmo, a título póstumo, promovido ao grau militar de general de Exercito, em decisão tomada pelo Conselho de Segurança Nacional. 

No campo económico, o cenário é caótico: centenas de empresas paradas, dezenas de milhares de portugueses, entre técnicos e quadros de vários sectores chaves, abandonam o novo país. Com enormes dificuldades, o Presidente não tarda a perceber que não podia só contar com os seus apoiantes revolucionários, mas também com o que ainda restava do tecido produtivo colonial, com destaque para uma pequena burguesia, constituída por brancos, mestiços e negros assimilados. Não havia voltas a dar: nos seus discursos, Agostinho Neto apela tanto ao fervor revolucionário dos operários e camponeses, quanto ao patriotismo de todos os angolanos, inclusive daqueles que não partilham as suas ideias. Para colmatar a ausência de quadros, Agostinho Neto empenha-se pessoalmente na formação de angolanos no estrangeiro. 

"Agostinho Neto criou, na Presidência da República, um gabinete para apoiar milhares de estudantes angolanos que foram estudar para o estrangeiro. Eu coordenei esses trabalhos. Nós dedicámos especial atenção aos jovens que foram para a Ilha da Juventude, em Cuba. Até consegui um reforço da bolsa para alguns estudantes que estavam em vários países. Tínhamos estudantes na Argélia, em Cuba, na URSS, na República Democrática da Alemanha (RDA), na Roménia, Jugoslávia e outros países", lembra Maria Eugénia Neto. Como Presidente da República Popular de Angola, Neto mantém, segundo os seus pares, os mesmos gostos simples e continua a exigir de si sempre mais do que pedia aos outros. Continuou a intransigente defesa da política de não-alinhamento, recusando a instalação de bases militares estrangeiras em território angolano. E continuou sem contas bancárias no exterior. 

Mas é logo no início do seu mandato que Agostinho Neto começa a queixar-se de problemas de estômago. "O meu marido foi piorando, mas até de mim escondia os seus males de saúde. Os médicos cubanos começaram a cuidar dele e diagnosticaram-lhe problemas cardíacos e depois do fígado. Mas, afinal, o problema, que o levou à morte, estava no pâncreas. Ele tinha uma vida mais calma, mas a sua saúde começou a ressentir-se dos anos de dificuldades e privações. A vida continuava a não lhe dar tréguas", recorda Maria Eugénia Neto. Ao partir, a 10 de Setembro, deixa as conquistas políticas e esse património imaterial que é a Independência, a Soberania, a Pátria...

Integridade territorial

No dia a seguir à Independência Nacional, a tarefa prioritária era consolidar e defender o Estado recém-criado. Era ainda necessário trabalhar para obter o reconhecimento de outros Estados, pela Organização da Unidade Africana e garantir a integração de Angola nas Nações Unidas. Às primeiras horas da sua existência, 23 países reconheceram o Estado angolano, segundo noticiava o Jornal de Angola, no dia 13 de Novembro de 1975. 
Em Dezembro, o ministro das Relações Exteriores, José Eduardo dos Santos, fazia o ponto de situação relativo ao reconhecimento de Angola: "Até agora, 29 países, entre os quais se encontram 12 estados africanos (República Popular do Congo, República Democrática da Guiné, República da Guiné Bissau, Cabo Verde, Moçambique, São Tomé e Príncipe, Mali, Guiné Equatorial, Dahomé, Nigéria e Tanzânia),  dois países da América Latina (Cuba e Brasil), os países da Europa socialista (Bulgária, República Democrática Alemã, Roménia, Polónia, Checoslováquia, Hungria e a Jugoslávia) e a União Soviética e sete países asiáticos (Mongólia, Vietname do Norte, Vietname do Sul, Coreia do Norte, Iraque, Síria e Iémen). 

No entanto, além dos países mencionados, cerca de quinze estados, distribuídos pelos diversos continentes, saudaram calorosamente o surgimento do novo Estado independente de Angola, proclamado pelo MPLA em 11 de Novembro. Entre eles estão Somália, Madagáscar, Ilhas Maurícias, Dinamarca, Bélgica, Etiópia e Gabão". 

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