Cultura

Especial/ 11de Novembro: Mena Abrantes descreve as encenações tímidas de um teatro "experimental

Mena Abrantes, Orlando Domingos e Adelino Caracol juntaram-se à mesa de uma das edições do debate periódico Há Teatro no Camões, acolhido no Instituto Português de Lu-anda, para discutir as fases desta arte.

11/11/2020  Última atualização 14H55
© Fotografia por: DR
Foi Mena quem se dedicou a descrever o que de teatro havia antes. Conta que chegou a Angola em Novembro de 1974, depois de 12 anos ausente. Nessa altura, recordou, o país vivia um período de forte tensão política, no auge da luta pela Independência, o que tornava praticamente impossível continuar a sua actividade, desenvolvida já em Portugal e Alemanha, adiando a intenção de somente dedicar-se ao teatro, seguindo, assim, a carreira de jornalista.Sobre o teatro, foi nos primeiros tempos de 1975 que se associou a um director, que, como nos diz, "não era profissional, mas que era muito dedicado”, que vinha do teatro experimental do Porto e que tinha já nos dois anos anteriores desenvolvido espectáculos com alunos na Lunda, onde ele estava destacado profissionalmente. Chamava-se César Teixeira e chegou a falecer na Austrália.

Juntos, tentaram, junto de algumas assistentes sociais organizar pequenos projectos teatrais, que não deram em nada. Em 1975, altura em que a situação militar na urbe luandense começa a se agravar, os estudantes estavam em greve e a população começou a refugiar-se dentro das escolas, aí no Largo das Escolas, motivando a formação de grupos de trabalho de apoio para a alimentação e formação política.Mena e César reuniram um grupo de jovens, para, durante à noite, tentar animar as pessoas que estavam concentradas nas escolas, ao mesmo tempo que procuravam também dar uma mínima formação política, pelo menos abordar problemas políticos daquele momento. A partir de Março de 1975, fizeram uma série de acções teatrais propagandistas, que não considera propriamente teatro, minimamente elaborado e improvisado com textos curtos.

Durante alguns meses, mantiveram esta actividade nas escolas. Foi a primeira experiência de teatro que viveu com os estudantes que estiveram em greve. Destes, o único sobrevivente foi o consagrado actor Orlando Sérgio, que na época tinha pouco mais de 14 anos. Depois, começaram a montar um espectáculo sobre a história de Angola, que nunca chegou a ser apresentado. Destas dezenas de estudantes, nove sobreviveram e deram corpo ao grupo Tchigangi, o primeiro grupo de teatro a apresentar uma obra depois da independência, levada em cena na Liga Nacional Africana, a 28 de Novembro de 1975, intitulada "O Poder Popular”, dirigida por César Teixeira.

Quando começou a informar-se sobre o que tinha acontecido antes, veio a saber que, nos anos 50, houve uma primeira experiência, com o Gexto-Grupo Experimental de Teatro, dirigido por Domingos Van-Dúnem. A iniciativa nasceu numa experiência brasileira que se denominava Teatro Experimental do Negro, criado por Abdias do Nacimento, com o intuito de começar a incluir actores negros no teatro brasileiro. Não sabe de que modo a experiência se repercutiu em Angola. Mas esse grupo acabou em poucos anos.

Mena Abrantes avança que, depois, houve outras experiências, sobretudo na Liga Africana e noutras associações de carácter interventivo e de entretenimento, onde os naciona-listas, através da actividade cultural e artística, iam afirmando as suas produções ainda no tempo colonial, como são os casos do Bota Fogo e Ngongo. Nas áreas libertadas do Leste Angola, a partir do início dos anos 1970, começa a se desenvolver a actividade teatral, iniciada por professores que aí lecionavam, que ficou conhecida como "teatro pioneiro na guerrilha”.

Explica que os professores davam às crianças um mote para elas desenvolverem e improvisarem algo. Elas próprias andavam de aldeia em aldeia, a apresentar aos mais velhos e a outras crianças o significado da Luta de Libertação e os problemas que existiam, expressos através destes grupos infantis. São iguais a estas as experiências anteriores nas quais se regista a participação dos angolanos. Antes, pontua, faziam-se peças, mas improvisadas, não publicando os textos. Destes, referência para um auto de natal, ainda na década 50.
Singelo tributo a Valódia
Nunca chegou a um tete-à-tete com o invocado Comandante Valódia, a quem rende homenagem numa das canções mais aclamadas da sua carreira e que teve uma aceitação imediata junto de um público heterógeno, quanto à inclinação aos movimentos de libertação. Ainda hoje, no exercício da democracia multipartidária, "Valódia” é uma canção que resistiu no tempo e prende a atenção de jovens com diferentes paixões partidárias.

"Tive um conhecimento, mas não o bastante para nos dar uma indicação. Conheci-o de maneira simples, de assistir e apontar que aquele ali a sair é o comandante Valodia”, enfatiza.Mal as hostes do movimento digeriram a notícia da morte do comandante. Santocas também se apercebe e essa história de irrepreensível sentido de dever dá-lhe "a fotografia exacta para compor o tema”. A música foi escrita no Cassequel, "porque era impossível trabalhar na Vila Alice, tendo em conta o ambiente pouco calmo”, justifica. Precisava de um espaço onde não existisse movimentações, sabendo que qualquer interrupção criaria logo mal-estar e quebraria as ideias. Para já, foi um caso de inspiração bem conseguido.

Depois de a canção ser gravada nos estúdios da Rádio Nacional de Angola, havia a urgência em ir para o ar. Porém, como era da praxe naquele tempo, ainda causou algum ponto de interrogação, visto que era preciso "examinar” o socialismo que nela apelava. Melodia e letra sob crivo, Santocas esperava o "sim ou não”, a ser dado por Rui de Carvalho, a ponte entre ele e a direcção do movimento. A canção passou no crivo e, desde então, tem sido uma "explosão”."E o ‘Valodia’ é uma canção que serve para os vários tempos. Aliás, se formos ver bem, em quase tudo o que eu produzi, podemos ver que ainda estão dentro do contexto”, avalia hoje Santocas.

À época com 21 anos, houve quem duvidasse da sua veia criadora e desconfiasse haver um verdadeiro escriba ao serviço do artista, não descartando até a hipótese de ser o próprio Agostinho Neto a dar-lhe as letras. Os assumidamente "incrédulos” decidiram acreditar que era mesmo o grande poeta da revolução quem escrevia as letras para Santocas."Não é verdade. Porque eu já tinha formação bastante para fazer aquilo que fiz. Porque muito antes de 1974 já cantava canções que ainda hoje estão no registo”, defende-se.Para dissipar dúvidas, precisa que, naquela altura, apenas interpretou uma letra de Manuel Rui, um poema de Agostinho Neto e uma outra letra dada por Rui de Carvalho. "Nesses três temas, só musiquei. Quanto ao resto, da música como arma de combate, veio tudo da minha veia, da minha força de vida”, assevera.  
Massacre de Kifangondo

Segundo analisa, essa música nasce de um episódio trágico da nossa história, que entristeceu meio mundo. Em prontidão, Santocas é imediatamente chamado por Rui de Carvalho, que lhe diz: "Estamos com uma situação muito penosa. Morreram muitos jovens”. É assim que nasce a dolente canção "Massacre de Kifangondo”.Rui de Carvalho era a ponte e ele era oficialmente a voz cantante do DIP do MPLA. Porém, havia canções que eram feitas a pensar não só nas preocupações do DIP, mas também o que se vivia na época."A gente recebia notícias de morte a toda a hora. Quer dizer, aquela frustração que se vivia no dia-a-dia dava-me subsídios bastante, enquanto artista”, sustenta.
Desígnios da revolução
OS nacionalistas Maria José Pereira da Gama e Manuel Pedro Pacavira eram os responsáveis por uma casa na Vila Alice, onde boa parte das figuras influentes do Movimento Popular de Libertação de Angola, entre elas membros do comité director, passavam a noite. Era conhecida como "a residência oficial do pessoal mais alto”. Quando é alvo de perseguição, pela alegada necessidade de o "silenciarem”, Santocas é acudido por estes dois responsáveis. Assim, começa a sua estadia, fundamentada com orientações expressas a nível superior para "terem um carinho especial por ele e criarem as condições necessárias para a protecção da sua integridade física”.

Protegido, não sentiu medo. "Aquilo era de juventude. Nós estávamos praticamente doutrinados e o que nos movia era a Independência de Angola”, analisa.Seguiram-se depois tempos de um país a viver dissabores. Santocas analisa a revolução como um processo dinâmico, tanto que "nem todos os objectivos são concluídos”. Justifica terem vindo de um período em que se julgava que o interesse de cada um jamais estaria acima de tudo.

"Hoje, melhor do que ontem, percebo muito mais que as revoluções têm como base essas situações, dos infortúnios e vantagens de uns e desvantagens de outros. Lutámos contra o colonialismo, para alcançar a independência. Nunca esteve dentro dos meus horizontes alcançar fundos e mundos”, assegura.  Para os últimos 20 anos, analisa, a sua música "Oportunismo” continua actual, porque "os homens são muito ambiciosos”. Alegre e de bem com a vida, diz ser essa forma de encarar o rumo das coisas que o leva a concluir que se mantém "um revolucionário”. Por isso, afasta a mais vaga hipótese de sentir que "foram traídos os desígnios da revolução”. 

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