Opinião

Falamos à mwangolê e fica-nos bem

Apusindo Nhari

Jornalista

A nossa amiga Guilhermina é uma boa mãe, preocupada com o futuro do seu filho, o Genito. Fina e requintada, do tipo a que costumamos chamar sanguita.

14/03/2021  Última atualização 08H00
Quando o miúdo começou a frequentar a creche, para além de aprender uma série de coisas novas, foi absorvendo algo que começou a perturbar a mãe. Sabemos que os miúdos funcionam como esponjas em relação aos hábitos e à cultura que os rodeia. Não é por isso de admirar que o Genito começasse a falar com um sotaque mwangolé cada vez mais acentuado pelo convívio com os seus companheiritos.

De onde vem a mwangolanidade na nossa fala? A nossa "maneira de falar português” é diferente e distinguível da dos outros povos lusófonos. Sempre sentimos, fortemente, que não há nada de mal num sotaque (excepto talvez quando nos impede a comunicação…) ou numa adaptação conseguida da maneira de escrever a língua oficial. E, ao reflectir sobre o assunto, a nossa mente foi reencontrando memórias e ecos de estórias longínquas, do tempo colonial, e mesmo de depois.

Estórias de pais que impediam os filhos de falar línguas nacionais ou de brincarem com outras crianças que lhes poderiam contaminar o sotaque. E faziam isso porque a sociedade da época valorizava a assimilação cultural, e associava atraso a tudo o que fossem traços da cultura local.
Abriam-se algumas excepções, nas festas e no carnaval. A preocupação com a ascensão social dos seus filhos levava aqueles pais a forçarem que os seus descendentes rompessem com as suas próprias raízes... Uma forma de violência que deixou marcas, visíveis nas preocupações que muitos ainda têm com o sotaque mwangolê, e no esforço que fazem para o abafar e por aprimorar o afinanço. A preocupação com o sotaque era parte de um pacote de preconceitos - muitos dos quais continuam poderosos - que incluía o "apurar da raça” e o ter "bom ventre” (o que gera crianças mais clarinhas e sem "cabelo ruim”). 

Proteger, valorizar e dignificar as línguas angolanas de origem africana, como património cultural, e promover o seu desenvolvimento, como línguas de identidade nacional e de comunicação - é uma  tarefa a que se obriga o Estado Angolano, com a alínea n) do Artigo 21º da Constituição que temos vindo a visitar.

Como valorizar as línguas angolanas se nem nos sentirmos confortáveis com a simples adopção da influência local sobre a nossa forma de falar e de escrever?
Importa confrontar a insistente atitude de desprezo - que ainda reina entre alguns de nós - pelo que é africano (línguas, sotaques, hábitos, etc.). Se não se alterar o que ficou mais ou menos escondido na nossa cultura, e que reflecte a associação – errada - entre "atraso” e "africanidade”, o preconizado pela alínea n), ficar-se-á pelo folclore... (algo que, aliás, já era comum na sociedade colonial)!

Há uma indiscutível tensão entre a criatividade, a energia e a segurança que se podem retirar de um saudável sentimento de identidade cultural, por um lado; e o medo, a insegurança e a intolerância em relação ao que é diferente, quando está presente a preocupação da "pureza cultural”.
Num país cujas fronteiras foram forjadas pela presença colonial, com um conjunto de nações e fontes de identidade cultural assentes numa enorme diversidade étnica, é compreensível que tal tensão se manifeste.

A ausência de uma discussão aberta - que dificilmente seria desapaixonada - questionando o legado (ou o passivo) cultural da colonização, não nos ajuda a assumir e a gerir essa inevitável tensão e os conflitos que daí surjam. As dificuldades vividas no pós-independência e as insuficiências das instituições não contribuíram para a afirmação e valorização do que é nacional... e faz-nos muita falta avançar nesta importante temática.

A multiplicidade de influências que resultaram da mistura  de culturas e contribuições diversas que a nossa história nos proporcionou, produziu algo de novo, talvez único. O sincretismo entre tradições e novos valores e hábitos é, sem dúvida, um dos pilares da angolanidade.
Nos nossos centros urbanos - à semelhança do que acontece em outros países - há fortes processos de crioulização, pela intensidade da exposição àquelas várias influências. Mesmo nestes espaços, a valorização das diferentes línguas e culturas nacionais é perfeitamente compatível com a necessidade de dominar competentemente a língua portuguesa, que nos é comum.

Mas em muitas zonas rurais não é necessário proteger nem valorizar as línguas angolanas de origem africana. O que é necessário é valorizar as pessoas que as falam diariamente. Tal como se tentou fazer, há uns anos, numa experiência de utilização de línguas nacionais como veículo de aprendizagem nas escolas rurais. Não para evitar o uso do português, mas para aumentar as chances de sucesso escolar de quem começa a aprender novos conceitos, sem ter de recorrer a uma língua (o português) que não é ali utilizada com fluência. O ensino da língua portuguesa é, nestes casos, tratado como uma matéria importante para a futura integração destes alunos. Não são conhecidos os resultados da experiência. Mas sabemos que as boas ideias e intenções são geralmente pouca coisa, e não garantem o sucesso de qualquer empreendimento.
E, a propósito: não será justamente o nosso empreendimento maior o de desenvolver o sentido de angolanidade, de uma forma que seja inclusiva da nossa imensa diversidade?

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