Reportagem

“Fertilidade Responsável” atrai mulheres à cidade do Dundo

Desde Setembro de 2019 que o Hospital Materno-Infantil da Lunda-Norte tem atraído o interesse de mulheres de várias províncias do país que, neste centro hospitalar, procuram encontrar o aconselhamento e tratamento que necessitam para a solução dos seus problemas, no quadro do programa “Fertilidade Responsável”.

12/11/2020  Última atualização 13H25
© Fotografia por: Edições Novembro
Sanar as adversidades que inviabilizam o desejo de se tornarem mães motiva as pacientes como de resto acontece com Sara Doroteia, de 26 anos e casada há cinco. Apesar da manifesta vontade em ter filhos, nunca conseguiu engravidar, situação que a levou a recorrer a esta unidade hospitalar em busca de auxílio médico."Já andei em vários hospitais, sobretudo em Luanda, mas nunca encontrei solução para o meu problema”, lamentou Sara Doroteia, salientando que foi submetida a uma intervenção cirúrgica para retirar os miomas no útero, por orientação da equipa médica do Hospital Materno-Infantil da Lunda-Norte.

No seguimento do tratamento pós-cirurgia, Sara Doroteia cumpriu rigorosamente a medicação e agora aguarda ansiosa o dia do parto. Para trás, fica o registo de anos de sofrimento e sacrifício. "Contra todas as expectativas, consegui finalmente engravidar. Os hospitais públicos também operam milagres e prova disso é o que esta unidade sanitária fez comigo e com outras mulheres. E foi tudo gratuito”, disse.

Quando arrancou com o programa de saúde reprodutiva, talvez fruto da localização geográfica, poucas pessoas acreditavam na eficácia do modelo de tratamento adoptado pelo Hospital Materno-Infantil da Lunda-Norte.Joaquina Nacarumbo, de 30 anos, encaixa-se neste grupo de pessoas. Proveniente de Luanda, onde foi assistida em várias clínicas, sempre privilegiou instituições de saúde no estrangeiro, onde, para o seu desagrado, nunca obteve resultados animadores."Depois de descobrir que tinha miomas, os médicos diziam que a solução passava pela operação, mas com a condição única de subtrair o útero”, disse.
 Por outras palavras, a me-dida sentenciava o desejo de Joaquina Nacarumbo, que,  durante uma viagem  que efectuou a Lisboa, Portugal, em 2015, quase foi submetida a este tipo de intervenção cirúrgica, devido as dores constantes e o desconforto que as mesmas causavam."A cirurgia e o tratamento custava quatro mil euros e só não aconteceu por razões financeiras” recordou Joaquina Nacarumbo, que acatou o conselho de familiares para experimentar o serviço do Hospital Materno-Infantil da Lunda-Norte. 

Embora céptica com a sugestão, deslocou-se ao Dundo, onde em Setembro do corrente ano foi operada a miomectomia no âmbito do programa "Fertilidade Responsável”. "No início tive muito receio, mas fui surpreendida. Além da estrutura moderna e devidamente equipada do hospital, deparei-me com uma equipa de profissionais jovem e dinâmica”, disse. Em fase de recuperação, Joaquina Nacarumbo terá de permanecer por mais algum tempo no Dundo para o acompanhamento que se impõe.
"Vencer a humilhação”  

Um grupo de três mulheres que partilham a mesma enfermaria no Hospital Materno-Infantil da Lunda-Norte decidiram, em uníssono, adoptar o slogan: "Conseguimos vencer a humilhação agora, não vamos desistir”.Submetidas à cirurgia miomectomia no passado mês de Outubro, o trio de mulheres reavivou a esperança de realizar o sonho adiado de ser mãe.

Por não conseguir ter filhos, Marta Calandissa, 44 anos, revelou que o homem com quem partilhou 11 anos de vida conjugal rompeu a relação motivado pela pressão familiar. A estes aspectos negativos, se juntaram os episódios de pura humilhação e provocação a que  foi alvo, sobretudo de amigas, vizinhos e colegas de serviço.

"Já andei em vários sítios, como igrejas e quimbadeiros, só para ter filhos. Felizmente, conto com o apoio do meu actual esposo e sinto que não há pressão porque ele tem filhos da anterior relação”, disse. A história de Dionísia Mu-tambuleno, 30 anos de idade, pouco difere. No seu caso, foi-lhe subtraído do organismo um mioma com cerca de oito quilos. Mais do que recuperar a esperança de ser mãe, a operação também melhorou a sua própria condição de vida.

"Fui aconselhada a seguir  o tratamento e daqui a um ano ou mais, posso engravidar”, disse visivelmente entusiasmada.Por sua vez, Ilda Lucama, 34 anos, realça que a cirurgia ultrapassou todas as suas expectativas, aumentando de intensidade a luz no fundo do túnel. Proveniente da cidade de Saurimo, província da Lunda-Sul, antes da recente experiência, em 2018,  chegou a engravidar, mas a criança acabaria por falecer. 

Patologias associadas e cirurgias

Enquadrado no programa "Fertilidade Responsável”, que abrange a pesquisa sobre malformação congénita e patologias associadas à gravidez, entre outras, aproximadamente 17 mulheres, com idades compreendidas entre 26 e 44 anos de idade, foram operadas no Hospital Materno-Infantil da Lunda-Norte, até o passado mês de Outubro. O médico especialista em ginecologia-obstetrícia, Joaquim Delgado, que lidera a equipa de técnicos do "Fertilidade Responsável”, explicou que o trabalho de sensi-bilização resultou no aumento de pacientes em busca de apoio médico.  O especialista de nacionalidade cubana, que falava à margem da recente visita do governador Ernesto Muangala àquela unidade pública de saúde, referiu que o serviço de saúde reprodutiva, consultou, até agora, mais de 320 pacientes.Em termos gerais, segundo precisou, os pacientes são maioritariamente do sexo feminino e as causas da infertilidade têm essencialmente a ver com a presença de miomas no organismo. "A dificuldade do tratamento desta patologia está na complexidade da cirurgia, pois a preservação do útero afigura-se como factor determinante”, disse. Joaquim Delgado realçou que que as cirurgias de miomectomia visam proporcionar melhor qualidade de vida às mulheres e, por conseguinte, ajudar as mulheres a gerar filhos. Informou que o hospital também atende homens com problemas de infertilidade."Modéstia à parte, temos realizado cirurgias de alto nível em termos de saúde pública”, afirmou Joaquim Delgado, salientando que as 17 cirurgias realizadas em mulheres foram movidas por uma alto  sentido de profissionalismo da equipa médica.
Equipamentos de alta tecnologia

Localizado no bairro Samacaca, Distrito Urbano do Mussungue, o Hospital Materno-Infantil da Lunda-Norte está apetrechado com equipamentos de alta tecnologia indispensáveis para o êxito da cirurgia miomectomia. Tratando-se de uma cirurgia com alto grau de complexidade, o médico Joaquim Delgado explica que, só depois de um ano, é que se começa  a avaliar os resultados.

"Durante o período pós-cirúrgico, as pacientes são submetidas a tratamentos hormonais para restabelecer as células destruídas pelos miomas. A cicatrização é semelhante à que ocorre num parto por cesariana”, disse Joaquim Delgado, cujo compromisso com o trabalho e sentido de profissionalismo lhe tem valido a simpatia e o respeito das pacientes.



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