Coronavírus

Imunidade à Covid-19 pode durar anos

Mais um sinal de que há luz no fundo do túnel em relação à pandemia da Covid-19. Um novo estudo sugere que a imunidade à doença possa durar anos e talvez até décadas, dando assim a esperança de que a vacina possa colocar termo ao novo coronavírus, avança o New York Times.

22/11/2020  Última atualização 16H01
Amostras de sangue de pacientes recuperados sugerem uma resposta imunológica poderosa e duradoura, relataram os investigadores © Fotografia por: DR
Segundo os novos dados, a maioria das pessoas que recuperou da infecção apresenta células imunológicas suficientes para afastar o vírus e prevenir doenças oito meses após a infecção e, ao que tudo indica, essas células podem persistir no corpo durante muito mais tempo.

A investigação, publicada online, não foi revista por pares nem difundida numa revista científica, mas é o estudo mais abrangente sobre a memória imunológica em relação ao novo coronavírus feito até hoje.
"Essa quantidade de memória provavelmente evitará que a grande maioria das pessoas contraiam doenças graves durante muitos anos”, disse Shane Crotty, virologista do Instituto de Imunologia La Jolla, dos Estados Unidos, que coliderou o novo estudo.

As descobertas provavelmente poderão aliviar os especialistas preocupados com a possibilidade de a imunidade ao vírus poder ter vida curta, o que significaria que as vacinas teriam de ser administradas repetidamente para manter a pandemia sob controlo.
Esta investigação foca-se ainda em outra descoberta recente: os sobreviventes da SARS, causada por outro coronavírus, ainda carregam certas células imunológicas importantes, 17 anos após a recuperação.

Investigadores da Universidade de Washington, liderados pela imunologista Marion Pepper, já haviam mostrado que certas células de "memória” que foram produzidas após a infecção pelo coronavírus persistem no corpo durante pelo menos três meses. E um estudo publicado na semana passada também chegou à conclusão de que as pessoas que recuperaram da Covid-19 têm células imunes que são poderosas e protectoras, mesmo quando os anticorpos não são detectáveis.

Estes estudos "estão todos a pintar o mesmo quadro, de que, após umas primeiras semanas críticas, a resposta imunológica parece bastante convencional”, disse Deepta Bhattacharya, imunologista da Universidade do Arizona.

Akiko Iwasaki, imunologista da Universidade de Yale, disse que não ficou surpreendida com o facto de o corpo ter uma resposta duradoura, porque "é isso que deve acontecer”. Ainda assim, ficou animada com a investigação: "Esta é uma notícia empolgante”.
Um pequeno número de pessoas infectadas no novo estudo não tinha imunidade duradoura após a recuperação, talvez por causa das diferenças nas quantidades de coronavírus a que foram expostas. Mas as vacinas podem superar essa variabilidade individual, disse Jennifer Gommerman, imunologista da Universidade de Toronto. "Isso ajudará a focar a resposta, para que não se obtenha o mesmo tipo de heterogeneidade que se vê numa população infectada”, referiu.

Estes novos dados contrariam a preocupação causada nos últimos tempos pelos relatos de que a diminuição dos níveis de anticorpos pudesse fazer com que a imunidade desaparecesse ao fim de alguns meses, deixando assim as pessoas vulneráveis a uma reinfecção.
No entanto, muitos imunologistas frisam que é natural que os níveis de anticorpos caiam, pois são apenas uma pequena parte do sistema imunológico. E, embora sejam necessários para bloquear o vírus e prevenir uma segunda infecção - algo conhecido como imunidade esterilizante -, as células imunológicas que se "lembram” do vírus com mais frequência são responsáveis pela prevenção de doenças graves.

"A esterilização da imunidade não acontece com muita frequência - essa não é a norma”, disse Alessandro Sette, imunologista do Instituto de Imunologia La Jolla.
O que acontece mais frequentemente nas reinfecções é o sistema imunológico reconhecer o invasor e extinguir rapidamente o vírus, até porque a Covid-19 é particularmente lenta a causar danos, dando assim ao sistema imunológico tempo suficiente para entrar em acção.

Para este estudo, Alessandro Sette e seus colegas recrutaram 185 homens e mulheres, com idades entre 19 e 81 anos, que se recuperaram da Covid-19. A maioria apresentou sintomas leves, que não exigiram uma hospitalização. E a maior parte das pessoas envolvidas no estudo forneceu apenas uma amostra de sangue, enquanto 38 forneceram várias amostras ao longo de muitos meses.
A equipa acompanhou quatro componentes do sistema imunológico: anticorpos, células B que produzem mais anticorpos conforme necessário; e dois tipos de células T que matam outras células infectadas. A ideia era construir uma imagem da resposta imunológica ao longo do tempo, observando os seus constituintes. "Se se olhar apenas para um, podemos estar a perder o quadro completo”, disse Crotty.
O estudo é o primeiro a mapear a resposta imunológica a um vírus em detalhes tão granulares, dizem os especialistas.

  MULHERES MAIS
VULNERÁVEIS  À INFECÇÃO
Homens perdem protecção mais depressa

Os homens perdem a protecção ao vírus SARS-Cov-2 mais depressa do que as mulheres, indica um estudo francês divulgado esta semana, que acompanhou durante seis meses pessoas com Covid-19 em hospitais de Estrasburgo.
A investigação, noticiada esta quarta-feira, pelo jornal britânico The Guardian, ainda não passou pelo processo de revisão pelos pares (em que a metodologia utilizada é criticada por especialistas da mesma área), mas, a confirmar-se, poderá pôr em causa a tradicional abordagem de tratamento "unissexo” numa futura vacina.

Os cientistas acompanharam 308 médicos e enfermeiros infectados com o vírus da Covid-19 e com sintomas moderados. Durante esse período, foi confirmado que os homens produziam cerca do dobro dos anticorpos contra o vírus do que as mulheres, mas que, em contrapartida, o declínio dos mesmos se dava muito mais rapidamente.

"Outros estudos já demonstraram que os homens têm um valor de anticorpos superior ao das mulheres na fase aguda da doença, mas estamos a demonstrar que, apesar de os homens terem uma melhor resposta no início, a queda no nível de anticorpos é muito mais rápida com o tempo, enquanto as mulheres mantêm os níveis mais estáveis”, afirmou uma das autoras do estudo, a directora de Virologia da Universidade de Estrasburgo, Samira Fafi-Kremer, citada pelo Guardian.
A razão por trás deste processo é actualmente desconhecida, afirma outro signatário do documento, o director do Instituto Pasteur, Olivier Schwartz.

Os dados do novo estudo vêm ao encontro de investigações anteriores, lembra o jornal britânico, que apontam para o facto de os homens parecerem ter o dobro da probabilidade de morrerem de Covid-19. Em contrapartida, as mulheres parecem ter maior probabilidade de serem infectadas.
Apesar de fundamentais, os anticorpos não são, no entanto, o único factor a ter em conta relativamente ao complexo sistema imunitário humano. É por isso que surgem, nesta fase de muita incerteza, tantos estudos aparentemente contraditórios sobre a eficácia no tempo de uma futura vacina.

VACINA DA JOHNSON&JOHNSON NA ESPANHA
30 por cento dos voluntários
terão acima de 60 anos


A Agência Espanhola de Medicamentos e Produtos Sanitários (Aemps) autorizou a realização de um ensaio clínico na fase 3, em Espanha, da vacina contra a Covid-19 que está a ser desenvolvida pela farmacêutica Johnson&Johnson. O anúncio foi feito na quarta-feira pelo Ministério da Saúde.
Esta é a primeira vez que a Espanha autoriza um ensaio na fase 3, com duas doses, para uma vacina contra a Covid-19. O ensaio será realizado em nove centros hospitalares e terá início o mais rapidamente possível, com o recrutamento de voluntários que cumpram os critérios especificados no protocolo.

Sabe-se que 20% dos voluntários serão menores de 40 anos e que 30% terão idade superior a 60 anos. Durante o ensaio, todos serão atentamente seguidos por uma equipa de especialistas, que vão acompanhar de perto os casos de Covid-19 que vão aparecendo. Mas será necessário esperar pelo final do ensaio para retirar todas as conclusões sobre a eficácia da vacina. Este aliás é um dos requisitos necessários para que mais tarde possa vir a ser autorizada a sua comercialização.

Neste ensaio, e numa primeira fase, serão vacinados voluntários sem doenças que os possam expor mais ao risco da Covid-19. Depois de uma avaliação da parte de um comité independente de vigilância sobre os dados dos participantes, será possível que, numa segunda fase, se possam juntar voluntários com doenças associadas.
No ensaio da Joh­nson&Johnson, uns voluntários recebem a vacina, outros um placebo mascarado. A farmacêutica tem previsto, nesta fase 3 da vacina, recrutar cerca de 30 mil voluntários em nove países - além de Espanha, vão participar Bélgica, Colômbia, França, Alemanha, Filipinas, África do Sul, Reino Unido e Estados Unidos.

Esta vacina, cujo nome é Ad26.COV2.S, é baseada numa tecnologia documentada com um adenovírus recombinante não replicativo, de modo a gerar uma resposta de imunidade contra uma das proteínas do coronavírus, conhecida como proteína S.
Na última semana de Setembro, a Johnson & Johnson anunciou que a vacina contra a Covid-19 que está a fabricar produzia uma forte resposta imunológica em apenas uma dose. Chamada Ad26.COV2.S, a vacina foi bem tolerada também quando administrada em duas doses, mostrou o ensaio que estava numa fase intermédia.
O ensaio englobou 1.000 adultos saudáveis. O desenvolvimento da vacina é apoiado pelo Governo dos EUA e começou logo após os primeiros testes, em Julho, terem demonstrado uma forte protecção em macacos que também receberam apenas uma única dose.
A Johnson&Johnson espera agora os resultados dos chamados testes da Fase 3 que deverão surgir até ao final do ano ou no início de 2021.

Fase decisiva
Em apenas uma semana, foram anunciados resultados de eficácia entre 90% e 95% para três vacinas experimentais para a Covid-19, duas norte-americanas e uma russa, com base em dados preliminares de ensaios clínicos na última fase.
Nesta "guerra fria” por uma vacina contra uma doença respiratória que assola todo o mundo, causada por um novo vírus, surge um terceiro elemento, a China, que prometeu divulgar, ainda em Novembro, os primeiros resultados de eficácia para uma vacina em teste no Brasil, na Indonésia e na Turquia.
Apesar das "notícias encorajadoras” sobre possíveis vacinas para a Covid-19, a Organização Mundial da Saúde (OMS) pede cautela, uma vez que é necessária a análise de mais dados para aferir com rigor o seu perfil de eficácia e segurança, sem o qual não podem ser administradas.

A 9 de Novembro, a multinacional farmacêutica norte-americana Pfizer e a parceira biotecnológica alemã BioNTech anunciaram que a sua vacina experimental para a Covid-19 tinha 90% de eficácia, partindo da análise de 94 casos de Covid-19.
Dois dias depois, o fabricante da concorrente russa Sputnik V anunciou uma eficácia de 92%, com base em dados de 20 casos. Mais recentemente, na segunda-feira, 16 de Novembro, a empresa de biotecnologia norte-americana Moderna indicou que a sua vacina candidata é 94,5% eficaz na prevenção da Covid-19, tendo em conta a análise de 95 casos.


  ESTUDO BRITÂNICO
Imunidade à reinfecção dura
seis meses para a maioria

As pessoas contagiadas com o novo coronavírus ficam menos susceptíveis a serem novamente infectadas durante os seis meses seguintes, segundo um estudo anunciado no Reino Unido.
A investigação da Universidade e dos hospitais universitários de Oxford, que ainda não foi sujeita a avaliação de outros cientistas, centrou-se no estudo de 12.080 voluntários que trabalham nos hospitais universitários e foram testados regularmanete entre Abril e Novembro.

"Este estudo contínuo com uma grande quantidade de sujeitos mostrou que uma infecção dá protecção contra a reinfecção à maior parte das pessoas durante pelo menos seis meses”, declarou um dos autores, David Eyre, do departamento de saúde pública da Universidade de Oxford.
"Não encontrámos nenhuma infecção com sintomas nos participantes que testaram positivos para anticorpos, enquanto 89 dos que testaram negativo foram infectados com o vírus e tiveram sintomas”, refere.

Considera ainda que se trata de "uma boa notícia, porque se pode ter a certeza que, pelo menos a curto prazo, a maior parte das pessoas infectadas não volta a sê-lo”.
O estudo acrescenta que "os níveis de anticorpos diminuem com o tempo, mas que existe alguma imunidade entre as pessoas que foram infectadas”.
Mais de 56 milhões de casos de infecção pelo SARS-CoV2 foram diagnosticados e mais de 36 milhões foram dados como curados, com raros casos de reinfecção.

Um outro estudo realizado pelo Imperial College de Londres e pelo instituto Ipsos Mori, e divulgado no mês passado, mostrou que a imunidade adquirida pelas pessoas que recuperaram da infecção diminui "bastante rapidamente”, especialmente quando se trata de pessoas sem sintomas, dissipando-se em poucos meses.

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