Opinião

Insolitude (5) Desejo sob as mulembas

Não é por acaso que o título desta crónica tem a ver com o dramaturgo americano Eugene O’Neill, Prémio Nobel de Literatura de 1936. Inspirei-me na peça “Desejo sob os ulmeiros”, a sua obra-prima. Quer na peça teatral, quer no cinema, o tema aborda uma família difícil, separada pela ganância e pelos ciúmes.

07/03/2021  Última atualização 10H58
Paixões descontroladas e vergonhas provocadas por casos de intimidade mal resolvidos, numa amálgama de sentimentos baixos resultantes de educação familiar rudimentar e descuidada.
A relativa semelhança entre a mulemba e o ulmeiro, duas árvores de grande porte e ramagem abundante, moldou o cenário da narrativa do meu "Desejo sob as mulembas”, distinguindo-se da original na importância e alcance da sua mensagem, dirigida em exclusivo aos angolanos. A problemática da educação é o seu mote, não estando, contudo, em causa o desejo de uma simples família, mas a ambição de toda uma população; nem se restringe ao comportamento de meia dúzia de pessoas, mas, sim, ao futuro de milhões de cidadãos. Que necessitam com urgência, tanto de saúde e trabalho, como de educação.

De bases e princípios rígidos que os prendam definitivamente à ética e à decência do futuro. Infelizmente são inúmeras as fragilidades e insuficiências nesse campo. Precisam de imediato tratamento, sabemos bem. A pouca velocidade imposta aos projectos e a duvidosa competência na sua execução fazem desconfiar e exigem celeridade. Falando de cinema, lembro-me do educativo. Se encarado a sério, será uma arma inteligente para se alcançarem objectivos sociais fundamentais e ajudar a incutir na sociedade formas saudáveis de evoluir, de ser educado. Um auxiliar da educação da população que as televisões deveriam adoptar, substituindo programas de nenhuma serventia.

Voltando a O’Neall e à sua obra, recordo com saudade (o saudosismo nem sempre deve ser condenado, o seu lado bom terá sempre espaço na nossa vida) talentos como o de Sophia Loren, Anthony Perkins e Burl Ives a marcar pontos altos de desempenho numa produção que, na época (finais da década de cinquenta), explodiu nos ecrãs das salas do mundo inteiro. Mas, vou ao que mais interessa. "Desejo sob as mulembas” resulta do surpreendente discurso do Presidente da República, proferido na abertura da 2ª. Sessão Ordinária do Conselho de Ministros, realizada no dia 2 de Março, Dia da Mulher Angolana. Enquanto ouvia as palavras do Presidente, senti-me momentaneamente sob a sombra fresca de uma mulemba, a árvore poderosa que nos orgulha, a que se assemelha ao ulmeiro de O’Neill.

À sombra da mulemba, habituamo-nos, literal ou metaforicamente, a falar das coisas importantes da terra, do kimbo, da sanzala ou da cidade. Não é mero acaso o facto de muitos dos que fazem uso da palavra dita ou escrita no nosso país utilizarem a sombra da mulemba para as suas reflexões. Para os alertas e chamadas de atenção que nos aconselham que a vida não pode ser vista de forma tão musculada e oportunista como tem sido levada, o desafio conflitual e o valor moral em debate não pode constituir um drama, deve ser mais civilizado, mais pacífico e mais moderno que a tragédia clássica.

Inesperado quanto insólito, incomum, pouco habitual, o discurso do Presidente não estava no meu programa do dia, mas tinha um simbolismo igual ao dos momentos em que se tratam os assuntos sérios à sombra da mulemba. Uma declaração desta dimensão e responsabilidade sugere-me, por enquanto, uma operação cirúrgica para sarar males que, por incúria e vaidade, foram esquecidos e tomaram forma dramática de gangrena. Trata-se de uma operação capaz de, neste momento, extirpar e amenizar alguns cancros (duvido da cura total), estancar a náusea e a morbidez das palavras, impedir gestos oportunistas de indivíduos de mente doentia, fomentadores da divisão dos angolanos, veementes nas suas proposições racistas e xenófobas, desejosos da implantação em Angola de um regime especial. Onde só eles possam ter o direito de viver bem, mandar, subjugar quem seja diferente.

Foi, apesar de tudo, uma operação feita no momento adequado, capaz de devolver alguma réstia de esperança que aos poucos se ia afastando de muitos angolanos. Por razões óbvias. É também uma operação que desnuda complexos, muitas feridas, não crónicas mas difíceis de serem curadas.
Não sendo um discurso perfeito (são raros os discursos perfeitos), o pronunciamento do Presidente da República, para além de pôr imediatamente uma série de cabeças a pensar, acaba também por simbolizar uma jogada. Não um xeque-mate de xadrez, mas um golpe de boxe, um tremendo gancho nos queixos dos partidários da exclusão, principalmente desses.

Os outros, inclusos os da situação, apanhados em contramão, devem neste momento estar a congeminar estratégias para fazerem valer o seu discurso paranóico impregnado de uma raiva incurável. Vão ser todos obrigados a pensar. Enquanto esperamos que, com a serenidade possível (prevejo rijos combates de ideias), com todos a pensar no país (será?), consigamos este êxito fundamental na caminhada que nos levará, num andamento que não pode ser de corrida desenfreada, ao ansiado Estado democrático e de direito, a um país onde todos, sem excepção, possam ter os mesmos direitos, obrigações e as mesmas oportunidades.

Um país onde as pessoas tenham voz para questionar em tom alto, entre centenas de casos, por exemplo, o que leva ao desmazelo de não se tomar posição sobre uma eventual demolição do cine-esplanada Miramar, uma obra emblemática da nossa cultura que, ao invés de ser salva (não seria difícil salvá-la), está destinada a ter a mesma sorte do defunto Mercado do Kinaxixi. Não será insólito o que se observa aqui? Tenho a certeza que o Guinapo, o Edmundo, o Saganha, o Ramalhoso, o Roque, o Bito, o Rodrigues Vaz, o Fortunato, o Ole, o Jorge António, o Óscar Gil, o Luandino, o Arnaldo e todos os outros cinéfilos da nossa terra, onde também me incluo, estejam onde estiverem, não irão gostar nada dessa ideia inqualificável. O juízo tem que retornar com urgência à mente dos angolanos. Para que consigamos finalmente uma Constituição que nos orgulhe.
Caros leitores, aguardem-me no domingo, à hora do matabicho.

Jacques dos Santos

Escritor

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