Opinião

Isto é uma farra...

Dizem os analistas da “coisa política” que, com a posição de casmurrice, assumida por Donald Trump, a América vê a sua honra, de primeira democracia, beliscada.

22/11/2020  Última atualização 14H44
Não consta da História do seu percurso democrático, que remonta de 1789, quando num confronto federalista, Geoge Washington levou a melhor sobre John Adams, o princípio de rejeição ou de contestação de resultados sufragados nas urnas.

O mesmo pode estar a acontecer com o nosso desporto. Catalogado como pioneiro da democracia em Angola, pois foi com Armando Machado e Daniel Simas que, em 1991, tivemos aquilo que ficou marcado, à ferrete, como primeiro exercício democrático, não abona que hoje, volvidos quase 30 anos, ande-se aos atropelos dos métodos normativos.
Na verdade, não honra a ninguém o que se vai sucedendo no processo eleitoral nas distintas federações para o ciclo olímpico 2020/24. Por que razão todos correm na contra-mão, não seremos nós a dar explicações. Certo mesmo é que vivenciamos processos rocambolescos, viciados à partida. Lá isto para não fazermos recurso a adjectivos mais felinos, mais mordazes, o que seria, se calhar, demarcar-se de um discurso higienizado e urbano.

A nossa consciência recusa-se a aceitar que todos os actos eleitorais nas principais federações estejam envoltos em celeuma. Por que será? Atrevemo-nos a dizer que esta seja, provavelmente, a primeira vez que o Tribunal Provincial de Luanda se vê perante vários casos, todos a ver com eleições federativas. E o termo Providência Cautelar passou a ser de domínio geral, qual "magoga” da barraca improvisada na esquina de rua!...

No futebol, quando era suposto estar o assunto arrumado, mesmo depois do pecado que se fez a Norberto de Castro, voltou-se a jogar achas à fogueira e as labaredas ardem que ardem. O basquetebol, que vai hoje a voto, arrisca-se a tomar os mesmos contornos, com Jean-Jacques da Conceição a arrepiar caminhos em busca da reposição da legalidade do processo. O hóquei em patins, que ontem confirmou Dionísio Viegas, pode ser outra embrulhada.

O que dirão as outras instituições, culturais, académicas, literárias, judiciais que também fazem recurso ao mesmo expediente (eleições), para a escolha dos seus órgãos representativos, e que sempre viram no desporto um modelo de democracia? Que mina de ouro terão os homens descoberto nas federações, a ponto de estarem quase a embaciar as espadas para resolver as querelas à baioneta?

Ao longo de muitos anos, o desporto não nos acostumou a actos de truculência. Foi sempre uma "praça de alegria”, quando os resultados competitivos marcassem presença, quanto mais não fosse uma espécie de bálsamo, para alívio de dores que emanavam de episódios menos bons, que Angola conheceu em determinada fase do seu percurso histórico.

Como perceber que as coisas tenham mudado de forma tão brusca? Como perceber que os homens do desporto tenham adoptado uma conduta tão ruim, expondo a sua pobreza de espírito e de carácter, quase encarnando políticos com doentia obsessão ao poder? Há quem diga que a situação pode ter relação com a emergência de uma geração de dirigentes, mais propensos à ganância que ao empreendedorismo que se exige. Será? Sim ou não, a verdade é que isto está uma farra...

Matias Adriano

Jornalista

Comentários

Seja o primeiro a comentar esta notícia!

Comente

Faça login para introduzir o seu comentário.

Login

Mundo

Opinião

Política