Sociedade

Jovem de Maquela no meio da fome realizou o seu sonho

Jorge Yamba, filho de Nicolau Yamba e de Paulina Kumba, camponeses, nasceu em 1989, há 31 anos, no município de Maquela do Zombo, província do Uíge.

17/01/2021  Última atualização 17H15
Jorge Yamba é Psicólogo de trabalho, formado pela UAN © Fotografia por: DR
Começou os seus estudos em Maquela do Zombo mas, com apenas oito anos, em plena guerra civil que atormentou tragicamente as populações do Uíge, foi levado para Luanda para aí recomeçar os estudos.A família, no entanto, vivia em pobreza extrema, sem quaisquer proventos e, sem a ajuda familiar. Jorge Yamba, desamparado, defende-se, tenta tudo o que está ao alcance para sobreviver e não morrer de fome.

O jovem junta-se então a um grupo de amigos, todos muito jovens, vendendo água nas ruas. Em 2007, Jorge Yamba, já adolescente,  consegue finalmente iniciar o primeiro ciclo do ensino geral, no  colégio Amor e Paz, graças a algumas poupanças conseguidas com a venda de água. Três anos depois, para se matricular na décima classe, é obrigado a lavar carros numa lagoa e  assim, no meio dos maiores sacrifícios pessoais,  consegue terminar a décima segunda classe.

"Eu estava muito ansioso  por entrar no ensino superior mas infelizmente isso não foi possível. As condições em que vivia eram muito precárias e eu recordo que fiquei muito triste e desiludido com a vida pois a pobreza sem solução impedia a realização dos meus sonhos.”

Mas Jorge Yamba, uma vez mais, não desiste, seca as lágrimas de tristeza, a sua força anímica é muito grande. Munido de conhecimentos de inglês, por ter frequentado um curso desta língua, lecciona no colégio Laymin. Mas o pequeno salário não lhe permitia continuar os estudos superiores  porque a propina era 24 mil kwanzas e ele ganhava muito menos do que isso no colégio.
Mas Jorge Yamba vai à luta e inscreve-se  num curso profissional  de frio e climatização, em 2011, que termina com bom aproveitamento.  Ele tenta trabalhar fazendo biscates, enquanto aguarda nova oportunidade. No ano seguinte, pede ajuda ao pai  para fazer a inscrição na Universidade Católica. Com muito sacrifício, abdicando de alguns valores, o pai de Jorge Yamba conseguiu ajudá-lo e o filho inscreveu-se e foi admitido na universidade.

Jorge Yamba faz o primeiro ano do curso de Psicologia do Trabalho e das Organizações, em 2012, mas viu-se obrigado a desistir, pois em casa não havia rendimentos a fome reinava e as propinas tinham de ser pagas todos os meses, além das despesas com material escolar e provas. "As condições financeiras precárias em que continuava a viver não me permitiram dar continuidade aos estudos, eu nem dispunha de dinheiro para apanhar transporte nem para comprar um pão.”

Em Fevereiro de 2013  viaja para o Kwanza Sul, onde, graças a ao curso de inglês que tirou em 2006 no centro de formação profissional Dodet English School, consegue trabalho como tradutor de língua inglesa numa fazenda de vinhos de Higino Carneiro, no município de Calulo, mas meses depois o seu pai morre e tudo volta a ficar complicado para Jorge Yamba, que tem de regressar a Luanda para apoiar a família que vive sem qualquer rendimento.  

Incapaz de estudar e de ajudar a família, Jorge Yamba decide investir  na profissão de frio, reparando arcas, geleiras e AC.  Jorge Yamba consegue alguns pequenos proventos e decide aprender a tocar piano e  todas as sextas-feiras vai ao Palanca para tocar no fim de um espectáculo e voltar para casa de madrugada com 8 a 9 mil kwanzas que mal davam para ajudar a família, onde pontificam 8 irmãos.

 "Mesmo assim era um rendimento que eu conseguia, a juntar à profissão de frio, muito pouco, mas atirei-me aos biscates, trabalhava sem parar com o objectivo de conseguir licenciar-me.” Sem nunca desistir, Jorge Yamba tenta sempre, trabalha noite e dia, com  parcos recursos consegue minimamente alimentar a extensa família. Jorge Yamba  concluiu o ensino superior e hoje é Psicólogo de Trabalho, formado pela Universidade Católica, "onde não é nada fácil concluir”, diz-nos.

Actualmente, Jorge Yamba orienta trabalhos de fim de curso e a profissão de frio  é a outra sua fonte de sustentabilidade.

Rui Ramos

Jornalista

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