Coronavírus

Limpeza de superfícies é, afinal, “teatro higiénico”?

Nos meses do confinamento, um pouco por todo o mundo, passeios, bancos de jardim, caixotes de lixo e outro mobiliário urbano receberam brigadas de limpeza com químicos.

22/11/2020  Última atualização 15H14
Contaminação é pelo ar © Fotografia por: DR
O pânico de algumas pessoas levou-as a comportamentos irracionais, como a lavagem das compras, por exemplo. No interior dos edifícios, sejam lojas, escritórios, restaurantes ou estações de comboios, a limpeza das superfícies foi reforçada como medida para impedir a transmissão do vírus.

Mas vale a pena o esforço extra em recursos humanos e em químicos e detergentes?
"Na minha opinião, está-se a desperdiçar muito tempo, energia e dinheiro na desinfecção de superfícies e, mais importante ainda, a desviar a atenção e os recursos da prevenção da contaminação pelo ar”, disse Kevin Fennelly, especialista em Infecções Respiratórias do National Institutes of Health (NIH) dos Estados Unidos, ao New York Times.

Para combater a ameaça do novo coronavírus no interior dos edifícios, os especialistas estão a convencer as autoridades de saúde que o mais importante é a melhoria da ventilação e na filtragem do ar interior, em conjugação com a distância social e as máscaras, e em deixar para trás o "teatro higiénico”, como foi descrito pela revista The Atlantic, e que proporciona uma falsa sensação de segurança.
A investigação aponta para que o vírus se encontre nalgumas superfícies como o plástico e o aço até três dias. No entanto, hoje considera-se que a capacidade para essas partículas infectarem é diminuta ou nula.

A questão foi objecto de um estudo publicado em Julho na revista científica The Lancet, o qual concluía que se estava a dar importância exagerada a essa forma de transmissão.

"Pelo menos para o vírus original do SARS, a transmissão era, no máximo, ínfima”, disse o autor do ensaio, o microbiologista Emanuel Goldman da Universidade Rutgers, num e-mail ao NYT. "Não há razão para esperar que o parente próximo SARS-CoV-2 se comportasse de forma significativamente diferente neste tipo de experiência”, acrescentou.

A Organização Mundial da Saúde, acusada por vários países de ter falhado na abordagem inicial à pandemia, bem como pela relação com a China, passou meses a informar que a transmissão pelas superfícies era um risco. Em contrapartida, minimizou a propagação por via aérea. Só depois do referido estudo publicado em Julho e de 239 cientistas terem chamado a atenção da OMS, numa carta aberta, é que a organização passou a avisar para a possibilidade de contágio pelas partículas no ar em espaços fechados e mal ventilados.

Em Outubro, o Centro de Controlo de Doenças dos EUA reviu as orientações e passou a considerar a transmissão pela exposição ao vírus em pequenas gotículas e partículas, ou aerossóis, que podem permanecer no ar durante minutos ou até horas.
Em Espanha, o Ministério da Saúde adoptou na quarta-feira as provas de que os aerossóis são uma via de transmissão do novo  coronavírus e estabeleceu que o risco aumenta em ambientes fechados e lotados, em especial em espaços mal ventilados, e com actividades como o exercício físico, falar alto, gritar ou cantar. Para a OMS, o vírus é transmitido "principalmente por gotículas de saliva ou secreções (...) de tosses e espirros”.

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