Sociedade

Livrarias passam por momentos difíceis

Job Franco

Jornalista

O livro em Angola ainda precisa de mais espaço para ter protagonismo. Nem mesmo projectos regulares, como as feiras de livro anuais, realizadas sob iniciativa institucional ou privadas, têm conseguido incentivar o hábito de leitura num nível satisfatório, que as livrarias possam sair dos momentos difíceis aos quais estão sujeitos, lamentou, ontem, em Luanda, a directora da livraria Irmã Paulinas, Marlise Heckler.

24/04/2021  Última atualização 10H57
© Fotografia por: DR
Apesar do livro ser fonte de conhecimento, de variadas áreas do saber, a pandemia conseguiu travar, temporariamente, o mercado do livro no país. "Como muitos sectores também fomos afectados, mas estamos a conseguir sobreviver com muita determinação e criatividade”, disse.

Para sobreviver, revelou, foi preciso apostar e motivar as equipas de trabalho para sair da situação de sufoco. "Hoje com muita luta conseguimos colmatar as despesas de apoio ao trabalhador no final de cada mês”, continuou, acrescentando que "os livros mais vendidos actualmente são os de psicologia, direito, sociologia, língua portuguesa e dicionários, o que demonstra a avidez, mesmo limitada, por conhecimento dos leitores”. Entre os títulos mais solicitados, "Jaime Bunda: Agente Secreto”, de Pepetela, é dos mais vendidos. Os autores portugueses mais pedidos são António Santos Justo e Fausto de Quadros, pelos livros ligados ao Direito.

Com a desvalorização da moeda nacional, a gestora da livraria revelou que o ano em curso foi muito reduzido em relação as vendas. "Houve muita perda de material, porque tivemos pouca saída”, contou, acrescentando que outro problema tem sido a falta de fábricas para impressão de livros a nível nacional.

Para imprimir um livro em Angola, contou, o preço fica muito alto. "O preço só vária quando é acima dos cinco mil exemplares. O problema é que raramente as pessoas imprimem tal tiragem. Geralmente ronda entre os 500 e os dois mil exemplares um retrocesso neste processo que é muito prejudicial a todos os envolvidos, em especial o criador, em especial pelo facto de as pessoas, quase sempre, lerem, apenas, um livro por ano, ou meses”, lastimou.

Parte dos livros da livraria, confessou, são importados de Moçambique, Portugal e Brasil. "Em Angola ainda há pouca produção local, mesmo com propostas de algumas editoras. Por exemplo, as Irmãs Paulinas têm um projecto de prestação de serviço, no qual os autores investem nas obras e assumimos a responsabilidade de as editar. Porém, não tem sido fácil”, contou.

O trabalho de manutenção dos livros, adiantou, tem sido outra dificuldade, uma vez que estes requerem cuidados especiais. "Por isso, alguns títulos, devido a este processo, acabam por ser caros”, lamentou, além de informar que vão dos dois mil aos 80 mil kwanzas. "Os de medicina e enfermagem são os mais caros”.

Outros colossos
Assim como as Irmãs Paulinas, a livraria Escolar Editora, localizada na baixa da cidade de Luanda é outro dos locais de venda de livros, cujos preços variam dos 500 aos 200 mil kwanzas, com os de medicina e arquitectura a serem dos mais caros, como informou o sub-gerente da livraria, Jorge Bizerra.

Além destes, outros livros procurados são os de direito, gestão e economia. "Os preços variam dependente da qualidade do livro e do valor da exportação”, explicou, acrescentando que entre os autores nacionais os de maior saída são Pepetela, Maria do Carmo Medina e Luzia Sebastião.
Apesar das dificuldades, Jorge Bizerra assegurou que a livraria não corre risco de encerramento.

"Temos um bom stock de livros e além de livraria somos uma editora. A maioria dos trabalhadores e a manutenção do espaço é feita com o dinheiro das vendas e das feiras públicas”, revelou.
Como uma das livrarias mais antigas da capital, a Lello passa por inúmeras dificuldades, que o gerente Joaquim Melicias, atribui não só a pandemia, mas também a perda, acentuada, dos hábitos de leitura.

"Hoje a Lello tem vindo a sobreviver em Angola, nos últimos 30 a 40 anos, com a venda de artigos de escritório, material escolar e carimbos. Parte do património da livraria, que era vasto, foi vendido e usado para suportar outros custos”, revelou.
A pandemia, acrescentou, apenas agudizou o problema. Agora, conta, uma das soluções para sobreviver a crise é a entrada em funcionamento da plataforma digital do espaço. "Esperamos que estes serviços sejam o potenciador de tudo”.

Pelo facto de actualmente os livros representarem menos de 3 por cento das vendas da Lello é, disse, difícil fazer uma estatística das vendas. "Nos últimos anos, antes do encerramento da loja maior, o que se vendia mais eram os livros técnicos e escolares”, informou.


Novas tecnologias
O crescimento do mundo digital, sobretudo, das novas tecnologias de informação, têm estado a ocupar um lugar de destaque nas sociedades contemporâneas. Alguns especialistas e homens ligados às letras acreditam que o surgimento destas ainda está longe de substituir o livro físico.
O custo de vida, incluindo as dificuldades de acesso às tecnologias de informação, são um dos entraves ao desenvolvimento das plataformas digitais. Para Pinto Quiala, o autor do livro "Queria conhecer, falar e escrever o português”, o mais importante no momento é continuar a focar na criação de mais hábitos de leitura.

Por sua vez, o professor e jurista António Vitangue, considerou fundamental olhar mais para a educação e o livro como elementos de desenvolvimento nacional. "É preciso aplicar uma outra dinâmica nas políticas públicas sobre o livro e a Lei do Mecenato”, alertou.

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