Opinião

Maria Alexandre de morte matada

“Não me conhece? Não. Eu sou a Maria Alexandre filha do Alexandre Dáskalos e já li o seu livro “Regresso Adiado.” Fiquei perplexo.

25/03/2021  Última atualização 10H17
Foi o comandante Correia Jesuíno, secretário para a informação que me tinha pedido para dar boleia a duas jovens do Huambo. Era a primeira vez que eu ia a conduzir tantos quilómetros. Tinha chegado da residência fixa em Portugal, veio o 25 de Abril, ainda paguei cem escudos a um sargento que no meio da confusão "o povo unido nunca mais será vencido” me passou um documento militar sem vermelhos”, fazia pouco tempo para ocupar o lugar de director do CITA. E lá fomos. O pai da Maria, nascera em  Nova  Lisboa no ano de 1924, era o médico veterinário e investigador que escondia o poeta nacionalista e anticolonial. Eu a contar que retinha a imagem de Alexandre, sempre de capacete e entendido pelos colonos como um louco pelas suas ideias, detido aos dezassete anos em Nova Lisboa  por pertencer à organização socialista de Angola, que lunático! Contraiu tuberculose nas investigações que fazia com gado e foi morrer no sanatório do Caramulo em Portugal em 1961. Enquanto rolávamos, Maria Alexandre recordava alguns poemas do seu progenitor,
Quase à beira do chão
Rastejantes, vermes, podres!...
Pobre miséria do mundo
Só o dinheiro é patrão.
Dos vermes sujos do chão
Cada verme traz um punho
Com uma faca na mão.
Eu recordei os poemas contra o esclavagismo como A SOMBRA DAS GALERAS que almejava a libertação, ou QUE É S. TOMÉ de que ainda sabia os dois primeiros versos,
Quatro anos de contrato
 Com vinte anos de roça.

Maria Alexandre perguntava-me como eu sabia aquilo tudo. Aí tive de contar que na casa onde vivi em Coimbra, com estudantes de Angola, dizíamos poesia angolana e fazíamos conferências de engajamento político para a Independência de Angola. Parte dos membros dessa casa tinham sido alunos do tio  da Alexandre, o Sócrates Dáskalos no Lobito-Benguela e já vinham doutrinados para a independência. E continuei narrando que para a linha do caminho de-ferro-de-Benguela, Robert Williams e Norton de Matos haviam mandado publicar anúncios para contratar pessoal. É assim que vem um tal grego Dáskalos. Mais tarde eu conheci o avô da Alexandre que fez uma das primeiras padarias do Huambo, vivia no bairro Benfica e vinha à cidade com  sacos amarrados ao quadro e suporte da bicicleta, pedalando para vender pão. Lembrei à Alexandre que outra padaria era a do Bernardino, pai dos Bernardinos, todos empenhados pela libertação de Angola. A família Dáskalos e Bernardino eram muito próximas.

A Alexandre tinha família em Nova Lisboa, incluindo a professora Zaida Dáskalos, tratada por Zaidinha pelo afecto que ela dava às crianças do seu colégio que se chamava "Colégio Ateniense,” memória da sua origem grega.
Um dia eu decidi ir para o Lubango a fugir da política, demanda a paz para escrever em calma e fui encontrar o inferno com um gang de diabos que constituíam o comité provincial. Eu ia para uma coisa e de repente fiquei de director da faculdade de letras com a missão delituosa de a destruir para transformá-la num Instituto Superior de Ciências da Educação. Arlindo Barbeitos era professor e Maria Alexandre, sua namorada, era aluna. Ela mostrava-me os seus poemas. Para além dos bombardeamentos sul-africanos vivíamos o terror de quem governava e pretendia, sempre embriagado, mandar na universidade. Alunos tentavam entrar com documentação falsa, eram travados na secretaria, queixavam-se ao governador e ele aparecia para tentar impor, gabando-se que na casa do colono encontrou uma colecção completa da ReadersDigest. Um dia o delegado da JMPLA interrompeu uma aula do Barbeitos, o professor disse que haveria tempo no fim da aula mas nada. Barbeitos abandonou a sala e veio ao meu gabinete. Chamei o aluno, veio a secretária e eu ditei uma suspensão para processo disciplinar, a secretária foi à sala e obteve assinaturas de testemunhas. Veio, no dia seguinte o governador e eu repeti-lhe a frase de Unamuno para o general durante a guerra civil de Espanha: "camarada governador, isto é o templo da sabedoria e eu sou o  seu sacerdote.”

O corpo docente era chamado a ralhetes ao palácio da loucura. Um dia foi a UNTA, entregaram a cada um de nós papel com a versão angolana da internacional para o desfile do 1º de Maio. Verifiquei que havia um verso de uma estrofe que passava para outra. Falei do erro. Queriam-me obrigar a fazer autocritica. Expliquei forçando o riso sarcástico: "Fui eu quem escreveu essa versão…”
Fui padrinho de casamento da Alexandre e do Arlindo. Eles fugiram do Lubango antes de mim a quem não queriam deixar que viesse ao funeral de Agostinho Neto. Ajudou-me o general Toka.
Mais tarde, na homenagem a Saramago, em Lisboa, fui escolhido para falar pelos escritores palop.
Estava lá a Alexandre e o Arlindo. No fim conversámos muito e inteirei-me da situação de saúde do filho do casal portador de uma doença rara.

Até que um dia a Alexandre, o Arlindo e o filho já adulto voltaram. O Arlindo fazia investigação na católica pois ele era possuidor de uma cultura invejável, estudava todos os dias.
A Alexandre começou a entrar em perda, não aguentava o cerco invisível do Comité Miss Angola e da sagrada família. Começou a enviar aos amigos e-mails de contestação, por vezes desconexa. Cheguei a dizer-lhe para parar e vir conversar comigo.
Foi pelo telefone. A Alexandre morreu. Ela é que cuidava do filho e do Arlindo, paralisado numa cadeira de rodas com Parkinson.
Não foi a união dos escritores nem nenhuma instância cultural que me deu a notícia. Foi uma conterrânea. Onde é o velório que eu não posso ir a funerais? Não sei.
A morte matou a Alexandra que morreu de morte matada e a minha revolta é recordar-me dela com estes versos do pai:
                                Quando eu morrer
                                 Não me dêem rosas
                        Mas ventos.

Manuel Rui

Escritor

Comentários

Seja o primeiro a comentar esta notícia!

Comente

Faça login para introduzir o seu comentário.

Login

Mundo

Opinião

Política