Reportagem

Milhares de crianças são vítimas de queimaduras por negligência dos pais

Sozinhos em casa. Aline, de oito anos, é a mais velha de dois rapazes, um de cinco e outro de três. A menina decide fazer o pequeno-almoço. Acende o fogão e coloca uma cafeteira com água a ferver, para o chá. Enquanto aguarda, corta os pães em fatias e aplica a manteiga. São 8 horas da manhã.

21/01/2021  Última atualização 10H05
© Fotografia por: Agostinho Narciso |Edições Novembro
O chá está pronto a servir. Depois de desligar o fogão, puxa a ponta do vestido de lã que tem no corpo, para tirar o recipiente. A cafeteira está muito quente. Aline não resiste à temperatura. Larga a cafeteira e todo o líquido efervescente atinge-lhe no peito, barriga, pernas, e nos órgãos genitais. Chora de dor. Grita por socorro. Ela não consegue andar.

O irmão, de cinco anos, corre para fora. Pede ajuda a uma vizinha que, entretanto, por falta de um telemóvel ainda não sabe o que fazer. Minutos depois, leva a menina ao Hospital Geral de Luanda, de onde recebeu a informação que os pacientes com queimaduras devem ser encaminhados para o Hospital dos Queimados, que funciona provisoriamente no Zango II, município de Viana. "A menina tem de internar”, avisa um dos médicos, em serviço, no banco de urgência da referida unidade hospitalar. Aline vai ficar algum tempo sem usar calças e calções. Apenas poderá andar de vestidos, saias curtas e largas, para permitir que as feridas sequem mais rápido, reduzindo as dores e os riscos de infecção. 

Para minimizar as marcas das queimaduras, a me-nina deverá ser submetida, mais tarde, a uma cirurgia reparadora, com recurso a enxertia (retirar a pele de uma parte sã, do corpo, para cobrir as partes queimadas). "Caso contrário, a pequena terá que conviver com as cicatrizes para o resto da vida”, disse o médico.    
Contactada pelo Jornal de Angola, a mãe da pequena Aline disse que nunca iria perdoar-se,  caso o pior acontecesse com a filha. Teresa Ambrósio reconhece que uma criança não deve ter a responsabilidade de cuidar de outras crianças. "Eu sei disso. Mas muitas vezes não tenho escolha”.  

"A vida está tão difícil que já não dá para ficar só em casa, a olhar  para as paredes. Tenho que arranjar alguns negócios e ir zungar, para conseguir comida para os meus filhos. O meu marido está há cinco anos desempregado, mas também não pára em casa. Se eu ficar sem fazer nada, os meus filhos vão passar fome,” lamenta a jovem mãe de 25 anos.  
Azar ou coincidência? Vinte dias depois da data de internamento, enquanto Aline aguardava por alta médica, o primo, que tem apenas um ano, acabava de dar entrada no banco de urgência. O menino queimou o "rabinho” com o óleo quente que estava numa frigideira, no chão da cozinha. 

A mãe, Maria Ambrósio, de 24 anos, contou que tudo aconteceu no momento em que fazia o almoço às pressas, porque as crianças estavam com muita fome. Depois de fritar o peixe, colocou a frigideira com o óleo ainda quente no chão, e foi à casa de banho.

"Eu não vi a criança entrar na cozinha. Fiquei assustada quando gritou. "O bebé caiu na frigideira e queimou as nádegas”. A queimadura também afectou um pouco os ór-gãos genitais e o ânus do menino. Os médicos dizem que é uma queimadura de terceiro grau”, explica.
Acidentes domésticos

De Janeiro a Dezembro do ano passado, foram registados 3.771 casos de queimadura, dos quais 2.292 são crianças menores de 15 anos, correspondendo a 79 por cento do total de acidentes. A directora-geral do Hospital dos Queimados, Lídia Dembi, disse que as principais causas ocorrem em consequência de acidentes domésticos (água e óleo quente, vazamento de gás, mau manuseamento de velas acesas e uso de álcool em gel) e de problemas eléctricos nas residências.   
Por curiosidade, muitas crianças colocam objectos metálicos como garfos, colheres e facas nas tomadas, e apanham choques eléctricos que, nalguns casos e dado o elevado nível da queimadura, provocam a morte ou amputação dos seus membros inferiores.

Lídia Dembi explica que as queimaduras mais frequentes são sempre as do primeiro grau, que atingem apenas a camada superficial da pele, e que, geralmente, levam de cinco a sete dias para cicatrizarem. Acrescenta que, as do segundo  grau, dependendo muito da parte do corpo, podem levar de sete a 20 dias de internamento, enquanto as do terceiro grau ficam de 20 a 45 ou mais  dias internados.

"O tempo que o paciente fica internado envolve muitos custos, desde a alimentação, recuperação nutricional e a própria estabilização do paciente. As vítimas de queimaduras do segundo e terceiro graus, geralmente precisam de tratamento cirúrgico de reparação ou de reconstituição da zona afectada, para facilitar o processo de cicatrização e devolver a auto-estima à ví-tima, minimizando o seu sofrimento”, proferiu.

Em 2019, o Hospital dos Queimados registou 5.302 casos, mais 1.571 que no ano passado. Lídia Dembi acredita que a redução de casos deve estar associada à localização da unidade sanitária do Zango, que fica muito longe do centro da cidade.

"Muitos só apareciam aqui quando já não conseguiam controlar a situação. Com o surgimento da pandemia da Covid-19,  hoje as pessoas estão mais tempo em casa e conseguem prestar mais atenção às coisas”, referiu.  

Média de atendimento 

O Hospital dos Queimados atende, em média diária, 15 a 20 doentes, sendo que cinco a seis pacientes acabam por internar e outros vão parar na área de cuidados intensivos, para efeitos de estabilização. Segundo a gestora do hospital, o número de pacientes é muito alto, quando comparado com outros países do mundo. "Quase ninguém regista este número de pacientes queimados todos os dias”, referiu Lídia Dembi.

Para estabilizar uma pessoa vítima de queimadura, o médico intensivista pode levar de quatro a cinco horas ou mais, porque envolve muito equipamento, muita técnica para manter o paciente estável. "De acordo com as regras, um médico devia controlar apenas dois a três doentes. E enquanto o paciente não estiver estabilizado, o intensivista não pode ausentar-se. Nestes casos, como ficam os demais pacientes, quando nós só contamos com dois especialistas nesta área?”, questiona a responsável do Hospital dos Queimados. 

Por essa razão, prosseguiu a médica, apesar de ser a directora-geral do hospital, fica, quase todos os dias, horas e horas na área de cuidados intensivos, para ajudar os dois especialistas a estabilizar os doentes.
Redução do número de camas

A transferência do Hospital dos Queimados "Neves Bendinha” do bairro Popular para o Zango II, no dia 22 de Maio de 2019, fez com que a unidade sanitária perdesse 30 camas, devido à limitação de espaços.  
No bairro Popular, a unidade tinha uma capacidade de internamento para 97 camas, enquanto no Zango existem apenas 67 leitos, sendo que cinco dos quais estão reservados aos casos de Covid-19 que possam surgir. "Neste momento, temos aqui dois doentes com Covid-19, um em ambulatório e outro internado. O que está internado tem uma queimadura avaliada em 35 por cento e não temos onde transferi-lo”, explicou a médica intensivista.  

De acordo com a especialista, com esta redução do número de camas, muitas vezes o hospital regista alguma sobrelotação. "Por isso, actualmente estão a ser assistidos cinco doentes no corredor do hospital. É uma situação triste, mas não se pode mandar para casa um paciente que chega até nós, com queimaduras profundas”, disse.    

No ano passado, morreram dez dos 3.771 pacientes com queimaduras, registados no Hospital dos Queimados. Para Lídia Dembi, isso mostra que houve uma redução gradual do número de mortes. E estas mortes, prosseguiu a directora, ocorreram depois de 48 horas, porque muitos pacientes chegam ao hospital já carbonizados. Apesar dos esforços empreendidos pela equipa médica, para salvá-los, alguns não resistem.   

Quanto aos 3.661 pacientes recuperados, no período em análise, explicou que os casos mais difíceis de serem tratados foram os de queimaduras superiores a 50 ou 60 por cento do corpo, que ficaram de 45 a 60 dias no hospital.
"O exemplo é de uma criança de dez anos, transferida da clínica Girassol para aqui. Ela queimou 75 por cento do corpo. Foi uma queimadura causada pelo uso de álcool em gel, e de seguida foi para a cozinha, em casa. Como o álcool é inflamável, por estar próximo do fogão aconteceu o inesperado”, lamentou a responsável. 

De acordo com a directora-geral do hospital, depois de algum tempo a criança deverá ser submetida a uma cirurgia, com recurso a enxertia, para tirar a pele de uma parte sã do corpo e colocar nas zonas queimadas, para minimizar as cicatrizes.
A directora revela que, com o surgimento da Covid-19, o hospital começou a registar vários casos de queimaduras por uso constante de "álcool 70 por cento” e "álcool em gel”.  Por esta razão, a médica aconselha a população a usar os produtos de desinfecção das mãos apenas quando estiverem fora de casa.

Muitos, depois de desinfectar as mãos, vão acender o fogão e acabam por se queimar. "Em casa, é melhor e mais seguro lavar as mãos com água e sabão, e para desinfectar qualquer coisa, usem a água com lixívia, que é um dos melhores desinfectantes que existe”, apelou Lídia Dembi, que reconhece o trabalho desenvolvido pelos fisioterapeutas e psicólogos, na recuperação das vítimas de queimaduras.

Transferência temporária

Este ano, os serviços de atendimento médico às vítimas de queimaduras podem regressar ao Hospital dos Queimados "Neves Bendinha”, localizado no bairro Popular. As obras começaram, em 2019. Na altura, o empreiteiro prometeu concluir, em dois anos, os trabalhos de reabilitação e ampliação das antigas instalações do hospital. 

"Mas eu gostaria mesmo que o hospital estivesse localizado num lugar amplo e devidamente arborizado, porque o paciente queimado, ao perder a primeira camada da pele, fica susceptível a várias infecções. Logo, se estivesse num local arborizado e fora da cidade, seria muito melhor para a sua protecção e recuperação saudável”, defendeu Lídia Dembi, garantindo que as obras caminham sem grandes constrangimentos.

De acordo com a responsável do Hospital dos Queimados, não é bom juntar os pacientes queimados com outros, porque favorece as infecções, que são as principais causas da mortalidade.   

Faltam médicos especialistas 

O número de efectivos, principalmente médicos e enfermeiros, é insuficiente. Actualmente, a unidade de saúde conta com um total de 28 médicos, três cirurgiões plásticos, uma anestesista, dois intensivistas, dois pediatras e dez especialistas em medicina interna. Os restantes são clínicos gerais, muitos deles em idade de reforma. 

Dos três cirurgiões plásticos, apenas dois trabalham, porque uma está de repouso pós-parto e outro está prestes a reformar-se. "Tem 63 anos. Mas ainda presta serviços no hospital, porque tem uma vasta experiência em cirurgias plásticas”, reconhece a directora. 

Para satisfazer a procura, o hospital precisa de pelo menos 14 médicos intensivistas, igual número de pediatras, oito cirurgiões plásticos, dois ortopedistas, sete anestesistas, dois nefrologistas e dois pneumologistas. Lídia Dembi defende a necessidade de enquadramento urgente desses especialistas, porque, além das queimaduras, os pacientes sofrem de outras patologias.

Segundo a responsável, o hospital atende pacientes com células falciforme, grávidas, com HIV, diabéticos, hipertensos, e com Covid-19, que necessitam do acompanhamento de outros especialistas. "Seria bom que houvesse um aumento de todos especialistas que intervêm directamente na estabilização do paciente queimado, porque o doente queimado necessita de uma assistência multidisciplinar. Não basta só tratar as queimaduras, vários órgãos podem ficar comprometidos”, expôs. 

A unidade sanitária conta com um total de 155 enfermeiros. Apesar de no ano passado terem sido admitidos 20, o hospital continua a necessitar de muito mais, porque este ano mais de 20 técnicos de enfermagem irão à reforma.   
O Hospital dos Queimados é de carácter provincial, mas atende, todos os dias, pacientes oriundos de várias localidades do país. Sobre o assunto, Lídia Dembi disse que esta unidade de saúde "tem uma missão importantíssima a nível nacional, daí a grande necessidade de ser bem servida em termos de profissionais”.

Alexa Sonhi

Jornalista

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