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Moçambique: Padre e investigador alerta para recrutamento de crianças pelos insurgentes.

Latifo Fonseca, padre da Diocese de Pemba, em Cabo Delgado, alertou em entrevista à Lusa para os indícios de recrutamento de crianças por parte dos grupos insurgentes que atormentam a região norte de Moçambique.

07/04/2021  Última atualização 15H05
© Fotografia por: DR
"Algumas pessoas que foram aos acampamentos de insurgentes encontraram crianças", referiu o missionário e investigador do Instituto de Estudos Sociais e Económicos (IESE) moçambicano, de acordo com relatos que ouviu de quem já foi raptado pelos grupos armados e conseguiu fugir.

As descrições alinham-se com outras de mães cujos filhos desapareceram durante a investida de insurgentes contra as aldeias da região.
"Temos medo de que estejam a usar essas crianças", a entrar na idade da adolescência, doutrinando-as em práticas extremistas e de violência armada, tirando partido das suas "habilidades e inteligência fresca", disse.

A partir dos relatos recolhidos, Latifo Fonseca alertou que parece existir uma estratégia geral de recrutamento em que os novos insurgentes passam por diferentes acampamentos e realizam treinos que podem durar até dois anos.
"Achamos que as crianças também possam ser instrumentalizadas", neste processo.
Ao padre Latifo Fonseca já foi feito o apelo por parte de quem esteve na linha da frente, alertando para a necessidade de se pensar não só nos deslocados, que estão em Pemba, mas também nas crianças e adolescentes que estão nas bases de insurgentes.

O investigador disse que é necessário "pensar em como resgatar" estas crianças e adolescentes, ponderando que é necessário começar por recolher informação sobre os esconderijos dos grupos armados.
"Nem todos aqueles [que lá estão] são culpados, muitos foram raptados", sublinhou.
"Devem ser muitas crianças porque há muitas mães a chorar pelo desaparecimento [delas]. Há muitas mães que se queixam", contou.

Latifo Fonseca referiu também que podem haver menores a ser utilizados "como espiões".
"No dia-a-dia pensarmos que estão a vender amendoins" pelas ruas das cidades e vilas, mas "são aqueles que têm informações", exemplificou.
Ao mesmo tempo, o rapto de raparigas surge associado a casamentos forçados com membros dos grupos armados. O risco que se afigura para o futuro social da região é de que as crianças "poderão voltar mais extremistas".

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