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O custo para ver de perto as Quedas de Kalandula

O verde das plantas que lhes cobre e a fumaça aspirada pelas correntezas das suas águas podem ser vistas ainda a quilómetros de distância, a partir de uma das curvas da estrada que lhes dá acesso.

20/12/2020  Última atualização 21H15
Quedas de Kalandula constituem o cartão postal de Malanje © Fotografia por: Santos Pedro| Edições Novembro
A sua grandeza justifica. São as segundas maiores e mais espectaculares quedas de água de África, superadas apenas pelas de Vitória, localizadas no rio Zambeze, na fronteira entre a Zâmbia e o Zimbabwe.
Situadas no município de Kalandula, em Malanje – daí o seu nome – as Quedas medem 410 metros de extensão, 105 de altura, distam 80 quilómetros da cidade de Malanje e 420 de Luanda.

As suas águas cantantes são-lhes emprestadas pelo rio Lucala, o mais importante afluente do Kwanza, na bacia com o mesmo nome.
A curiosidade de visitar aquela beleza natural do país bateu a porta da equipa de reportagem do Jornal de Angola numa manhã aprazível. A missão que a havia levado àquela província do Norte do país já tinha terminado. Não se queria cometer o erro descrito pelo adágio popular, segundo o qual "não se deve ir a Roma sem ver o Papa”. As quedas de Kalandula constituem o cartão postal de Malanje e fazem, igualmente, parte das Sete Maravilhas Naturais de Angola.

A via que leva àquele símbolo turístico do país é acolhedora. Não regista presença dos seus inimigos: os buracos. A viagem é feita de forma tranquila. O clima tropical de savana empresta à viagem um ambiente agradável. Ao longo da via é notória a marca e a força da população local: a agricultura. Várias famílias expõem, para quem por aí passa, para venda, o que conseguem produzir da terra.

Os produtos variam desde alho, milho assado e mandioca. O nosso fotógrafo, Santos Pedro, não resistiu. Forçou logo uma vírgula na viagem para comprar uma tigela de alho. Disse não ter hesitado, porque o preço feito para aquele produto, ali, não se compara, de longe, com o que é feito em Luanda. Por cerca de um quilo e meio de alho fresco, pagou apenas mil Kwanzas. "Se fosse em Luanda, gastaria mais do que isso”, sublinhou, com um sorriso nos lábios. A província de Malanje é essencialmente agrícola.

Mal retomamos a viagem, outra paragem. Dessa vez, sem a intervenção de um dos integrantes da equipa de reportagem. Foi imposta pelos cabritos. À semelhança do que se verifica em várias estradas do interior do país, aqui, os animais também fazem da estrada o melhor lugar para descansar e para dar umas voltas. A presença deles na estrada funciona, em muitos casos, como quebra-molas. O motorista é obrigado a reduzir a marcha, para evitar o atropelamento.

Em alguns troços, os cabritos levantam-se voluntariamente tão logo se apercebem da presença de uma viatura. O mesmo não se pode dizer de outras paragens, onde os animais mostram não se importar com o aproximar de um carro. É a pura manifestação do seu estado irracional. Não fazem ideia do perigo. Nestes casos, o motorista é obrigado a recorrer à buzina.

Feitos os quilómetros que se impunham, finalmente na sede municipal de Kalandula. Sem grandes movimentações de pessoas, provavelmente por causa da pandemia da Covid-19 ou pelo facto de as pessoas terem ido às lavras, a localidade é organizada e higiénica. O serviço de Multicaixa, aqui, funciona. Não falta dinheiro. Mas há um problema. A inexistência de serviços, como de restauração, na zona onde estão localizadas as Quedas. Em caso de sede, não há, sequer, um lugar onde o turista passa comprar uma água ou um refrigerante. Há umas estruturas metálicas inacabadas ao lado, que, segundo relatos de locais, seriam restaurantes, mas o projecto ficou parado alegadamente porque o seu proprietário desrespeitou uma das regras impostas localmente para se abrir um empreendimento. Essa regra, contam os habitantes, passa por dar a conhecer o projecto ao soba.

Outro erro está relacionado com o dinheiro arrecadado com o turismo nas Quedas de Kalandula.
O lugar está, praticamente, entregue à sua  sorte. A ausência de um serviço de guia turístico no local, afecto à administração, leva dois jovens, com idades compreendidas entre os 20 e 22 anos, a preencherem o vazio. Os jovens, que dizem actuar, supostamente, a mando do soba, não estipulam um valor para o serviço que prestam aos visitantes. Recebem o que os turistas dão. Apesar de não disporem de formação para fazer aquele trabalho, os mesmos são detentores de conhecimentos sobre as Quedas que chega a impressionar. Mas há um problema. Por falta de formação, as informações que prestam aos turistas, em alguns momentos, misturam a ciência com mitologia.

Armadilha de dinheiro

No primeiro contacto com os visitantes, sobretudo com os que se deslocam pela primeira vez àquele lugar, os jovens apresentam-se como bons samaritanos. Usando a capa de bem educados, começam logo por desejar as boas-vindas aos turistas. Esse gesto é seguido do anúncio da regra, supostamente, da casa: "Estamos aqui em nome do soba. Ninguém deve visitar as Quedas sem a nossa permissão e muito menos sem ser guiado por nós”. É impossível passar por cima dessa máxima.

Uma história sobre o local, envolvendo feitiço, é contada aos visitantes, provavelmente com o objectivo de os coagir a cumprir, escrupulosamente, o que eles determinam. Segundo os mesmos, um cidadão de nacionalidade chinesa desapareceu misteriosamente depois de visitar as Quedas sem observar aquelas regras. "Não se sabe, até hoje, o que se passou com ele”, conta um deles, com o semblante muito sério. Essa história provocou pavor a alguns membros da equipa de reportagem, mas, por já se encontrarem no local e ávidos por conhecerem as famosas Quedas de Kalandula, não arredaram pé. O roteiro estipulado pelos guias turísticos, para conhecer aquele monstro do turismo angolano, começou com a visita às Quedas a partir do Miradouro, uma área criada para aquele fim.

A partir daqui, consegue-se vislumbrar as águas do rio Lucala a transbordar os limites daquela gigantesca montanha e ouvir o som emitido pelas águas. É a partir deste ponto que alguns visitantes fazem as fotos de lembrança. Ao notarem a nossa admiração pela beleza das Quedas, os guias turísticos decidem lançar uma isca: "há um outro ponto através do qual vocês podem ver bem mais de perto as Quedas”. Achamos a ideia interessante. Aceitamos.

O caminho para lá é uma picada ladeada de muito capim. Depois de alguns metros de caminhada, os jovens pedem para parar. Atingimos o ponto onde se pega o caminho que dá acesso ao lugar, através do qual as Quedas podem ser vistas bem mais de perto. Essa via é uma inclinação bastante acentuada e passa por uma mata cerrada. Ao chegarmos aqui, os jovens fazem alguns alertas. "Só pode descer quem não sofre de problemas respiratórios e quem não tenha, também, a intenção de fazer mal a alguém”. De acordo com os mesmos, pessoas nessas condições já não voltam a subir.

Essa informação deixou cada um de nós assustado, mas não abalou a nossa vontade de conhecer de perto uma das Sete Maravilhas de Angola. "Não há problema. Estamos bem”, respondemos. Passar por este caminho exige muita prudência. Um mínimo deslize é suficiente para ser projectado lá para baixo. Um dos guias fazia-se acompanhar de um pau, que, inicialmente, parecia não ter valor.
A dado momento, até o ofereceu a um de nós, mas foi rejeitado. A caminhada era preenchida com histórias hilariantes de turistas que por aí já passaram, contadas pelos guias. Enquanto nos entretínhamos com as histórias, somos surpreendidos com mais uma paragem. Dessa vez, ao lado de uma grande árvore que tem gravada numa das suas partes o valor de 20 mil Kwanzas.

Segundo os guias turísticos, aquele é o valor estipulado pelo soba para quem visita as Quedas de Kalandula, usando aquele caminho. "Este é o valor usado pelo soba para fazer o ritual que garante a segurança dos turistas”, esclareceu um dos jovens.
O não pagamento deste dinheiro, prosseguiu, pode dar lugar a uma desgraça. A informação sobre o pagamento desse valor não é passada aos turistas antes de se chegar a este lugar.

É praticamente uma armadilha usada para se arrancar, a qualquer custo, dinheiro aos turistas. Se essa informação é passada antes de se chegar àquele sitio, o turista tem a possibilidade de decidir se aceita ou não fazer o percurso para ver as Quedas de perto.
A omissão dessa informação chega a provocar, em alguns casos, fortes constrangimentos, sobretudo se o turista não se fizer acompanhar daquele dinheiro. Foi o que aconteceu connosco. Descemos complementaste desprevenidos. Só tínhamos preparado o dinheiro para pagar pelo serviço de guia.

Os jovens são incompreensíveis nessas situações. Exigem o pagamento do montante, com o pretexto de que é uma ordem do Soba que não deve ser desrespeitada. Tivemos que fazer das tripas coração para pagar, pelo menos, 50 por cento daquele dinheiro, além do que já havíamos pago pelo serviço de guia. Depois de visitar, demoradamente, de perto, as Quedas de Kalandula e sentir no corpo a frescura e as gotas de água soltas pelas Quedas, chegou o momento de regressar ao topo da montanha. Este é um desafio que não se recomenda a todos, sobretudo, como alertaram os jovens, a quem sofre de problemas respiratórios. É um verdadeiro escalar de montanha.

O pau levado por um dos jovens guia, que inicialmente parecia não ter valor, afinal, era um grande suporte para aquela empreitada. À saída daquele lugar, um ritual deve ser cumprido. Cada turista que por aí passa deve colocar por cima de uma pedra uma folha fresca de uma planta local. 

César Esteves

Jornalista

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