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O exemplo da ministra

A ministra das Finanças fez, à revista britânica “The Economist”, afirmações que revelam alguém frontal, conhecedora da realidade política mundial, o que já não era pouco, e a História recente angolana, o que vai sendo raro.

25/02/2021  Última atualização 12H29
Vera Daves, apesar de jovem, revelou, a juntar aos conhecimentos profissionais - merecedores de elogios da própria revista - eloquência, asserção nas resposta sem recurso a floreados de linguagem, quase sempre denunciadores de quem não sabe e quer fingir o contrário. À pergunta - para muitos certamente embaraçosa -, se o MPLA ainda é marxista, respondeu: "Nos nossos corações, sim, na realidade, não”.  Apetece escrever : "tiro e queda”.  Pessoalmente, pagava para ver a cara do entrevistador.

Vera Daves, ao dar aquela resposta, tal como todas as outras que lhe foram feitas, justificou a escolha do cargo que ocupa, honrou o Governo do qual faz parte, encheu de orgulho muitos de nós, independentemente de ideologias políticas, credos religiosos, locais de nascimento, idades. Claro, que, pelas mesmas razões, pode ser alvo de críticas. Por despeito, oportunismo ou ignorância,  mais nada.
Vera Daves é jovem, mas não é por isso, nem, por ser mulher que é competente e  tem conhecimentos da nossa História. Idade e género, por si só, não dão competências, como se comprova facilmente,  em novos e velhos.

O marxismo, entre nós, é palavra em desuso, que ganhou carga pejorativa, insultuosa, que parece queimar lábios. De tal modo que mesmo entre profissionais de classes, nas quais era forma de tratamento corrente, mesmo na época da ocupação fascista - militares e jornalistas - até pelos apaniguados do regime salazarista, passámos a ser todos "colegas”.
Muitos dos que naquele tempo eram - ou diziam ser - marxistas deixaram de o ser. Quantos militantes do próprio MPLA se tratam agora por camaradas? É mais vulgar ouvi-los tratarem-se por "colegas”. Faltou-lhes ouvir o Velho Antero Gonçalves.

O Velho, anarco-sindicalista,  preso em Portugal, de onde foi desterrado para Angola com outros camaradas de clandestinidade, jornalista desta casa, onde acabou por morrer, sozinho, no arquivo, quando ouvia algum novato, candidato à profissão, pronunciar a palavra "colega”, gritava-lhes que isso era tratamento de prostitutas. Era das poucas manifestações que tinha, a juntar à gravata, sempre preta, com o nó como se fosse de barbante de vulgar embrulho.

Parêntese fechado sobre a breve referência ao Velho e saudosos anarco-sindicalista, volte-se ao marxismo, à sombra do qual se cometeram - e cometem - as maiores atrocidades e fazem fortunas incalculáveis. Todas as experiências tentadas foram esmagadas pela força das armas ou embargos tão criminosos como bombardeamentos.

O criador do marxismo -Karl Marx -, licenciado em Direito,  morreu sem ter terminado de escrever  "O Capital”, a teorização escrita dos seus pensamentos, concluído por Friedrich Engels, camarada de sonhos, filho do proprietário de uma tipografia, que lhe dava periodicamente dinheiro  e comida para ele e a família sobreviverem em tugúrios. Nos últimos anos de vida, nenhum jornal lhe aceitava textos.

O marxismo nunca foi posto em prática o tempo suficiente para ser experimentado e avaliado. Ao longo de décadas foi utilizado como arma para assustar povos. O êxito da social democracia,  nas mais formas de apresentação, dos liberalismos todos, democracias cristãs, quantas vezes servidas por fabricantes e vendedores de armas, continuam a servir-se  dele para amedrontar e chantagear povos.
Veras Daves lembrou-o, fez lembrá-lo  e explicou, de modo sucinto, sem procurar refúgios em discursos floreados de nada dizer,  por qual motivo há ideias que se guardam - não se escondem, sequer se deitam fora - no coração . Concorde-se ou não com ela, atente-se no exemplo que nos deu.

Luciano Rocha

Jornalista

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