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O regresso da América depois da tempestade

A tomada de posse de Joe Biden como 46º inquilino da Casa Branca, na quarta-feira, um acontecimento que deveria ocorrer dentro da normalidade que marcou outras transições de poder, teve todos os ingredientes para se considerar um momento histórico para os Estados Unidos da América.

22/01/2021  Última atualização 08H15
Donald Trump decidiu não comparecer à cerimónia de empossamento do seu sucessor. Depois de toda a turbulência à volta dos resultados eleitorais por si gerada, que teve como corolário a invasão do Capitólio, por parte dos seus apoiantes, era de esperar que, ainda que contrariado, Trump marcasse presença no acto que assinalou a entrada em cena de Joe Biden. Transmitiria para toda a América, com esse gesto, um sinal de paz, de respeito pela democracia e pelas instituições do país, seria um contributo para a pacificação dos espíritos.
O Presidente cessante mandou tudo isso às urtigas e preferiu ficar no seu reduto, no seu casulo impregnado do conservadorismo mais abjecto, o que acentua as suas responsabilidades por tudo quanto de mau aconteceu nos últimos dias em Washington DC, numa tentativa inglória de impedir o Congresso de certificar a vitória do adversário. Trump não é, entretanto, na história dos Estados Unidos, o primeiro Presidente a recusar-se a comparecer na tomada de posse do sucessor. O ataque ao Capitólio, por si incentivado, foi um duro golpe para a democracia americana, atraindo toda a atenção do mundo. 

Apesar de ter deixado uma carta "muito generosa” ao novo Presidente, é pelos antecedentes, pelos factos e sinais que têm visibilidade pública, que o mundo o julga. Ficou evidente que, se estivesse efectivamente ao seu alcance, Donald Trump não hesitaria em comportar-se como qualquer um ditador de triste memória. Por isso, sai de cena batendo com a porta, deixando um recado nas redes sociais: "o que demos início está apenas a começar…” E é por aqui que os analistas conjecturam o seu futuro político, nomeadamente, a possibilidade de voltar a candidatar-se para as próximas eleições presidenciais. Até lá, muita coisa vai acontecer… 

Enquanto isso, Joe Biden tem a tarefa de reunir os cacos em que a América se transformou. Fez um apelo ao espírito de unidade e confiança na democracia. Herda um país profundamente dividido, deixado por um Presidente de má memória. Dentro e fora dos Estados Unidos. O facto de a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, ter descrito a tomada de posse de Joe Biden como uma "nova madrugada” para os Estados Unidos, como o dia que a Europa "esperava há muito tempo” e que, depois de "quatro longos anos”, a União Europeia voltou a ter "um amigo na Casa Branca”, é uma forma muito expressiva de manifestar o desencanto que foi lidar com Donald Trump. Um tom a que não fugiu a maioria dos líderes europeus, que saudaram Joe Biden como o 46º Presidente dos Estados Unidos.

No plano dos propósitos e das expectativas, Biden encarna a proposta de uma nova arquitectura de valores políticos para a América. A escolha de Kamala Harris, para a vice-presidência, que se tornou assim a primeira mulher e a primeira pessoa negra e filha de imigrantes a ocupar o cargo, é outro dado histórico que abre as portas para uma revolução de mentalidades que os Estados Unidos precisam de conhecer. Um objectivo que não é, obviamente, alcançável num mandato de quatro anos, sabendo como o racismo está impregnado na sociedade norte-americana e que, sob a Administração Trump, foi exacerbado, abrindo novas feridas, num país onde o assunto tem raízes históricas, e fazendo renascer o ódio e a angústia dos tempos em que a democracia caminhava amputada, já que as minorias não contavam ou contavam muito pouco. 

Biden e Kama Harris já começaram a trabalhar para a construção de uma nova realidade, conscientes de que muito trabalho há pela frente e que não há tempo a perder. A dinâmica com que fizerem acontecer as coisas vai ser determinante para, no final do mandato de quatro anos, poderem fazer um balanço positivo e estarem confiantes na reeleição. 

O regresso ao Acordo de Paris, à Organização Mundial da Saúde (OMS), a revogação do decreto que anulava a protecção dos imigrantes que chegaram ainda menores aos Estados Unidos, a suspensão da construção do muro na fronteira com o México, entre outras medidas, restabelecem o prestígio de uma América, comprometida com a luta contra as alterações climáticas, parceira no combate às enfermidades que apoquentam o mundo e o sonho de "terra de acolhimento e de refúgio”. 

Trump e os seus apoiantes prometem não baixar a guarda. A desarticulação daquilo que acabou por ter todas as evidências de uma estrutura paralela às instituições oficiais, num país onde a posse e porte de armas é legal e onde um número significativo de agentes de raça branca da Polícia é propenso a cometer as mais diversas barbaridades contra pessoas de cor, é - a par do combate à pandemia - dos desafios que mais energia vai requerer. A  América parece renascer das cinzas de uma guerra. Não houve terçar armas, mas o espírito destes dias é o de sarar as feridas que uma guerra provocou…

Filomeno Manaças

Jornalista

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