Opinião

O ultraje que impediu a formação

No ambiente de elevada carência característica da época, (fins dos anos 70 e princípio dos de 80), do século XX, Faz Tudo a Canivete, nosso contemporâneo, foi contemplado com uma bolsa de estudo para a República de Cuba, a fim de se formar em Medicina, área do saber em que todas as famílias gostariam de ter um membro.

21/11/2020  Última atualização 10H35
Com alguma saudade - e porquê não mesmo saudosismo (?)-, recordamos que, na altura, a solidariedade, o respeito e outros bons valores socioculturais qualificavam a vivência das pessoas, se calhar, resquícios dos ideais do processo de Luta de Libertação Nacional, enquanto marco de união dos angolanos num desejo só.Neste pensamento, a alegria da família tornou-se propriedade colectiva da comunidade, que já sonhava com o regresso do Doutor Faz Tudo a Canivete, de estetoscópio ao pescoço, bata branca, claro, motivo jubiloso para a família e não só, não fosse a Medicina tão nobre e sacerdotal profissão-missão.
Porém, o sonho não se concretizou em função de um profundo deslize do nosso "kamba”, que na condição de caloiro, deixou-se influenciar por um grupo de compatriotas que por lá encontrou, algo já tarimbado no consumo de bebidas alcoólicas, factor determinante para a interrupção do sonho de Faz Tudo a Canivete.Depois de ingerir uma boa dose de copos, de regresso ao complexo estudantil, aos tombos, Canivete desatou a pintar em preto a estátua de José Marti, que se encontrava bem ao centro da parada que servia de local das tradicionais aulas de Educação Patriótica, veículo de transmissão de ensinamentos de respeito aos símbolos nacionais e outros sagrados valores soberanos dos Estados.

Apanhado em flagrante, as autoridades cubanas, sem pestanejar, decidiram devolver à procedência o nosso compatriota, apenas com a roupa do corpo e, se mais trouxe, nada foi para lá da frustração do sonho dos pais, da família e dos amigos.Daí em diante, os progenitores de Faz Tudo a Canivete nunca mais gozaram de boa saúde, até ao dia que Deus os chamou para outra dimensão da vida. Como se diz no linguajar do bairro, morreram de desgosto, - e outros acrescentaram -, por culpa do desrespeito a um símbolo da revolução cubana.

Confessamos, por conta do narrado episódio, na altura, procurámos saber mais sobre a revolução cubana, concluindo que José Marti (José JuliánMartí Pérez) está para o povo cubano o que  Agostinho Neto está para os angolanos, nem que seja apenas pela participação dos mesmos nos processos de libertação de suas pátrias.Respeitados pelo idealismo e estilo vigoroso como abordaram os contornos da revolução nos seus países, faz todo sentido que os mesmos se tornassem os mais conhecidos nos círculos intelectuais das suas épocas e, por meritocracia, constituírem-se em símbolos nacionais.

Enquanto ciência, a História que não se apaga, sempre que necessário, se encarregará de recordar as inúmeras razões e acções por via das quais os referidos ícones doaram-se às pátrias, e pelos seus povos deve(m)rão ser eternamente honrados e respeitados, sendo condenável qualquer tendência de ultraje aos seus feitos e bom-nome.Pelo acima exposto, deploramos os actos de incitação ao desrespeito aos símbolos da soberania angolana, práticas que, ampliadas no (des)conforto das redes sociais, pretendem transmitir o sentimento de anulação da Independência Nacional, conquistada a troco do derrame do sangue de muitos dos melhores filhos de Angola.

Em síntese, nada ganha Angola nem os angolanos, com a adopção de condutas de ultraje com que alguns cidadãos decidiram pautar a abordagem dos assuntos da política doméstica, diga-se de passagem, longe da recomendada observação da tolerância e sã convivência, que também se reflectem no respeito aos símbolos nacionais.Por razões gráficas deste exercício, não temos espaço para levantar a questão em torno do artigo 333 do novo Código Penal angolano, que na nossa perspectiva pode ser entendida como a tentativa de reforçar o respeito por um símbolo de soberania, no quadro do princípio da característica abstracta associada às normas jurídicas.

Carlos Calongo

Jornalista

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