Opinião

O vírus discriminatório

O vírus, causa da actual pandemia, que chegou a ser considerado “democrata”, por atacar indiscriminadamente milionários e indigentes, afinal não é tanto assim, não por não querer, mas pelas desiguais capacidades de defesa das vítimas.

21/01/2021  Última atualização 07H20
O vírus, cujo nome continua a ocupar os principais espaços dos órgão de comunicação social de todo o mundo, permanece invisível a olho nu, logo da esmagadora maioria das potenciais vítimas, incluindo algumas das que estoicamente o enfrentam nas primeiras linhas desta guerra sem fim à vista, com a qual desafia a humanidade em constantes golpes mortais.
Tal e qual experimentado estratega militar, tem recuos a tentar desprevenir as vítimas para, após brevíssimas pausas, reinvestir, cada vez com mais ferocidade. É aqui que se revela discriminatório, atingindo os mais indefesos, aqueles que são obrigados a enfrentá-lo com rudimentar armamento ou mesmo nenhum, por terem a desdita de pisarem caminhos onde ele se sente mais à-vontade, os da imundície, para onde foram - e continuam a ser - enxotados em nome do progresso.

O cenário não é de hoje, vem de muito longe, dos séculos das ocupações e não mais parou. Quando ganhámos - ninguém nos deu nada - direito a uma Bandeira e a um Hino, símbolos máximos de um povo, que têm de ser honrados, sob o risco de jamais sermos autenticamente independentes, houve quem quisesse fazer da Pátria de todos, quinta própria a dividir por restritas castas privilegiadas. E o novo-riquismo próprio de uma nova burguesia inculta explodiu, com os resultados conhecidos. O país ficou mais pobre e tem mais pobres e os mais pobres apenas não ficaram mais por ser impossível. Todos eles são vítimas vulneráveis, especialmente os que nem água têm para se lavar, quanto mais para beber, sequer comida que não sejam os restos postos nos contentores. Enganam o sono em passeios esburacos e sujos, vãos de escadas, prédios abandonados, em cubícos feitos de tábuas e pedaços de plástico; de qualquer beco a céu aberto fazem latrinas. Pedir-lhes que lavem as mãos com frequência é pedir-lhes o impossível. Enquanto isto, os ricos, os multimilionários, que lhes criaram estas condições de vida - ou de morte? - habitam vivendas desinfectadas ao milímetro, armários a abarrotar de vitaminas, comprimidos e xaropes que tomam ao mínimo sintoma de febre, constipação, indisposição de vinhos caros, tem medidores de temperatura, "médico às ordens”, comem - se quiserem e souberem - o que devem comer. Estes são os que estão cá dentro porque não ter conseguido pôr-se ao fresco ou tiveram medo. Os que conseguiram escapulir-se, levam a mesma vida dos comparsas que deixaram entre fronteiras, mas de forma mais ousada e viajam. Os protagonistas destes dois casos não estão livres que o vírus invisível, sem cor, nem cheiro os visite na cama, na rua, mas mais facilmente ele ataca os desguarnecidos da sorte.

Aos desprotegidos da sorte resta-lhes, aos que ainda a conservam, a esperança de se lembrarem que eles existem, são pessoas, compatriotas nossos, precisam de comer e beber água desinfectada todos os dias, tomarem banho, lavarem as mãos frequentemente, vestir, falem com eles, lhes apontem caminhos para se refazerem. levantarem da imundice para onde os atiraram. Ah!, também há as meninas e meninos a viver na rua. Também elas não podem continuar esquecidas. Fazer isso, é hipotecar o futuro da Nação, insultar a memória de quantos tombaram nos campos de batalha ou aprisionaram a liberdade nos campos de concentração, nas cadeias.

Nesta hora de enfrentar inimigo - tão perigoso como não há memória por não se dar por ele a não ser quando nos ataca - é altura de esquecermos diferenças politicas, religiosas, sociais, todas as outras que nos podem separar e darmo-nos as mãos na defesa do bem comum. Acima de tudo, não ignorarmos os mais vulneráveis, expostos às doenças. Mesmo que uns quantos julguem que não, são angolanos. Não recebemos compatriotas que estão no estrangeiro e querem regressar? Então, estes estão ao lado de nós e cada olhar deles é um apelo que não pode ser recusado, um bofetada na indiferença. Salvemo-los da discriminação.

Luciano Rocha

Jornalista

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