Opinião

Os debates poderão ser decisivos para esclarecer o eleitor

Como em vários temas da vida política, há, para o bem e para o mal, um efeito de contágio entre a realidade portuguesa e a angolana.

11/01/2021  Última atualização 14H41
Nos últimos dias, realizaram-se na mídia portuguesa quinze debates frente a frente entre os seis principais candidatos a Presidente da República. Os programas repartiram-se por todas as televisões e durante uma semana dominaram a atenção dos portugueses e estrangeiros, como nós.

Nas nossas últimas eleições gerais, praticamente não tivemos debates. A oposição contestou isso, mas também não fez muito alarido. O partido no poder simplesmente não deu cavado.

É pouco crível que para as eleições de 2022 as coisas se passem do mesmo modo. As circunstancias são totalmente diferentes, a começar do facto de termos hoje um crescimento da UNITA e uma necessidade do partido no poder bater-se pela defesa do lugar. Hoje, todos sabem que as eleições não serão favas contadas para ninguém e, nestas condições uma "política de cadeira vazia” prejudicará os ausentes.

Acresce-se a isso o facto dos tempos de antena dos concorrentes se terem revelado na altura um fracasso. Depois do impacto inicial, o interesse caiu grandemente por causa do desnível das abordagens entre as candidaturas; qualidade técnica dos audiovisuais e do conteúdo dos programas de governação. Basicamente, o que as últimas eleições nos disseram é que os tempos de antena não traziam informação nem atractividade bastantes para esgotar a expectativa que as pessoas tinham de mudar ou consolidar a sua opinião sobre os concorrentes.

Em favor da ideia da inevitabilidade dos debates em 2022, queremos juntar mais três ideias: Em primeiro lugar, o facto de ter crescido na nossa sociedade o pensamento crítico, o que aumenta o número de bolsas de opinião divergente e a necessidade do debate. Em segundo, a longevidade da pré-campanha, que praticamente já começou. O desgaste dos temas, o facto de estarmos a viver a pandemia, vai dificultar as campanhas de rua e os banhos de multidão, deixando o "confronto” para a mídia.

Em terceiro lugar o facto de terem aparecido mais rádios e uma massificação das redes sociais, o que abre também um novo mercado mediático que pede por ser alimentado com informação geralmente produzida em debates como as picardias, gaffes, provocações e insultos entre os candidatos. Os noticiários necessitam dessa nova realidade informativa para resumos para ajudar quem assistiu a formar a opinião e quem não assistiu a ficar informado.

Na situação económica do país (aumento da pobreza, do desemprego e acentuada queda do poder de compra), estão criadas as condições políticas para o aparecimento de candidatos de boa conversa e "sábias” soluções milagrosas. É nesse contexto que o debate deve permitir um confronto de ideias a partir do qual o eleitor possa buscar informações correctas sobre os candidatos, analisar se as propostas são viáveis e formar opinião sobre as tais propostas de solução.

Os debates poderão ser decisivos para esclarecer o eleitor que queira exercer o voto consciente e poderão ser também um meio para trazer a público assuntos impopulares, que muitos candidatos procuram evitar nas campanhas. Ora, aí não há tabus e temas proibidos.
Um elemento psicológico de avaliação dos candidatos é a experiência do debate que permite ao eleitor comparar e avaliar o comportamento dos candidatos sob pressão.

Mas o debate também pode responsabilizar o eleitor. A tendência dos processos democráticos de hoje marcados pelo fake news e pelo marketing digital agressivo "elege qualquer um”, desde que faça promessas e se mostre anti-sistema. Ora, o debate é um dos últimos redutos onde, muitas vezes, alguns desses candidatos milagreiros e fala-baratos são desmascarados ou, também acontece, consolidam os seus projectos. Cabe ao eleitor escolher e escrutinar a posição de cada um sobre temas estruturantes da vida dos cidadãos, oferecendo a possibilidade de cada candidato explicar como pretende "solucionar” os principais e mais doloridos problemas.

Convém precisar que quando falamos de debates é disso mesmo que queremos referir e não de entrevistas colectivas.
O espaço em que estão todos os concorrentes representados e são dirigidas perguntas a cada um deles é um exercício maçante e ente diante que não produz nem boa discussão nem esclarece nada.

Somos, como na realidade portuguesa destes dias, favoráveis a debates "one to one” entre todos, para permitir aos candidatos demarcarem as suas diferenças e realçar a boa vontade das suas propostas.
Como sempre, se quiser que isso aconteça em 2022, teremos desde já fazer a devida pressão pública para que os partidos se comprometam a realizar debates, incluindo, se necessário, um regulamento ao nível da CNE.

Ismael Mateus

Jornalista

Comentários

Seja o primeiro a comentar esta notícia!

Comente

Faça login para introduzir o seu comentário.

Login

Mundo

Opinião

Política