Opinião

Os retratos e o mau gosto

O retrato artístico é um género das artes visuais e plásticas, susceptível de ser tratado, por exemplo, em pintura, em escultura ou na fotografia, entre outras manifestações da arte, com as suas especificidades: o conhecimento do modelo a retratar, a sua história e a sua personalidade, o seu gosto e o seu perfil emocional e psicológico, incluindo o que eles representam deve estar no centro da obra.

06/04/2021  Última atualização 08H07
Um retrato artístico é um exercício que pelas suas características e pelo seu simbolismo tende a ser complexo e se for de uma personagem histórica supõe uma série de dificuldades acrescidas. Ele obedece a certas regras para poder ter relevância: a posição em que o retratado aparece na tela, os objectos que aparecem com ele, o lugar em que ele se encontra ou a indumentária que ele utiliza estabelecem uma ordem simbólica determinada e geram uma série de significados.    

Estas regras não foram respeitadas e aparecem baralhadas no caso de "As Muataas”, - exposição de vinte pinturas, "pretensos retratos” - de reconhecidas mulheres, que são personalidades"distintas e admiradas”da história de Angola e da sociedade angolana actual -, um projecto da autoria e organização de Isilda Alves Coelho (Luanda, 1966), com pinturas feitas de Modesto Mamba (Uíge, 1971), desenhos de Evan Claver (Luanda, 1987) e Mara Hurst (Lisboa, 1994), incluindo a curadoria de Abreu Paxe e que, neste momento, está patente na Casa das Artes, em Talatona (Luanda).
Inserida num projecto muito mais vasto, - o leitor pode consultar online as 108 páginas do seu catálogo -, a ideia do mesmoé óptima e até, digamos, politicamente correcta, já que o objectivo seria o de apresentar de um modo digno, elevado e belo um retrato de cada uma das mulheres ali representadas, numa homenagem enquadrada no âmbito das comemorações do recém-terminado mês de Março.

Na exposição "As Muataas”, para além da reminiscência em todas as pinturas do estilo daquele famoso retrato colonial da Rainha Njinga, o que vemos é:-Falta de conhecimento de anatomia humana havendo, em muitos casos, incoerências e a falta da proporção adequada entre as diferentes partes do torso das retratadas; -Falta de semelhanças (parecenças) entre a modelo a retratar e a imagem que vemos na tela, - por um lado, há sorrisos que ficam em rictus, personalidades rejuvenescidas "milagrosamente” pelo pintor e, por outro, há quem, pelo contrário, foi representada com tanta deselegância e imprecisão que mais parece um antepassado remoto seu.

E mais:- Uso sem critérios das figuras, das características dos fundos (paisagens) dos quadros e dos símbolos que acompanham as figuras, - como sublinhou em privado uma intelectual angolana que muito admiro -, podendo estes serem problemáticos: o caso mais flagrante é o de uma ex-Primeira Dama da República associada ao Museu da Escravatura, imagem que pode provocar associações e interpretações indesejáveis; - Falta de limpeza, cuidados de conservação – molduras carcomidas, teias de aranha, entre outros.

É precisamente por todas estas características (e dislates) nos retratos da exposição que pensamos que, no momento de concebê-los e executá-los, o artista descambou para as opções estéticas de mau gosto, entendendo aqui como "ter bom gosto” a capacidade de identificar e definir, - para além do relativo e o subjectivo da problemática -, o que é belo do que não é, por ser feio e despropositado. Ter "mau gosto” é, então, o contrário: ser incapaz de distinguir uma coisa da outra.

Tudo isso acompanhado com uma folha de sala e de um catálogo com informação pouco rigorosa, conceitos errados e critérios de selecção incoerentes, incluindo o facto de ser muito discutível a inclusão de umas e a ausência de outras figuras.

O projecto "As Muataas” é um caso de ideia brilhante, oportuna e necessária que termina cristalizada num acto/exposição irresponsável: os desenhos de Evan Claver e de Mara Hurst contribuem a consolidar a percepção de que estamos em face de uma "brincadeira de muito mau gosto”, facto que torna ainda mais confusa a trapalhada que, ainda por cima, "põe no barulho”, quando não tem a cumplicidade, gente que apesar de ter uma vida cívica, profissional, politica e social activa, evita sobre exposições involuntárias.

À Casa das Artes, em Talatona - que tem vindo a fazer um serviço público de qualidade e prestigiante em prol da divulgação das manifestações das artes e da cultura-, aos autores de projectos e às instituições – públicas ou privadas- que os acolhem se exige um maior rigor, que procurem aconselhamento e expertise de qualidade para que os bons projectos sejam, também, bem concretizados.

Adriano Mixinge

Escritor e Jornalista

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