Opinião

Perfume de pão

Na Vila Alice tem uma padaria que vende do bom pão. Ao lado tem um barengue onde vão muitos dos grandes copofonistas da banda e mártires da solidão doméstca varrer da boa sopa, chouriço assado, dobradinha com feijão, carapau grelhado e outras iguarias de fazer inveja ao sultão do Barhein, porque lá tem dois finos de barril, um da loira e outro da cerveja preta que é uma coisa de encher o coração de paz e concórdia universal. Mas como disse, o meu tema hoje é o pão quente.

03/04/2021  Última atualização 06H10
O dono do estabelecimento, um kalu baixo e atarracado que, antes de nascer, já comia pão, às vezes passa por lá. Passadas de vigiar o kumbu e o suor do pessoal, entenda-se "comerás o pão com o suor do rosto do padeiro” que ajuda a salgar a massa, depois a alta temperatura mata todos os microorganismos, mesmo que forem da Covid-19.  Por isso é que o meu matabicho é mais banana pão assada com jinguba, torrada à minha feição, até ficar cor de mulata do bairro da Coreia, onde as mboas apanham sol até à raiz da carapinha que vavó deixou, canta sempre, canta, Teta Landu.

Hoje eu canto o pão quente. Que não deixo de comer, de quando em vez. Dizia eu que, sempre que o dono supervisita a padaria, nesses dias o pão é uma maravilha. Bem tostadinho na cor certa, bem divididinho ao meio que, só de o ver no saco plástico que o Rwanda já aboliu, você sai e vai ali ao lado numa kinguila de manteiga – e andam a contratar mestres para dar aulas de empreendedorismo! – já com o facalhómetro na banheira pra te pôr no miolo do pambulo e sais do passeio da padaria a trocadilhar a boca, até que um desses pobres da capital, bem sujo e sem máscara, estica a mão e quase te toca, Dá só pão, boss, e você dá-lhe o pão com manteiga.

Me lembro quando éramos kandengues e às vezes a velha nos dava no lanche da tarde, depois dum trumuno, uma chandula de rabo de lambula frito com azeite palma, e hoje que tudo está desvendado ficamos a saber que a sardinha é um dos melhores peixes porque tem Ómega 3. Porque inventaram a magoga, o hambúrguer, o pincho, o cachorro e outras porcarias com muita maionese e quetechupe, que te chupam o kumbu e colesterolizam o sangue? É pena! Já não há lambula à venda em Luanda, só sardinhas bem coxitas. O meu camarada Osvaldo Gonçalves redige as Crónicas da Lambula, mas aqui não há mais lambulas, mano, aquelas de sentar num luando e se lambuzar os beiços. Eu não como sardinha kapikena. Que os das Pescas, onde tem gente que estudou Oceanografia, me respondam onde é que foi parar a verdadeira lambula?

O pão quente é uma delícia que Deus só não desce outra vez à Terra como no tempo do Moisés, porque nós temos muito lixo bio-sintético e mental na cidade e o perfume angelical do pão quente não lhe chega às celestiais narinas. O pão quente me faz lembrar a delícia que deviam ser os serviços do Estado. Se não és grande e não tens um kapanga que te trata todos os mambos, e se vais a um ministério, a uma secretaria, a um banco e não levas fato e gravata, te dão côdeas de pão com bolor, ou não te dão mesmo nada, ninguém te liga, tipo você não existe sequer como cidadão. 

Há dias encontrei um amigo meu da terceira idade com medo de morrer sem ter a escritura da casa que comprou no ano das primeiras eleições. Vinha ele de mais uma andança no Instituto Nacional de Habitação. É um baile que estão lhe dar lá no tal de Cartório do Instituto que o homem só não chora, porque as lágrimas dele secaram de desilusão. Se o Estado fosse como o dono daquela padaria na Vila Alice, tenho certeza que nos serviria o bom pão quente do atendimento público. Quem sente na alma o perfume do pão quente, percebe a analogia.

José Luís Mendonça

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