Cultura

Por onde andas 2021?

Não sei se me escutas; se observas o meu reflexo no espelho ou se soletras a minha assinatura neste conjunto de palavras alinhadas abaixo do seu nariz. Não tenho a certeza se chegaste mesmo ou não...

28/02/2021  Última atualização 09H10
© Fotografia por: DR
E se chegaste? Chegaste novo, velho ou simplesmente moribundo como muitas almas nos leitos dos hospitais na terra da Kianda? Neste mundo vil e viril, enchi meus olhos com o ressuscitar de fantasmagóricas realidades. Por exemplo, Conheci um reino que durante décadas caminhou de patas para o ar, servindo os seus detractores. Mas, a propósito, não risco a minha assinatura neste contexto para contar histórias, mas sim para me comunicar com o maldito senhor de 365 dias. Eis-me aqui senhor ano corrente. De ti esperava dias novos, coloridos, mais vibrantes e saudáveis. Mas nem pareces ter aportado. O tempo está parado no caminho da vida. Na última lua do ano 2020, quando se anunciava sua chegada, em alegrias transbordantes, abraçamo-nos em kandandus calorosos. Debaixo dos tectos, nas areias douradas das praias meio desertas, nas festas secretas, houve júbilo que se fartava pelo mundo a fora. Faltou pouco para perguntar se pela janela da lua os astronautas também viram o bradar de almas noutras galáxias. Tudo pelo anunciar da tua chegada Senhor Ano 2021. Uma grande janela de esperança se abriu no horizonte. Mas eu, entre alegres almas, optei por deixar um dos meus pés no Ano 2020. Hoje, no limiar dos sessenta dias, não sei se chegaste mesmo ou não.

Na verdade Senhor Ano 2021, eu esperava ver-te chegar de traje novo à africana ou de kapulana, como dizem os nossos irmãos do Índico, descendentes de Ngungunhana. Mas mesmo que viesses de fato ocidental colorido ou indiano, não me aborrecerias. Hoje, quando giro os botões da rádio ou da  TV e prego em ti o olhar, tenho a arrepiante sensação da tua mais viva ausência. Vejo novamente o teu falecido irmão, o Senhor 2020, com pessoas mascaradas nos bancos, nas unidades militares e nos lugares públicos. O mundo regressa para o ano passado com seus confinamentos e outras medidas resultantes da pandemia que pariste ou testemunhaste chegar. Hoje, meu Senhor, por conta disso as saudações mais calorosas, os kandandus, quase todos dispensaram, como se tivéssemos comido juntos a maçã do pecado... Só falta deixarmos as mãos em casa, ninguém quer oferecer o abraço a outrem. Os guardas das instituições públicas e privadas, esses antigos combatentes que aguardam adormecidos pela reforma, continuam a manusear o termómetro, instrumento estritamente médico. Atrevidos, até aos médicos medem a temperatura. O mundo virou-nos às avessas. As noites adormecem mais cedo. A cidade, a velha cidade da kianda, está cada vez mais calada, silenciada, solitária. Alguns jovens, donos da noite, continuam assanhados. Senhor Ano 2021 onde estás para dizer que chegaste no primeiro amanhecer do primeiro mês do presente ano? Permita-me a honestidade, se é que aportaste aos dias de hoje, continuas igual ao teu irmão menor 2020. Nada mudou, pelo menos aqui, no quintal da kianda, nada mudou. Como dizia o poeta Drumond de Andrade  "o ano passado não passou”. O teu próprio irmão já havia entrado com pé esquerdo, que o digam os chineses. No quintal da Kianda os preços do pão, óleo, açúcar e outros produtos essenciais subiram em flecha. Tudo ficou mais difícil, até chegar às prateleiras de um supermercado como o Kero ou Jumbo, para comprar um quilo de arroz ou de massa importado de países mais pobres que o nosso.

Senhor Ano 2021, a cidade da Kianda continua com cerca sanitária. Não há ligações directas com outras províncias. Entendo a preocupação do man João. O teste da Covid-19 é a chave da fronteira. Os mais espertos já transformam em gasosa a passagem da cerca. Autênticos feiticeiros. Ora, Benguela, Huíla, Malanje e outras províncias irmãs da terra da Kianda estão cada vez mais distantes. Os prolongados fins-de-semana já não esticam os passos dos turistas internos como noutrora. A maré de acidentes nas estradas nacionais baixou. Saldo positivo. Os cidadãos salvos nesta consciente prevenção rodoviária nem têm a mínima ideia. Também reclamam a abertura dos portões da cerca. Não sabem que estariam a dormir nas gavetas das morgues.

Neste andar dos dias, coxo ou xoxo, desculpa-me, o senhor 2021 parece que ainda não chegou. Deveríamos aumentar o tempo de vida do teu querido irmão, para todos compreendermos a minha fala, apesar de ter sido uma verdadeira besta connosco. O teu próprio irmão se parece muito contigo, Kaculo e Kabaça ou Jamba e Ngueve.
Filho de peixe peixinho é…

Pombal Maria 

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