Cultura

Provérbio, género ensaístico oral

O ensaio é um bom tema de conversa. É um genéro pelo qual me apaixonei, definitivamente, após a leitura do “Roteiro da Literatura Angolana” de Carlos Ervedosa, ainda nos tempos de estudante do Liceu de Benguela. Mais tarde, li os textos de Mário Pinto de Andrade, Costa Andrade (Ndunduma) e de Mário António. Mas as minhas inquietações residiam na resposta acerca do reconhecimento do texto oral e legitimação das suas formas discursivas

27/02/2021  Última atualização 21H00
© Fotografia por: DR
Quando em 1981 fundámos a Brigada Jovem de Literatura da Huíla, o núcleo duro era constituído por um grupo de estudantes e professores entusiastas, amantes das letras com fortes apelos interiores  para o exercício do penoso ofício. Dele faziam parte: Ana Paula Abreu Dias, Aníbal Simões, Carla Peairo, Diniz Kakinda Luís Neto (Kilunji Kota) e o autor destas linhas.O santuário era o meu quarto, um aposento da antiga pensão "Sogelo”, trespassado pelo meu amigo Gentil Manjenje. Situava-se a escassos minutos do Grande Hotel da Huíla e da então Faculdade de Letras. A proclamação da Brigada, no dia 17 de Setembro daquele ano, cujo palco foi o cinema Arco Íris, demonstrava a adesão da juventude huilana ao projecto associativo e às ideias que lhe davam forma.

Nessa época, para alguns de nós, a genologia literária estava na ordem do dia. Tzvetan Todorov, com os seus "géneros do discurso”, e Gérard Genette, com os seus "figures” e depois "palimpsestos”, membros da escola estruturalista francesa e autores de livros a que tínhamos acesso através das traduções portuguesas. O ensaio ganhou foros de cidadania nos primeiros momentos da criação da Brigada. Ao definirmos a estrutura da nossa revista, contámos com seis secções. Donde saiu o "Hexágono”, nome que unanimemente elegemos, durante uma das primeiras reuniões realizadas na biblioteca da Faculdade onde trabalhava a Ana Paula. Entre as referidas secções tínhamos o ensaio, ao lado da tríade genológica ocidental, poesia, prosa e drama a que se juntava a crítica literária e uma introdução. O primeiro número foi um trabalho que contou com os recursos da reprografia do centro de documentação de que o Secretário-Geral da Brigada era funcionário. A maioria dos membros do núcleo duro publicaram textos. As secções do ensaio e da crítica traziam a minha assinatura.

O que fazíamos com esse exercício? Era a manifestação de uma consciência histórico-literária a respeito da tradição ensaística angolana. A sua existência está suficientemente documentada e podemos comprová-lo, se partirmos do pressuposto de que a literatura angolana constitui um sistema. Os mais cépticos perguntarão: Existirá ensaio na tradição literária angolana? Quanto a mim, bastaria uma simples afirmação. Nós procurávamos ser os discípulos dos discípulos. Os nomes dos mestres do discurso ensaístico perdem-se na noite dos tempos imemoriais. No que diz respeito à tradição paremiológica oral, temos os provérbios e aforismos em línguas nacionais e quanto à tradição escrita, podemos recuar ao século XVI, isto é, à epistolografia do chamado Reino do Kongo. Mas temos igualmente os ensaístas naturais de Angola e outros que assumem inteiramente a condição e identidade dos naturais, desde o século XVIII. E, no século XIX, dá-se a consolidação de ideologias nativistas que têm no texto argumentativo o seu principal instrumento, suportado por um bom conhecimento das tradições orais.

O saber que se perde na noite dos tempos imemoriais é susceptível de classificação endógena em línguas nacionais. Os investigadores angolanos do século XIX, entre os quais se destaca Joaquim Dias Cordeiro da Matta, bem como os missionários protestantes e católicos, tais como o suíço Héli Chatelain, publicado em 1894, e o francês Carlos Estermann, entre outros, realizaram um trabalho notável. O primeiro com o seu "Folk-Tales of Angola” (Contos Populares de Angola) e o segundo com a sua obra consagrada, no século XX, ao estudo da antropologia do sudeste de Angola. Quanto à classificação, as categorias de géneros argumentativos existem em diferentes línguas. São exemplos "olusapo” ou "esapulo” em Umbundu, "jisabu” em Kimbundu, equivalentes do provérbio. Na sua interpretação do folclore kimbundu, Héli Chatelain identifica sete classes de textos. O quarto, diz ele, é a da "filosofia, não metafísica, mas moral, e é representada por provérbios chamados ji-sabu”.

Nessa década de 80 do século passado, a leitura voraz dos romances de autores africanos, tais como Chinua Achebe e Ngũgĩ wa Thiong’o, desencadeava interrogações sobre a eficácia parafrástica dos provérbios nas estratégias enunciativas atribuídas a personagens centrais. Trata-se de um expediente narrativo que queríamos conhecer. A acção enunciativa de personagens como Onkokwo e Ezeulu, respectivamente, em "Things Fall Apart” e "The Arrow of God”, dois romances de Chinua Achebe, constituía um exemplo do que merecia interpretação e explicação. Revelava-se necessário determinar o lugar do arquétipo virtual da memória do próprio autor e a função da paráfrase na formulação dos provérbios. Neste caso, podia-se chegar à conclusão de que os provérbios eram fragmentos autónomos traduzidos do Igbo, a língua materna de Achebe, para o inglês, a língua em que foi escrito o romance. Essa autonomia permitia admitir o facto de estarmos diante de um género de texto que, na sua singularidade, transita para um outro texto sem alterações significativas de sentido. É o processo a que Gérard Genette viria a designar por transtextualidade ou hipertextualidade.

Portanto, a tradição ensaística em Angola, no que tem a ver com a genologia, é anterior ao surgimento do ensaio enquanto género e sua respectiva denominação, tal como se refere na historiografia francesa e inglesa do século XVI cujos marcos são, respectivamente, Michel de Montaigne e Francis Bacon. No Ocidente, não é o sentido atribuído por Montaigne ao tipo de textos que escrevia com os seus "ensaios” que vai definir a história do género. Pelo contrário, será a semântica britânica do "essay” de Bacon que, aliás, toma de empréstimo a palavra do francês, mas não o sentido. Foi Bacon que se referia aos seus textos ensaísticos como "fragmentos de meus conceitos”. Na concepção britânica, entende-se que é "uma corrida solta da mente, uma peça irregular, no sentido de não ser regular e ordenada”.

Hoje, a filosofia e a teoria dos géneros literários define o ensaio como modelo do género argumentativo que pode assumir a forma de um dos seguintes sub-tipos textuais, designadamente: diálogo, epístola, miscelânea, literatura paremiológica (aforismos, máximas, provérbios, adivinhas, refrões), glosa ou comentário, ensaio, artigo, autobiografia, memórias, sermão, prólogo e tratado.

Por isso, regista-se actualmente uma relativa abundância bibliográfica sobre o género. O alemão Theodore Adorno, resumiu bem os traços caracterizadores do modelo deste texto no Ocidente. Ele considera que o ensaio suspende o conceito tradicional de método, denuncia silenciosamente a ilusão de que o pensamento possa escapar do âmbito do discurso demonstrativo. Vai mais longe, ao afirmar que o ensaio desafia a noção de que o historicamente produzido deve ser menosprezado como objecto da teoria.

Curiosamente, fora do espaço europeu e anglo-americano, o ensaio latino-americano mobiliza igualmente um grande interesse dos investigadores e centros de estudos dos próprios países sul americanos. Apesar da sua filiação histórica às tradições ocidentais, o ensaio das Antilhas, Caraíbas e América do Sul revela muitos traços que o distinguem. Aliás, foi o ensaísta mexicano Alfonso Reyes que classificou o ensaio como género misto, centauro dos géneros.


Princípio da economia

Mas o problema digno de interesse em Angola tem a ver com o ensaio paremiológico de que os aforismos, máximas, provérbios, adivinhas, refrões são sub-tipos, como foi referido. Para uma reflexão produzida no contexto angolano esse tipo de texto suscita reflexões que se inscrevem na abordagem do regime de oralidade dominante, à luz da "crítica da razão oral”, tal como definiu o senagalês Mamousse Digne. A respeito das condições de possibilidade de o provérbio, na sua forma oral, ser expressão do pensamento filosófico, Mamousse Digne sustenta que ele é caracterizado por dois traços fundamentais: a figuração associada à função imagética e a brevidade que obedece ao princípio da economia consubstanciado na braquiologia.

Ora, a braquiologia do discurso proverbial deve suscitar uma abordagem que permita afastar a escritofilia e a tirania grafocêntrica, mas dando relevo à memória individual. Deste modo, é possivel admitir a existência de intelectuais e sábios que praticam discursos em obedi-ência ao princípio da economia. É a estes sábios africanos que o filósofo queniano Odera Oruka se refere quando fala da "filosofia da sageza”, inscrita no sistema da tradição oral, enquanto pensamento filosófico.

Para Odera Oruka, a filosofia da sageza comporta "pensamentos construídos por  homens e mulheres sábios em qualquer comunidade através dos quais se explica o mundo, situando-se entre uma sabedoria popular (máximas comunitárias bem conhecidas, aforismos e verdades do senso comum geral) e uma sabedoria didática racional de alguns indivíduos que são membros da comunidade”. Julgo fazer sentido denominar os referidos  sábios como "intelectuais não-eurófonos”, expressão usada por Ousmane Oumar Kane para referir apenas autores africanos inscritos na tradição filosófica islâmica. Aliás, a recuperação da ideia formulada por Ousmane Oumar Kane, justifica-se na medida em que ele sustenta a necessidade de repensar o monopólio das línguas europeias e romper com a ordem epistemológica que lhes está subjacente.

A este propósito, pode dizer-se que, de acordo com Ousmane Oumar Kane, é no espaço compartilhado por intelectuais não-eurófonos, intelectuais eurófonos e intelectuais ecléticos, onde identificamos versões do ensaio paremiológico: aquele que é resultante da produção discursiva dos sábios, em regime de oralidade dominante, as glosas que resultam de uma mistura das versões originariamente veiculadas em línguas africanas, as versões bilingues e as versões traduzidas em línguas estrangeiras.

Portanto, reconhecendo que no nosso país as práticas discursivas continuam a obedecer aos regimes de oralida-
de dominante, é legítimo que devamos alargar as frentes para o estudo da arte verbal e seus géneros, especialmente os géneros argumentativos.
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* Ensaísta e professor universitário

Luís Kandjimbo |*

Escritor

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